A Conspiração de Papel
14 de Junho de 2004 ⋅ Livros

O judeu pugilista

Ricardo Ribeiro
A Conspiração de Papel, de David Liss
Edições Saída de Emergência, 2004, 416 pp.

A história inicia-se com um episódio aparentemente casual, e dizemos casual porque nada nesta narrativa se passa acidentalmente; serve esta espécie de prelúdio que iludirá o leitor desprevenido com o seu odor de introdução despreocupada, para apresentar a personagem principal. Não que seja o conspirador nuclear, mas porque Benjamim Weaver será figura central, lutando contra forças obscuras para desvendar os pequenos grandes mistérios que no seu todo formam uma situação potencialmente perigosa para o próprio país.

Quem é Benjamim? Um judeu de origem portuguesa que renegara a sua família por razões que apenas mais para a frente compreenderemos. Sozinho nas ruas, singrara como pugilista, e afastado da comunidade judaica e sem pertencer verdadeiramente a qualquer grupo, tornara-se um lobo solitário, que ganha a vida como detective privado quando o livro se inicia.

O caso que agora é trazido até si será de vital importância para a sua vida: entre outras coisas implica a suspeita de que o pai de Benjamim, recentemente falecido, teria sido assassinado e não acidentalmente atropelado por um coche, como se fizera crer. É o início de uma trilha perigosa que conduzirá o bizarro herói pelos meandros da alta finança inglesa do século XVIII, aproximando-o da família e das suas raízes a um ponto que ele nunca imaginara possível.

Nas aventuras que viverá nas semanas seguintes, conhecerá a paixão pela sua prima Miriam, correrá risco de vida ao escapar ileso a todos os atentados que os que desejam ver a inevstigação parada lhe preparam e conhecerá o enorme poder das forças que verdadeiramente mandam na Inglaterra: O Banco de Inglaterra e a Companhia do Mar do Sul.

A Conspiração de Papel torna-se divertida no momento em que nos apercebemos da originalidade temática da história que nos é apresentada. O romance policial histórico parece andar na moda nos últimos anos, mas se é com grande frequência que vimos capas relacionadas com o esplendor conspirativo do Império Romano, ou com a misteriosa obscuridade medieval, já será quase inédito a escolha de ambientes relacionados com a aurora do moderno sistema financeiro, tempos em que a ideia de papel-moeda surgia aos olhos das pessoas comuns como algo bizarro, e em que conceitos hoje vulgares, como "obrigação", "acção" e "especulação", eram o último berro da modernidade.

É este quadro de fundo que David Liss nos apresenta magistralmente, gastando aqui e ali o "tempo" necessário para nos explicar estes rudimentos de economia, assim como o percurso histórico que conduziu as coisas ao estado em que nos são apresentadas no romance. A mestria encontra-se no equílibrio com que estas noções nos são transmitidas, nunca de forma maçuda, e sempre intercaladas com momentos de acção que agarram o leitor às páginas do livro.

O grande crime desta edição é a tradução. É inaceitável que seja apresentado ao público português uma tradução vinda do outro lado do Atlântico, com o sabor tropical que só um brasileiro sabe dar à língua. E nem se trata de um travo discreto, como por vezes sucede. Não. É brasileiro em todo o seu esplendor, com as diferenças claras que o distinguem do português europeu. É portanto uma agressão para o leitor português, que ao comprar um livro em Portugal espera encontrá-lo na sua língua real.

Por outro lado, todos os aspectos "plásticos" do livro se encontram exponenciados, com um grafismo apurado, não só na capa e contracapa como no interior; é sem dúvida um objecto muito agradável, sendo manchado enquanto livro pela circunstância linguística assinalada.

Ricardo Ribeiro
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