Contacto, de Carl Sagan
Livros

Não estamos sós

Desidério Murcho
Contacto, de Carl Sagan
Tradução de Fernanda Pinto Rodrigues
Gradiva, 1985, 1997, 463 pp.
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Eis que, 12 anos depois, a Gradiva reedita este grande romance do infelizmente já falecido Carl Sagan. A reedição é oportuna: amanhã (11 de Julho de 1997) estreia nos USA o filme baseado no livro. O filme foi realizado pelo famoso Robert Zemeckis, realizador do não menos famoso Forest Gump e tem como protagonista Jodie Foster. Não faço ideia de quando poderemos ver o filme em Portugal.

Ao reler este livro 12 anos depois apercebemo-nos de como entretanto aconteceram revoluções (parcialmente) tranquilas que na altura eram inimagináveis: a queda do muro de Berlim, a derrocada final do imperialismo comunista, o fim da guerra fria e um clima de cooperação nas relações leste-oeste. Quando escreveu este livro, Sagan foi incapaz de imaginar que tudo isto teria entretanto acontecido antes do Milénio. Deste ponto de vista, o livro é interessante como documento histórico de uma época que vivia constrangida pela loucura da guerra fria e pelo pesadelo constante de um conflito nuclear.

Como o título do livro sugere, o seu tema principal é o contacto com seres inteligentes extraterrestres. Como é óbvio, é muito interessante ver como alguém com formação superior na matéria imagina um contacto com tais seres. A este respeito, este livro é altamente recomendável. Uma das características mais chocantes dos jornalistas portugueses, sobretudo televisivos, é o facto de tratarem todas as matérias relacionadas com o cosmo, e sobretudo as relacionadas com a existência de inteligência extraterrestre, com uma certa ligeireza jocosa, como se se tratasse de uma brincadeira de miúdos de 12 anos, com a cabeça cheia de livros aos quadradinhos. Essa gente devia ler este livro. Mas isso, claro, está fora de questão: eles não têm tempo para ler livros, uma vez que estão o tempo todo entretidos a ganhar muito dinheiro. Por vezes gosto de imaginar que um pequeno meteorito de 5 quilos cai em cima de um estúdio de televisão no qual um desses senhores engravatados se dedica a gozar com tudo o que tem a ver com a ciência, ao mesmo tempo que a última birra do último político ou dirigente "desportivo" merece todo o destaque. Seria que mesmo assim, se sobrevivessem, essa gente não inverteria as suas escalas de valores? Nunca se sabe.

Mas voltemos ao livro. O contacto acontece quando, nas instalações da SETI (Search for Extra Terrestrial Intelligence) norte-americana (que na realidade é dirigida por Francis Drake), se capta o que só pode ser uma mensagem. Os primeiros passos consistem em eliminar a possibilidade de erro técnico e a possibilidade de ser uma mensagem oriunda de seres tangencialmente inteligentes mas decididamente terrestres. Dados estes dois passos, fica a certeza: não estamos sós no universo. A maior parte do livro descreve então todas as peripécias técnicas, políticas, sociais e pessoais que se seguiram à captação da mensagem. Sagan trata todos estes aspectos com a desenvoltura e inteligência que já lhe conhecemos dos anteriores livros de ensaios (como Cosmos e Os Dragões do Éden — o último livro que escreveu, The Demon-haunted World, foi publicado em Janeiro deste ano, mas a tradução portuguesa ainda não apareceu, infelizmente). O livro lê-se com entusiasmo até à última página, surpreendendo-nos a cada passo.

Há dois aspectos deste livro que gostaria de destacar: a forma como Sagan imaginou a codificação da Mensagem e a discussão das repercussões sociais que a sua captação implicou. Comecemos pelo primeiro aspecto. Muitas pessoas afirmam que, se por acaso existirem seres extraterrestres inteligentes (os outros, claro, não são tão interessantes) serão tão diferentes de nós que a comunicação será virtualmente impossível. Estaríamos numa situação semelhante à imaginada por Quine quando trata o tema da tradução radical: qualquer fragmento linguístico desses seres poderia ser interpretado de várias formas inconsistentes entre si, sem que se pudesse saber qual delas seria a melhor. A solução que Sagan apresenta neste livro é óbvia (e é também defendida por Francis Drake): baseia-se na chamada de atenção para o facto de esses seres terem de ter algo em comum connosco, por mais diferentes que sejam, uma vez que vivem no mesmo universo do que nós. Terão de saber o que é uma estrela e um planeta, terão de saber que 2 + 2 = 4 e que se p → q e se p então q. Portanto, a comunicação terá de ser possível. Leia o livro para ver em concreto como se pode codificar uma mensagem que possa ser descodificada por quaisquer seres inteligentes.

As repercussões sociais da captação da Mensagem são também muito bem exploradas por Carl Sagan, sobretudo as religiosas. Uma das coisas mais chocantes da religião cristã, por exemplo, é o seu provincianismo cósmico: tudo se passa como se Jerusalém e arredores, com os seus pastores de cabras, fosse tudo o que há no universo. A religião cristã, como todas as religiões, tem uma apetência óbvia pelo universal, mas os seus fiéis têm a tendência para pensar que o reino de Deus só compreende os comezinhos interesses humanos — provavelmente porque nunca olharam para o céu nocturno com a consciência culta da existência de biliões de mundos para além do nosso. É por isso natural que as religiões reajam de forma cautelosa, quando não abertamente hostil, ao conteúdo da Mensagem — e todas as subtilezas das posições das diversas religiões são descritas por Sagan com grande inteligência.

Em suma, um livro que se lê com imenso prazer, altamente informativo, e que trata de um dos mais importantes tópicos que dizem respeito aos seres humanos: estamos ou não sós? A resposta é negativa, claro, mas pense-se no seguinte: e se a resposta fosse positiva? Não seria isso igualmente da maior importância? É por isso que a questão de saber se estamos sós é como a conjectura de Goldbach: qualquer resposta, positiva ou não, é interessante.

Desidério Murcho
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