O Carácter da Mente
Filosofia da mente

Propostas ousadas

Leônidas Hegenberg
O Carácter da Mente: Uma Introdução à Filosofia da Mente, de Colin McGinn
Tradução de Fernanda O'Brian, a partir da segunda edição inglesa revista e actualizada
Lisboa: Gradiva, 2011, 285 pp.
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McGinn nasceu em 1950. Seus estudos universitários principiaram em Manchester (psicologia) e culminaram em Oxford (filosofia). Recebendo o Prêmio John Locke (1973), passou a lecionar no University College (London), onde permaneceu até 1985. Transferindo-se para Oxford, voltou-se para o que ali se denomina "Mental Philosophy". Em 1990, fixou-se em Rutgers, The State University of New Jersey, dedicando-se a examinar a possibilidade de resolver (ou não) certos problemas que integram a questão "mind-body". Entre suas produções mais recentes, encontramos Problems in Philosophy (Oxford, 1993), The Space Trap (London, 1992) e Mental Content (Oxford, 1989).

A primeira edição deste The Character of Mind apareceu em 1982. Era uma introdução à "philosophy of mind", destinada sobretudo aos jovens que iniciavam seus cursos superiores (de filosofia ou de psicologia). McGinn evitou redigir uma espécie de "banco de dados", onde ficassem descritos os muitos temas associados à mente. Em vez disso, elaborou texto com algumas propostas ousadas, sem deixar de ressaltar, no entanto, as críticas a que poderiam estar sujeitas.

Estranhei muito o fato de que não há, no livro, nem nomes de autores, nem notas de pé de página, dando crédito a quem de direito, como proponente das posições discutidas. A ausência de notas de pé de página é, em verdade, uma benesse — elas servem apenas para interromper uma leitura agradável, obrigando o leitor a buscar títulos de livros ou artigos, para retornar ao ponto da interrupção, com as idéias "cortadas". Todavia, a falta de nomes de autores pareceu intrigante. Como António Brito da Cunha já dizia, há tempos, quando atuava na Editora da USP, a falta de referências bibliográficas é sempre muito suspeita, gerando a impressão de que o autor "tirou tudo de sua própria cabeça"... Felizmente, porém, McGinn esclarece, no prefácio, que praticamente todas as idéias do livro nasceram de explorar idéias alheias — tornando meio impraticável a tarefa de explicitar as origens de cada qual delas. Isso posto, vejamos o que o livro contém.

Notemos, de partida, que a primeira edição do livro apareceu em 1981. Nessa época, a "filosofia do espírito" começava a ganhar interesse, proclamando sua independência, para tornar-se disciplina filosófica autônoma. De acordo com McGinn, vários novos tópicos invadiram a disciplina. Entretanto, as maneiras de vê-los não sofreu alterações dignas de registro. Em vista disso, McGinn, ao preparar a segunda edição de seu livro (1997), limitou-se a acrescentar três novos capítulos ao texto original. São os capítulos 3 (Consciousness), 5 (Content) e 7 (Cognitive Science), com as respectivas indicações bibliográficas.

O primeiro capítulo (Mental Phenomena), de 16 páginas, é uma introdução geral ao estudo da mente. Tendo em conta animais e, mais amplamente, as máquinas "pensantes" da atualidade, McGinn prefere substituir "estudos da mente" por "estudos de fenômenos mentais"". Daí em diante, o autor focaliza, em sucessão, idéias de muitos pesquisadores que se têm debruçado sobre os eternos problemas do espírito. No cap. 2 (Mind and Body), p. 17-39, são examinados os trabalhos de Davidson, Nagel, Kripke e Putnam. Convém ressaltar que o Nagel aqui discutido é Thomas, nascido em 1937 — responsável pelas interessantes análises que tentam conciliar a visão subjetiva (pessoal) dos eventos e do universo, e a visão objetiva (imparcial) desses mesmos eventos e desse mesmo universo. Não confundir, pois, com Ernest Nagel (1901-1985), figura proeminente da corrente do empirismo lógico, autor que examinou, de modo claro (talvez definitivo) a noção de "redução", pela qual uma teoria é "absorvida" por outra.

No cap. 4 (Acquaintance With Things), p. 49-72, estão discutidas as contribuições de Bertrand Russell. É interessante ver, pelo prisma de um filósofo "da mente", como repercutem as noções de Russell, cujos estudos de "conhecimento por contato", de 1912, foram, de fato, muito importantes. O cap. 6 (Thought and Language), p. 83-106, não podia afastar-se (e não se afastou) de várias e notáveis contribuições de Davidson, Fodor e Geach. A criticar, neste ponto, a ausência de algum comentário em torno das idéias de Grice — sem falar das idéias de Quine. No cap. 8 (Action), p. 117-139, os pesquisadores focalizados são Davidson (mais uma vez) e, com grande ênfase, O'Shaughnessy — de quem herdamos (cf., em especial, seu livro The Will: a dual aspect theory, Cambridge, 1980) a enfática defesa da compatibilidade entre as teorias causais da ação e as noções de "escolha" e de "tentativa".

O livro termina com um capítulo de 22 páginas, dedicado ao "eu" (The Self) e com um epílogo de sete páginas (The Place of the Philosophy of Mind). Ali, os autores comentados são T. Nagel (mais uma vez), D. Parfit (menos conhecido, autor de curiosas análises da noção de "welfare", sobretudo na economia) e Shoemaker, defensor de um curioso "funcionalismo" — em que se admite a possibilidade de existirem dois indivíduos funcionalmente similares, porém diversos em seus estados mentais.

No epílogo, McGinn se volta para as idéias de M. Dummett, célebre por seus estudos da lógica de Frege e do "anti-realismo" (caracterizado pelo abandono da bivalência, ou seja, da idéia de que as proposições devam ter um de dois valores de verdade, o "verdadeiro" e o "falso"). Lembremos alguns itens de interesse. Há um "acerca de" ("about") associado às atitudes (por exemplo, crenças, desejos, intenções, esperanças, receios); ao lado, há, também, um "acerca de" associado à linguagem (por exemplo, o significado de sentenças e o significado de sinais convencionais). De acordo com idéias comuns, explica-se o "acerca de lingüístico" em função do "acerca de atitudinal". Ora, Dummett, meio contra a maré, defende o oposto. (Não custa notar que Davidson sustenta a independência das duas perspectivas — afirmando que ambas requerem explanações em termos de algo "mais" básico.)

Nas oito novas páginas do cap. 3, agora incluído no livro, os pesquisadores analisados são D. Chalmers (Conscious Mind), J. Searle (The Rediscovery of Mind) e G. Strawson (Mental Reality). O cap. 5, em dez páginas, detém-se nas idéias de Fodor (agora como autor de uma teoria do conteúdo), Putnam (preocupado com o significado de "significado") e S. Stich (cujos estudos de "folk psychology" receberam, recentemente, elogiosas referências). Enfim, nas dez páginas do cap. 7, os autores comentados são J. Searle (preocupado com "minds and brains"), Z. Pylyshyn (que se tornou apreciado em função de estudos de cognição e computação) e M. I. Posner (estudioso dos fundamentos da ciência da cognição).

Tendo em conta que McGinn escreve de modo claro, não desce a minúcias que só importariam aos especialistas e alude a muitos pesquisadores que "estão na moda", pode-se concluir que este livro é de leitura agradável e proveitosa. No mínimo, uma boa introdução ao estudo da mente.

Leônidas Hegenberg
lh@phonet.com.br

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