Canções da Terra Distante, de Arthur C. Clarke
Livros

Lirismo em Thalassa

Desidério Murcho
Canções da Terra Distante, de Arthur C. Clarke
Tradução de Margarida Gomes e Eduardo Gomes
Publicações Europa-América, 1986

Arthur Clarke não é um escritor dotado. O seu estilo fragmentado e telegráfico faz lembrar um guião de cinema e não uma obra literária. No entanto, tem uma fértil imaginação cientificamente disciplinada e consegue, em alguns momentos, captar toda a atenção do leitor e marcá-lo indelevelmente. É o que acontece com este livro.

Um dos aspectos impressionantes nos seres humanos é o facto de pouco se preocuparem com o que vai acontecer dentro de 50 anos aos seus descendentes. É por isso mais difícil ainda que concebam o fim do planeta Terra — que acontecerá, mais cedo ou mais tarde, porque o próprio Sol não é eterno. Imagine que em vez dos milhões de anos de vida que se prevê que o Sol tem pela frente, se descobre que o Sol está condenado a morrer por volta do ano 3500, sem apelo nem agravo. Imagine que por volta do ano 2200 as pessoas começam seriamente a preocupar-se com o destino da humanidade. E imagine, ainda, que até essa altura — e muito depois disso — nunca se descobre vida inteligente extraterrestre. São estes os pontos de partida para esta excelente narrativa de Clarke.

A narrativa situa-se no planeta Thalassa, um dos primeiros planetas a ser colonizado por seres humanos, desenvolvendo-se em torno da visita forçada de uma nave que recentemente deixara a Terra. Esta visita deixa toda a gente um pouco apreensiva pois há uma diferença crucial entre os dois povos: os da nave visitante são os últimos seres humanos a deixar o planeta de origem; o povo de Thalassa nasceu e cresceu num planeta mais ou menos paradisíaco, uma pequena comunidade pacífica e não muito empreendedora, e pouco têm a ver com os outros seres humanos e com a tragédia do planeta Terra — excepto por serem humanos.

Clarke desenvolve uma história cheira de lirismo — o que é raro nele —, com personagens fortes e um sentimento épico morno que tudo invade lentamente, como uma maré mole que conquista com todo o vagar as areias de uma praia deserta. Admirável.

Desidério Murcho
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