The Closing of the Western Mind
1 de Maio de 2004 ⋅ Livros

As guerras da fé

Desidério Murcho
The Closing of the Western Mind: The Rise of Faith and the Fall of Reason, de Charles Freeman
Londres: Pimlico, 2003, 480 pp.
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"O fechamento do espírito ocidental tem sido demasiadamente ignorado", declara o historiador Charles Freeman na Introdução desta reveladora obra. Por "fechamento" entende o autor a resistência e combate ao pensamento racional, substituindo-o por formas sapienciais e iniciáticas de "conhecimento", desempenhando a luta pelo poder religioso o papel do argumento racional e a fé o papel da prova empírica. Segundo Freeman, a guerra das ciências que tem início com Galileu e que opõe o pensamento racional à autoridade religiosa foi apenas o segundo momento de uma guerra iniciada muito antes, com a adopção do cristianismo no Império Romano. A novidade mundial introduzida pelos gregos — a investigação rigorosa das coisas, sem atender a outras autoridades que não a razão e a observação — foi congelada pelo cristianismo por mil anos, tendo começado a renascer apenas com Tomás de Aquino, no séc. XII. As ideias do próprio Aquino foram rapidamente condenadas pelas Universidades de Paris e Oxford, e este foi convocado pelo Papa, em 1274, onde seria muito provavelmente humilhado e confrontado com as críticas que lhe eram levantadas — se não tivesse morrido na viagem. Mas não são as críticas que constituem o pecado contra a humanidade e a razão; é o modo como estas críticas se fazem: não entre pares e sem autoridades (religiosas ou outras), como nos gregos e na ciência e academias actuais normais, mas com a ameaça de prisão, sanções, inferno, tortura ou morte, como aconteceu com Giordano Bruno ou Galileu.

Freeman defende que o cristianismo mergulhou a Europa, desde a sua implantação, no obscurantismo irracionalista, avesso à investigação livre da verdade e à crítica aberta entre pares, essa novidade grega radical. A dado ponto, foram os árabes que prosseguiram o estudo livre iniciado pelos gregos. Al-Razi (séc. X) e Ibn al-Nafis (séc. XIII), por exemplo, estudaram o trabalho de Galeno, mas introduziram inovações e criticaram os erros deste; "em contraste, as obras de Galeno eram nesta altura tratadas como textos sagrados na Europa cristã, não se fazendo qualquer tentativa para progredir com base nelas" (pág. 331). Esta mentalidade obscurantista tem ainda muita força em países menos desenvolvidos do continente europeu, onde dizer que Kant ou Descartes erraram é considerado blasfémia.

O fechamento do espírito ocidental não se deve tanto a uma característica especial do cristianismo, que o torne especialmente obscurantista, mas às contingências históricas da sua implantação artificiosa no Império Romano. Os gregos tinham a sua religião, e os romanos também, mas eram tradições fortemente implantadas na vivência das pessoas e que não tinham necessidade de se afirmar pela força, nem de combater "pagãos" ou "livres-pensadores". A religião era relegada para o domínio do privado, subsistindo a nível oficial como um formalismo de estado. Fé e razão estavam em paz. A implantação do cristianismo, defende Freeman, arrasta consigo uma enorme aversão à racionalidade — patente mesmo em alguns dos maiores filósofos cristãos, como Santo Agostinho. E é esta atitude que fechou o espírito ocidental, que só Tomás de Aquino voltaria abrir, com a sua confiança na racionalidade. É a história desse fechamento que Freeman nos apresenta, com elegância e precisão. Uma obra que urge ler e discutir — ainda que para discordar.

Desidério Murcho
desiderio@ifac.ufop.br
Texto publicado no jornal Público (1 de Novembro de 2003)
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