Livros

O esqueleto 509

Desidério Murcho
A Centelha da Vida, de Erich-Maria Remarque
Tradução de José Saramago
Europa-América, 1963, 1997, 470 pp.

Eis a reedição de uma daquelas obras que me marcaram e que terá com certeza marcado muitos leitores da minha geração. Erich-Maria Remarque é hoje um escritor praticamente esquecido, apesar de o sucesso do seu livro Nada de Novo na Frente Ocidental, que em Portugal se chamou A Oeste Nada de Novo, ter introduzido no nosso linguarejar essa expressão. Remarque foi um escritor muito popular no seu tempo e viu muitos dos seus livros transpostos para o cinema. Alguns desses filmes tiveram também muito sucesso, como O Arco do Triunfo, que constitui talvez o seu mais famoso livro.

No entanto, eu prefiro A Centelha da Vida. Pela crueza, pela dor, pela denúncia e pela enorme contenção literária que perpassa por todo a obra. O livro descreve a vida num campo de concentração nazi nos meses que antecederam o fim da guerra. O retrato das vítimas e dos seus carrascos é admirável. Os personagens têm um recorte trágico e uma espessura humana inesquecível. A vida miserável de um punhado de homens que resiste às agruras da fome e às humilhações dos nazis é retratada com mestria e com conhecimento de causa: o autor teve de rodear-se de uma ampla documentação para conseguir um retrato tão extraordinariamente convincente.

O livro é apaixonante desde o primeiro parágrafo:

O esqueleto 509 ergueu lentamente a cabeça e abriu os olhos. Não poderia dizer se desmaiara ou se, simplesmente, adormecera. De resto, a diferença entre os dois estados não era grande: a fome e o esgotamento há muito tempo já que haviam apagado as fronteiras entre eles. Era o mesmo deslizar em profundidades lamacentas donde lhe parecia não poder arrancar-se nunca mais.

Um dos aspectos que chocam é o facto de nunca sabermos o nome do 509, o protagonista. Com este pequeno recurso literário, Remarque consegue transmitir-nos duas coisas: a ideia de que existiram muitos vítimas sem nome do horror nazi e a violentação de toda e qualquer identidade imposta pelos carrascos fascistas às suas vítimas.

Há uma particularidade que gostaria de destacar e que constitui o elemento mais favorável à inteligência e sensibilidade de Remarque. Os algozes não são retratados como figuras distantes e artificialmente malévolos e caprichosos. Eles são sem dúvida malévolos e caprichosos, mas são personagens de carne e osso. Alguns deles são pais de família “honrados”; são bons pais, bons maridos e até têm animais de estimação, pelos quais são capazes de sofrer. Este aspecto dos labirintos tenebrosos da psicologia e da moral humanas é talvez o que ainda hoje guardo na memória com mais vivacidade. É esta ambiguidade, que faz com que o maior dos assassinos possa sentir pena quando o seu animal de estimação morre, que explica a miséria humana: o mal não é uma aberração inumana e o que faz o seu horror não é o seu carácter de excepção, mas antes a sua impávida normalidade. Pense-se como durante séculos a escravatura era encarada com naturalidade; pense-se como durante dezenas de anos as mulheres não tinham direitos eleitorais e políticos na mais antiga democracia do mundo; pense-se como o racismo é ainda uma constante vergonhosa. Todas estas coisas acontecem com naturalidade e os seus protagonistas são pessoas normais e não os “maus” inenarráveis e artificiais, meio loucos, da banda desenhada e dos filmes de acção.

Numa altura em que os nossos jovens estão cada vez mais alheados do mundo real, vivendo numa alienação de novo-rico, invadidos por uma toda-poderosa indústria do divertimento que está a conduzir a humanidade aos mais profundos abismos da ignorância e que lhes vende a fantasia por atacado, este é um livro que devia ser lido e discutido em todas as escolas do país. Não há muito tempo, a propósito de uma qualquer exposição sobre o Holocausto, vi uma rapariga afirmar, ao ser abordada pela jornalista da televisão, que tinha sido muito importante para ela descobrir os horrores do holocausto, que mataram milhares de pessoas inocente. Quando vi isto senti uma enorme dor moral. Ela não sabia que na verdade foram 8 milhões.

Esta é, pois, uma reedição muito bem-vinda. Só uma nota: na edição de 1963, afirma-se que o livro foi traduzido, por Saramago, a partir de uma tradução francesa, com autorização do autor. Na altura, o nome de Saramago aparecia apenas na ficha técnica. Agora, o editor achou por bem colocar o nome do Saramago na capa, o que acho uma excelente ideia. Mas acho uma má ideia que no interior do livro não refira o facto de não se tratar de uma tradução a partir do original alemão. A questão interessante é a de saber se fizeram isto só porque têm vergonha de não poder apresentar uma tradução do alemão, ou se têm vergonha do facto do Saramago não saber alemão. Em qualquer dos casos, é lamentável que se engane o público leitor.

Desidério Murcho
desiderio@ifac.ufop.br
Termos de utilização ⋅ Não reproduza sem citar a fonte