O Rei do Inverno, de Bernard Cornwell Excalibur

A idade das trevas britânica

Ricardo Ribeiro
Crónicas do Senhor da Guerra, de Bernard Cornwell
Vol. 1: O Rei do Inverno
Vol. 2: O Inimigo de Deus
Vol. 3: Excalibur
Trad. de Ana Maria Chaves e Paula Teixeira
Planeta Editora, 1997-98

A temática arturiana tem merecido nos últimos tempos uma atenção especial do público português, provavelmente graças à popularidade alcançada por "As Brumas de Avalon", de Marion Zimmer Bradley. Quando se fala de Artur, o Rei, fala-se de todo um mundo mítico onde a magia surge em cada momento, de lutas entre forças do bem e do mal, de personagens que são redefinidos e reinventados por cada autor, com a liberdade que sempre permite a lenda.

Na realidade pouco se sabe sobre o cenário arturiano. Vivia-se uma Idade das Trevas na Grã-Bretanha, e os factos históricos que chegaram até nós são muito pouco esclarecedores. Mesmo a base de toda a lenda, a existência de Artur, não é dada como certa. Existem vestígios de um Artur, através da multiplicação de homens assim chamados, numa moda que ficou assinalada em meados do século VI. Este tipo de situação revela habitualmente a existência de um ilustre que inspira a disseminação de utilização do nome. A primeira referência literária a Artur surge no poema épico "Y Gododdin", datado do início do século XVII. Contudo, muitos especialistas atribuem esta referência a uma posterior interpolação no texto. Poderíamos continuar a citar os indícios da existência de Artur, assim como os argumentos dos que não acreditam na sua real existência, mas tornaríamos este texto num breve ensaio de História, longe portanto dos objectivos pretendidos. Não desanimem os mais curiosos. Bernard Cornwell apresenta, no final de cada um dos três volumes que constituem esta obra, uma breve súmula do problema, não só referente a Artur mas também aos principais personagens que surgem no universo arturiano: Lancelote, Merlin, Galaad, Guineverre. Também a questão do Graal e de Camelote é sucintamente explicada para um correcto enquadramento dos recém-chegados à temática.

Mas o personagem principal da trilogia não existiu certamente. Trata-se de um guerreiro de origem humilde cuja narrativa retrospectiva dá corpo à obra. Todo o romance surge como escrito por Derfel, de seu nome. E ele escreve já numa fase adiantada da sua vida, enquanto monge recluso num pequeno convento, a pedido da Rainha daquelas terras. Pontualmente, o fio natural da história é interrompido para dar lugar a breves diálogos entre o nosso herói e a sua patrona. Aí aprendemos que para evitar a ira do padre Samsun eles fingem estar Derfel a fazer a cópia de um escrito cristão para a língua dos Saxões. Manobra engendrada para iludir o terrível Samsun, que não poderá nunca suspeitar que na realidade se trata das memórias de Derfel aquilo que é passado para o pergaminho pela pena do monge. Isto porque as memórias de Derfel estão inevitavelmente associadas à vida e obra de Artur, tão odiado pelos cristãos. Entregue cada parte do manuscrito à Rainha, logo ela corre para o seu castelo, onde um outro letrado trata de repor o texto na língua bretã. E assim ela segue a narrativa com ansioso interesse, especialmente interessada nos episódios de amor.

Neste ponto, receamos levantar mais o véu da história, sob pena de, inadvertidamente, revelar um ou outro pormenor que supostamente não é do conhecimento do leitor antes de tempo. Mas podemos adiantar que a verdadeira história se inicia na juventude de Derfel, no momento em que ele abate o seu primeiro inimigo, o primeiro sangue saxão que verte. E vai-se desenrolando até colocar lado a lado Derfel e Artur, homens sensivelmente da mesma idade. Conta como o humilde guerreiro se torna um dos homens de confiança do prometedor nobre, e, mais tarde, o seu único verdadeiro amigo. Com esta relação no coração da acção, vamos poder seguir um dos mais significativos períodos da História da Grã-Bretanha: o das invasões saxónicas, marcadas pelos problemas sentidos pelos bretões em manterem-se unidos para enfrentar o inimigo comum.

A magia é omnipresente e vital. Morgana, Merlim e Nimue são as personagens que se debatem para repelir a expansão do Cristianismo, e personificam as forças conservadoras que anseiam pela restauração das antigas religiões, dos deuses ancestrais da Bretanha. Como verá o leitor, este conflito de crenças assumirá um papel determinante na história em diversas situações. O que será compreensível se pensarmos que é talvez o elemento mítico que torna a Idade das Trevas tão apaixonante e tão distinta na produção de romances históricos.

Bernard Cornwell, londrino de nascença e naturalizado americano, distingiu-se pela série "Sharpe", que decorre no cenário das Guerras Peninsulares. Depois, trabalhou numa outra série literária, "Starbuck", com o pano de fundo da Guerra Civil Americana, também conhecida como Guerra da Secessão. Esta trilogia, "Crónicas do Senhor da Guerra", editada integralmente pela Planeta Editora entre 1997 e 1998, é uma obra-prima deste autor, que não pode passar despercebida.

Lê-se compulsivamente, como acontece com qualquer boa obra literária, numa sucessão de acontecimentos encadeados, magistralmente distribuídos pelos capítulos de forma a impedir o leitor de se deter nas transições. Os combates, traições e amores agarram o leitor. Os personagens são caracterizados em pormenor, mais uma vez recriados à luz da tradição dos escritores arturianos. Mais do que recriados, sofrem o peso do tempo, mostrando uma evolução natural nas suas crenças e personalidades à medida que a história e os anos avançam. Pessoalmente, aprecio bastante o romance que se estende por longo tempo, acompanhando na íntegra a vida dos indivíduos nascidos por obra do autor. Melhor ainda quando abrange mais do que uma geração, mas não é este o caso de "Crónicas do Senhor da Guerra".

A tradução de Ana Maria Chaves e Paula Teixeira é irrepreensível. O texto não seria dos mais difíceis, isento que é de tecnicismos ou outras situações fora do comum, mas a equipa de tradução conseguiu uma riqueza de vocabulário que torna a leitura um verdadeiro prazer em acompanhar na nossa própria língua.

Ricardo Ribeiro
Termos de utilização ⋅ Não reproduza sem citar a fonte