O Mito do Contexto, de Karl Popper
Filosofia da ciência

Contra o relativismo

Pedro Galvão
O Mito do Contexto, de Karl Popper
Edições 70, 1999, 256 págs.
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Karl Popper já é um autor conhecido entre os portugueses. Muitos dos seus livros estão disponíveis nas nossas livrarias, mas, curiosamente, isso não sucede com as suas três obras mais significativas (The Logic of Scientific Discovery (traduzida no Brasil), Conjectures and Refutations (entretanto traduzida em Portugal) e Objective Knowledge), em que Popper desenvolveu uma teoria da ciência abrangente e inovadora, que constitui um dos marcos da filosofia do século XX. É claro que também existe a filosofia política de Popper, mas a importância desta vertente do seu pensamento é muito mais questionável. O Mito do Contexto, o título agora publicado pelas Edições 70, não exclui essa vertente política, mas situa-se sobretudo no domínio da filosofia da ciência. Apresenta-se, aliás, como uma defesa da ciência e da racionalidade.

O Mito do Contexto reúne diversos ensaios, muitos baseados em conferências, em que Popper discute, de forma extremamente acessível, os temas que sempre lhe foram caros. No ensaio que intitula o livro, desenvolve a sua oposição a uma das teorias filosóficas mais influentes: o relativismo. Ao aceitarem o mito do contexto, os relativistas defendem que qualquer discussão racional produtiva exige que os participantes partilhem um contexto comum de pressupostos básicos. Sem deixar de denunciar os perigos de um optimismo excessivo quanto aos poderes da razão, Popper tenta mostrar que esta doutrina está errada. Depois de considerá-la em diversos contextos específicos, como o da linguagem e o da ciência, conclui com uma apreciação lógica geral: salienta que o mito do contexto resulta "da visão errónea de que toda a discussão racional tem de começar a partir de "princípios" ou, como muitas vezes são denominados, "axiomas", os quais, por seu turno, devem ser aceites dogmaticamente, se pretendermos evitar um retrocesso infinito."

O mito do contexto, no entanto, não é o único que Popper pretende dissolver. Os mitos de que a objectividade científica depende do "espírito imparcial dos cientistas", de que a ciência se baseia em observações puras, não impregnadas de teoria, de que as teorias científicas, sendo apenas instrumentos para a realização de previsões, não proporcionam qualquer descrição profunda da realidade, contam-se entre os alvos principais das críticas de Popper. Todas estas críticas, dispersas pelos restantes ensaios, se integram na defesa da concepção falsificacionista da ciência. Segundo esta concepção, o método científico não se caracteriza pelo uso de inferências indutivas, ou seja, fazer ciência não é estabelecer teorias a partir de dados observacionais. Os dados observacionais só têm relevância quando são utilizados para tentar refutar ou falsificar teorias científicas. Estas começam por ser conjecturas ousadas e injustificadas, e só adquirem valor em virtude de sobreviverem a tentativas severas de refutação. Deste modo, a evolução do conhecimento científico tem um carácter darwinista.

Uma das questões que recebe mais atenção em O Mito do Contexto é a do estatuto das ciências sociais. Será que estas diferem crucialmente das ciências naturais? Popper defende que não, atribuindo a popularidade da resposta contrária a uma imagem errada do método das ciências naturais. Em "Razão ou Revolução?", sem dúvida o ensaio mais polémico do livro, esta questão conduz a uma crítica dura ao tipo de investigação sociológica promovido pela escola de Frankfurt. "Alguns dos expoentes famosos da sociologia alemã", declara Popper, "que dão o seu melhor em termos intelectuais e que o fazem com a melhor consciência do mundo estão, todavia, creio, apenas a falar de trivialidades numa linguagem sonante, tal como foram ensinados." Denunciando o "culto da incompreensibilidade", que desde Hegel tem afectado um amplo sector da cultura alemã (e não só), Popper defende que tal culto acaba por traduzir-se em "dizer as maiores banalidades em linguagem sonante". Para quem foi educado neste culto, acrescenta, é "inconcebível que possa haver ideias importantes que valha a pena compreender, com as quais não possamos concordar ou das quais não possamos discordar de imediato."

Este tipo de crítica não surpreenderá quem já estiver familiarizado com o pensamento de Popper. Na verdade, O Mito do Contexto, que em diversos momentos se torna repetitivo e até simplista, não traz nada de significativamente novo ao legado popperiano. Ainda assim, constitui uma boa introdução. E vem reforçar um aspecto curioso de Popper: embora tenha sempre insistido na importância de sermos críticos em relação às nossas próprias ideias, foi um dos filósofos que menos mudou de ideias ao longo da sua obra.

Pedro Galvão
p.m.galvao@gmail.com
Texto publicado no Público.
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