Contemporary Philosophy of Mind, de Georges Rey
Filosofia da mente

Vício exasperante

Leônidas Hegenberg
Contemporary Philosophy of Mind, de Georges Rey
Oxford: Blackwell, 1997, 362 p.
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Aparentemente, as notas de pé de página são itens obrigatórios em artigos eruditos. É uma raridade não encontrá-las. Parece que as comunicações e os ensaios perdem credibilidade quando não contêm várias notas. Via de regra, elas se destinam a registrar algumas observações adicionais que o autor, por alguma razão, deliberou deixar fora do texto principal. Freqüentemente, remetem o leitor para um escrito qualquer, indicando título, autor, local de publicação, página — como exigido pelas normas do ofício.

Pois bem, mesmo que contenha informações relevantes, a nota de pé de página faz com que o leitor interrompa a leitura "principal" e, muitas vezes, perca o fio da meada. A interrupção obriga o leitor a uma "retomada" do texto, para recobrar a continuidade da exposição. Uma nota, de vez em quando, não chega a perturbar. Entretanto, se as notas se multiplicam (duas ou mais por página), a leitura, constantemente interrompida, vai-se tornando enfadonha.

Em livros, as notas poderiam ser facilmente evitadas. Contudo, vários autores, enlevados pela ideia de que sua erudição precisa ser exibida tal como o seria nos artigos, habituaram-se a encher suas obras de notas. O vício tem-se tornado exasperante. A situação chega a níveis dramáticos quando o autor reúne as notas no final dos capítulos ou no final do volume. E atinge o nível da total falta de consideração, se o autor se limita a oferecer um adendo qualquer, relativo ao texto, remetendo o leitor, por via indireta, à bibliografia, colocada no final!

Contemplado por esse ângulo das interrupções provocadas por notas de pé página, este Contemporary Philosophy of Mind leva o leitor ao desespero. O excesso de notas é quase tão abominável quanto o célebre "homem das neves"... O autor comete a indelicadeza de juntar 50 e tantas notas de pé de página em seus capítulos. Cada nota, por seu turno, remete o leitor a várias fontes, que somos obrigados a buscar na bibliografia, de 21 páginas, no final do livro.

Que acontece? Lemos uma página de texto. Nessa página há pelo menos três notas e três citações do gênero "Fulano (1900 e tantos)". Se quisermos saber de que se trata, devemos procurar a bibliografia. Cada nota, por sua vez, reúne outras tantas citações similares. Resultado: para ler uma página do livro de Rey, é indispensável recorrer seis vezes à bibliografia... Como a paciência não permite essas idas e vindas, do texto às notas (fim do capítulo) e das notas à bibliografia (fim do livro), para voltar ao texto — o prazer que se poderia ter com a leitura do Contemporary tende rapidamente a zero.

O autor comete, além disso, mais duas indelicadezas com o leitor. Reporta-se, com freqüência assustadora, a itens comentados em outros locais do livro. Assim, não é raro ver, na página y, uma observação que complementa algo dito antes, na página x, ou algo que será retomado na página z! Além disso, vale-se de abreviações (e.g. "Rbist") que não constam dos índices e que é preciso memorizar, para não perder o "fio da meada", enquanto se acompanha o emaranhado de ideias.

Confesso que foi preciso reunir uma dose excepcional de boa vontade para vencer os obstáculos criados pelo autor. Em alguns momentos, meu desejo era atirar o livro pela janela, para nunca mais encontrá-lo.

Afinal, para que servem tais notas? Servem para que o leitor localize a referência feita e possa examiná-la, com o intuito (provável) de verificar até que ponto o autor foi fiel na citação. Ora, isso talvez caiba a examinadores de teses de doutorado ou de livre-docência. Não cabe a leitores comuns. Admitamos, porém, que esses leitores comuns estejam, de fato, desejosos de corroborar os informes recebidos. Por que obrigá-los a interromper a leitura, "catar" as referências e "tropeçar" no texto? Por que não colocar uma referência simples, entre parênteses, no próprio local em que a citação ocorre? Essa indagação ganha extrema força quando enfrentamos um livro como este, onde alguns capítulos chegam a conter 40 ou 45 referências — sendo costumeiras as 30 ou mais referências, em capítulos de dez a vinte páginas.

O número de interrupções chega a ser irritante. Como as notas de Rey contêm não apenas as usuais referências bibliográficas, mas, ainda, comentários adicionais, de 10, 12, 15 linhas (!), a confusão se estabelece e o aproveitamento da leitura desce a níveis muito baixos. Depois do "desabafo", passemos ao livro.

Este é um dos anunciados nove títulos da série "Contemporary Philosophy" que a Blackwell acaba de organizar. Cada volume da série pretende ser uma clara, atualizada e abrangente "introdução" a um dos principais ramos do saber filosófico da atualidade. Até onde se pode avaliar, prometem ser boas fontes para estudantes universitários que se venham a dedicar àqueles ramos da filosofia.

Neste comentário, parece oportuno ressaltar dois pontos. Observar, primeiramente, que os próximos livros se voltarão para pensamento, religião, metafísica, direito, linguagem, física e política. Notar, em segundo lugar, que os volumes estão a cargo de pesquisadores que não deixam de defender uma específica posição, na "rede" atual das correntes em debate.

A mesma editora publica uma interessante coleção cujos volumes têm o título genérico "A Companion to...". Já estão acessíveis, "A Companion to Epistemology", "Mind", "Language", etc. Nesses volumes, os temas são apresentados em ordem alfabética, em "verbetes" adequadamente dosados. Creio que estudiosos de filosofia estarão muito bem servidos se usarem tais "companions" em conjunção com os livros da presente série. Melhor do que isso, apenas uma obra conjunta, de largas dimensões, envolvendo, ao lado de pensadores destacados, de fala inglesa (britânicos, norte-americanos, australianos e canadenses), no mínimo alguns autores da Alemanha, da França, da Itália e, quem sabe, até de regiões do oriente — e portugueses e brasileiros, por que não?

Georges Rey é professor (adjunto) de filosofia, na University of Maryland. Escreveu duas dúzias de artigos, resenhas e comentários críticos, publicados em antologias e em vários periódicos, de 1980 em diante. Com a colaboração de Barry Loewer, organizou a coletânea de artigos, Meaning and Mind (Oxford, Blackwell, 1992).

Rey não é escritor de méritos especiais. Suas frases são longas, rebuscadas, cheias de palavras repetidas, em construções enfadonhas. A par disso, adotando o péssimo hábito de autores que temem ataques de feministas, usa "her" e "she" (no lugar de "his" e "he"), tornando seu discurso meio insólito e ainda mais "enjoado". Consequentemente, a leitura de seu livro se faz um pouco tropegamente. O estilo é prolixo e há algumas seções que quase somos obrigados a "ignorar", tais as minúcias a que chegam.

Tem a obra algumas qualidades? Apesar das "nugas" apontadas, são oportunas as críticas que Rey tece contra algumas formas de entender "mente" e "estados mentais". São bem construídas — pelo menos para quem consegue "digerir" suas palavras — as críticas dirigidas contra filósofos como Quine, Dennett e os Churchland (Patricia e Paul). Rey torna aceitáveis as ideias defendidas por adeptos do "mental realism". Em última análise, há-de ser elogiada a maneira meticulosa pela qual Rey delineia os múltiplos problemas que "infestam" as pesquisas em torno da mente e dos fenômenos mentais.

Ao discutir a consciência, os pensadores costumam notar que o espírito seria propriedade de um cérebro "altamente organizado". Dificilmente, porém, se esclarece em que consistiria tal "complexidade". O propósito de Rey é, precisamente, o de indicar, com um mínimo de coerência (levando em conta as investigações neurológicas dos dias atuais), como entender e explicar a consciência.

O autor parte dos chamados "fenômenos mentais" (pensar, sentir, deliberar, imaginar, amar, etc., etc.) e considera as comuns "estratégias" para estudá-los. Entre essas estratégias contam-se as seguintes: 1) a dualista, na qual corpo e mente surgem apartados; 2) a eliminativista, segundo a qual, inexistem fenômenos mentais; 3) o behaviorismo radical (Rbism, na terminologia do autor), cujos defensores tentaram explicar atividades humanas sem apelar para a mentalidade; 4) o behaviorismo analítico (Abism) — de pronto abandonado — mas que deu origem ao 5) funcionalismo, pelo qual fenômenos mentais seriam definidos em termos dos papéis que desempenham. O autor analisa tais estratégias para, enfim, defender um 6) modesto mentalismo, tornado plausível quando se contempla uma teoria específica (a "teoria computacional-representacional do pensamento").

A simples indicação dos temas tratados revela que o livro não é de leitura fácil para leigos. Em verdade, muitas seções exigem conhecimentos razoáveis de vários temas correlatos — cognição, lingüística, um pouco de lógica. Mais do que isso, exigem atenção, em vista das citadas minúcias a que chega o autor.

Quero crer que os livros similares, da Routledge (em que as notas de pé de página foram omitidas por completo!), serão bem mais agradáveis de ler.

Leônidas Hegenberg
lh@phonet.com.br

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