Escritos sobre Nietzsche, de Giorgio Colli
História da filosofia

O academismo que matou Nietzsche

Desidério Murcho
Escritos sobre Nietzsche, de Giorgio Colli
Trad. e pref. de Maria Filomena Molder
Relógio d'Água, 2000, 180 pp.

Esta obra foi traduzida e prefaciada por Maria Filomena Molder. Trata-se de uma colecção de pequenos textos de Colli (3, 4 páginas) sobre as várias obras de Nietzsche, de O Nascimento da Tragédia a O Anticristo, passando por obras como A Filosofia na Época Trágica dos Gregos, A Gaia Ciência, Assim Falava Zaratustra, Para Além do Bem e do Mal, etc.

O interesse de qualquer destes textos de Colli é nulo e atraiçoa um dos mais rebeldes filósofos da história, tornando-o pacífico, esterilmente académico e inócuo. O autor obtém este efeito escusando-se quer a apresentar as ideias de Nietzsche quer a discuti-las. Domestica-o fazendo longas perorações pseudo-poéticas sobre o que lhe vai na alma quando lê as obras de Nietzsche, ou sobre o que presumivelmente ia na alma do próprio de Nietzsche quando escrevia, mas nunca lhe discutindo as ideias — o pior que se pode fazer a um filósofo.

Vejamos um exemplo: "Todas as vezes que o lemos, este livro toma uma feição diferente, uma nova feição, sobretudo, mesmo se a sua exposição parece benignamente acessível, se a sua linguagem é límpida e equilibrada, sem constrangimentos na argumentação, sem ambiguidade." Este é um texto sobre A Gaia Ciência. Não explica as ideias de Nietzsche, nem as discute. Limita-se a domesticá-las, fazendo brilharetes de comentário literário bacoco, sem que obviamente tenha percebido as ideias do autor, excepto nos seus traços mais gerais e primários. Um livro que não vale a pena ler. Leia-se antes Nietzsche.

Este tipo de livros, artigos, conferências e comentários é infelizmente muito comum entre nós — isto é, os comentários laterais, que substituem a discussão e a avaliação crítica directa das ideias dos filósofos por comentários sobre o que nos vai na alma quando lemos os seus textos, ou sobre o estilo literário dos filósofos. Acho que isto acontece porque em Portugal e noutros países igualmente atrasados do ponto de vista filosófico e cultural as pessoas não têm preparação para ler os grandes filósofos; e, realmente, se me derem um texto de biologia molecular, eu pouco mais poderei fazer do que apreciar o estilo do autor. É o que acontece a Colli e infelizmente a tantos outros autores que sabem menos de filosofia do que qualquer pessoa razoavelmente inteligente é capaz de aprender em seis meses se ler os livros adequados. Entre os quais este definitivamente não se encontra.

Desidério Murcho
desiderio@ifac.ufop.br
(Livros, O Independente, Outubro de 2000)
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