10 de Novembro de 2016   Filosofia da linguagem

Lógica e conversação

Herbert Paul Grice
Tradução de Matheus Silva

É um lugar-comum da lógica filosófica que há, ou aparenta haver, divergências no significado entre, por um lado, ao menos alguns do que devemos chamar de instrumentos formais — ¬, ∧, ∨, ⊃, (∀x), (∃x), (∃!x) (quando a esses é dada uma interpretação padrão de dois valores) — e, por outro lado, o que são tidos como seus análogos ou contrapartes na linguagem natural — expressões tais como não, e, ou, se, todo, alguns (ou ao menos um), o. Alguns lógicos podem durante algum tempo ter pretendido reivindicar que de fato não há tais divergências; mas tais reivindicações, se foram feitas de todo, foram feitas de alguma maneira irrefletida, e aqueles que são suspeitos de fazê-las foram sujeitos a um tratamento bastante rude.

Aqueles que concederam que tais divergências existem concordam, no principal, com um ou outro dos dois grupos rivais, que eu irei chamar de grupos formalista e informalista. Um esboço de uma posição formalista que não é incomum pode ser apresentado da seguinte maneira: à medida em que os lógicos estão preocupados com a formulação de padrões muito gerais de inferência válida, os instrumentos formais possuem uma decisiva vantagem sobre suas contrapartes naturais. Visto que seria possível construir em termos de instrumentos formais um sistema de fórmulas muito gerais, um número considerável das quais podem ser consideradas como, ou estão aproximadamente relacionadas a, padrões de inferência cuja expressão envolve alguns ou todos os instrumentos: tal sistema pode consistir de certo conjunto de fórmulas simples que pode ser aceitável se os instrumentos têm o significado que tem sido atribuídos a eles, e um número indefinido de fórmulas adicionais, muitas das quais são menos obviamente aceitáveis e cada uma das quais pode ser demonstrada como aceitável se os membros do conjunto original são aceitáveis. Nós temos, assim, uma maneira de lidar com padrões de inferência que são aceitáveis de modo dúbio, e se, como é algumas vezes possível, nós podemos aplicar um procedimento de decisão, nós temos uma maneira ainda melhor. Além disso, de um ponto de vista filosófico, a posse desses elementos nos significados de suas contrapartes naturais, que eles não partilham com seus instrumentos formais correspondentes, deve ser considerada como uma imperfeição da linguagem natural; os elementos em questão são excrescências indesejáveis. Visto que a presença desses elementos tem a consequência de que ambos os conceitos com os quais eles aparecem não podem ser precisamente/claramente definidos, e que ao menos algumas afirmações que as envolvem não podem, em algumas circunstâncias, ser atribuído um valor de verdade definitivo; e o caráter indeterminado desses conceitos é não apenas objetável sem si mesmo, mas também mantêm aberto o caminho para a metafísica – nós não podemos estar certos de que nenhuma dessas expressões da linguagem natural está “carregada” metafisicamente. Por essas razões, as expressões, tal como usadas na linguagem natural, não podem ser consideradas como aceitáveis em definitivo, e podem vir a ser, definitivamente, não inteiramente inteligíveis. O caminho adequado é conceber e começar a construir uma linguagem ideal, incorporando os instrumentos formais, as frases que serão claras, determinadas em valor de verdade, e certificadamente livre de implicações metafísicas; as fundações da ciência serão agora filosoficamente seguras, uma vez que as afirmações do cientista serão exprimíveis (embora não necessariamente presentemente exprimidas) com essa linguagem ideal. (Eu não desejo sugerir que todos os formalistas aceitarão a totalidade desse esboço, mas eu penso que todos aceitarão ao menos alguma parte dele).

Frente a isso, um informalista pode replicar da seguinte maneira. A demanda filosófica por uma linguagem ideal se baseia em certas suposições que não devem ser concedidas; essas são, a de que o padrão de medida principal para avaliar a adequação da linguagem é sua habilidade de servir as necessidades da ciência, a de que uma expressão não pode ser garantida como totalmente inteligível a menos que uma explicação ou análise do seu significado tenha sido fornecida, e a de que qualquer explicação ou análise deve assumir a forma de uma definição precisa que é a expressão/asserção de uma equivalência lógica. A linguagem serve muitos propósitos importantes além daqueles da investigação científica; nós podemos saber perfeitamente bem o que uma expressão significa (e assim a fortiori que ela é inteligível) sem conhecer a sua análise, e o fornecimento de uma análise pode consistir (e usualmente consiste) na especificação, tão generalizada quanto possível, das condições que contam a favor e contra a aplicabilidade da expressão que está sendo analisada. Mais do que isso, embora seja sem dúvida verdade que os instrumentos formais são especialmente suscetíveis de tratamento sistemático pelos lógicos, ainda persiste a questão de que há muitos argumentos e inferências, expressados na linguagem natural e não em termos desses instrumentos, que são, contudo, reconhecidamente válidos. Portanto, deve existir um lugar para uma lógica não simplificada, e mais ou menos assistemática, das contrapartes naturais desses instrumentos; essa lógica pode ser auxiliada e guiada por uma lógica simplificada de instrumentos formais, mas não pode ser suplantada por ela. De fato, não apenas as duas lógicas diferem, mas algumas vezes elas entram em conflito; regras que valem para um instrumento formal podem não valer para a sua contraparte natural.

Agora, sobre a questão geral do lugar da reforma da linguagem natural na filosofia eu não terei, neste artigo, nada a dizer. Eu irei me limitar à disputa em sua relação com as alegadas divergências apresentadas no início. Eu não tenho, mais do que isso, nenhuma intenção de entrar na disputa como representante de cada um dos concorrentes. Eu pretendo, ao invés, defender a suposição comum dos concorrentes de que as divergências de fato existem é (falando de uma maneira geral) um equívoco comum, e que o equívoco surge de uma atenção inadequada à natureza e importância das condições que governam a conversação. Eu irei, por consequência, continuar imediatamente para investigar na direção das condições gerais que, de uma maneira ou outra, aplicam-se à conversação como tal, independente do seu conteúdo. Eu começo com uma caracterização da noção de “implicatura”.

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Implicatura

Suponha que A e B estão falando sobre um amigo comum, C, que agora está trabalhando em um banco. A pergunta B como C está progredindo no seu trabalho, e B responde: Oh, muito bem, eu acho; ele gosta dos seus colegas, e ele ainda não foi preso. Neste momento, A pode perfeitamente perguntar o que B estava insinuando, o que ele estava sugerindo, ou mesmo o que ele tinha em mente ao dizer que C ainda não está preso. A resposta pode ser quaisquer coisas tais como C é o tipo de pessoa que provavelmente pode entregar-se à tentação fornecida por sua ocupação; que os colegas de C são realmente muito desagradáveis e desleais, e assim por diante. É possível, é claro, que seja completamente desnecessário para A fazer essa pergunta para B, se a resposta para essa pergunta é, no contexto, clara antecipadamente. É claro que qualquer coisa que for insinuada, sugerida, significada, etc., nesse exemplo, é distinta do que B disse, que foi simplesmente que C ainda não foi preso. Eu pretendo introduzir, como termos de arte, o verbo implicitar1 e os substantivos relacionados implicatura (Cf. implicitando) e implicatum (Cf. o que é implicitado). O objetivo dessa manobra é evitar ter que, em cada ocasião, escolher entre este ou aquele membro da família dos verbos para o qual implicitar deve fazer o trabalho geral. Eu devo, pelo menos por enquanto, ter de assumir em uma medida considerável uma compreensão intuitiva do significado de dizer em tais contextos, e uma habilidade de reconhecer verbos particulares como membros da família com a qual implicitar está associado. Eu posso, contudo, fazer uma ou duas observações que podem ajudar a clarificar a mais problemática dessas suposições, nomeadamente, a que está associada com o significado da palavra dizer.

No sentido em que estou usando a palavra dizer, tenho em mente o que alguém disse como estando relacionado de perto com o significado convencional das palavras (a frase) que ele proferiu. Suponha que alguém tenha proferido a frase Ele está preso a um vício. Dado um conhecimento da língua portuguesa, mas não o conhecimento das circunstâncias da afirmação, alguém saberia algo sobre o que o falante disse, sob a suposição de que ele estava falando o português corrente, e falando literalmente. Alguém saberia que ele disse acerca de alguma pessoa masculina particular ou animal X, que durante o momento da afirmação (qualquer que tenha sido), ou (1) que x foi incapaz de libertar-se de certo tipo de traço de mau caráter ou (2) alguma parte da pessoa X foi presa em certo tipo de ferramenta ou instrumento2 (uma explicação aproximada, é claro). Mas para uma identificação completa do que o falante havia dito alguém precisaria saber (a) a identidade de X, (b) o momento da afirmação, e (c) o significado, na ocasião particular da afirmação, da expressão está preso a um vício [uma decisão entre (1) e (2)]. Essa breve indicação do meu uso de dizer deixa em aberto se um homem que diz (hoje) Harold Wilson é um grande homem e outro que diz (também hoje) O Primeiro Ministro Britânico é um grande homem, se cada um sabe que os dois termos singulares têm a mesma referência, disseram a mesma coisa3. Mas qualquer que seja a decisão a que se chega sobre essa questão, o instrumento que eu estou prestes a fornecer será capaz de explicar quaisquer implicaturas que possam depender da presença de um ao invés de outro desses termos singulares na frase proferida. Essas implicaturas seriam meramente relacionadas com diferentes máximas.

Em alguns casos o significado convencional das palavras usadas determinará o que é implicitado, além de ajudar a determinar o que é dito. Se eu digo (presunçosamente), Ele é um inglês: ele é, portanto, bravo, eu certamente me comprometi, em virtude do significado das minhas palavras, com ser o caso de que a sua bravura é uma consequência de (segue-se de) ele ser um inglês. Mas embora eu tenha dito que ele é um inglês, e dito que ele é bravo, eu não quero dizer que eu DISSE (em um sentido favorecido) que eu disse que se segue de ele ser um inglês que ele é bravo, embora eu tenha certamente indicado, e assim implicitado, que isso é assim. Eu não quero dizer que a minha afirmação dessa frase seria, rigorosamente falando, falsa, caso a consequência em questão falhe em ser válida. Portanto, algumas implicaturas são convencionais, diferentemente daquela com a qual introduzi essa discussão da implicatura.

Eu pretendo representar certa subclasse de implicaturas não convencionais, que eu denominarei de implicaturas conversacionais, como sendo essencialmente associadas com certas características gerais do discurso; assim o meu próximo passo é tentar dizer quais são essas características.

O que se segue pode fornecer uma primeira aproximação a um princípio geral. Nossas trocas de conversa não consistem normalmente de uma sucessão de observações desconexas, e não seriam racionais se o fossem. Elas são caracteristicamente, em algum grau pelo menos, esforços cooperativos; e cada participante reconhece neles, em alguma medida, um objetivo comum ou grupo de objetivos, ou pelo menos uma direção mutuamente aceita. Esse objetivo ou direção pode ser fixado desde o início (e.g., por uma sugestão inicial de uma questão para discussão), ou pode desenvolver-se durante a troca; ele pode ser razoavelmente definido, ou ele pode ser tão indefinido quanto a deixar uma liberdade realmente considerável para os participantes (como numa conversação casual).

Mas em cada momento, alguns movimentos conversacionais seriam excluídos como conversacionalmente inadequados. Nós podemos então formular o esboço de um princípio geral que é aquilo que se espera que os participantes (ceteris paribus) deverão observar, nomeadamente: faça sua contribuição conversacional tal como é exigida, no momento em que ocorre, de acordo com o objetivo ou direção aceita da troca conversacional em que você está envolvido. Alguém poderia chamar isso de Princípio da Cooperação.

Sob a suposição de que algum princípio geral semelhante é aceitável, alguém poderia talvez distinguir quatro categorias sob uma ou outra das quais entrarão determinadas máximas e submáximas mais específicas, das quais as que se seguem permitirão, em geral, resultados em acordo com o Princípio da Cooperação. Repetindo Kant, eu denomino essas categorias de Quantidade, Qualidade, Relação e Modo4. A categoria de Quantidade diz respeito à quantidade de informação a ser fornecida, e sob a qual entrarão as seguintes máximas:

  1. Faça sua contribuição tão informativa quanto for exigido (para os objetivos atuais da conversa).
  2. Não faça sua contribuição mais informativa do que é exigido.

(A segunda máxima é disputável; pode ser dito que ser excessivamente informativo não é uma transgressão do Princípio Da Cooperação, mas meramente um desperdício de tempo. Contudo, pode ser respondido que tal excesso de informatividade pode estar confundindo de tal modo que torna propenso o levantamento de questões de interesse secundário; e pode haver também um efeito indireto, de tal modo que os ouvintes possam ser enganados como resultado de pensar que há algum objetivo particular em fornecer o excesso de informação. Seja isso como for, há talvez uma razão diferente para duvidar da admissão da segunda máxima, nomeadamente, que o seu efeito será assegurado por uma máxima posterior, que diz respeito à relevância).

Sob a categoria de Qualidade entra uma supermáxima – “Tente fazer com que sua contribuição seja verdadeira” – e duas máximas mais específicas:

  1. Não diga o que você acredita ser falso.
  2. Não diga aquilo para o qual lhe faltam indícios adequados.

Sob a categoria de Relação eu coloco uma única máxima, nomeadamente, “Seja pertinente”. Embora a própria máxima seja concisa, sua formulação esconde um número de problemas que me preocuparam muito: questões sobre quais tipos diferentes e focos de pertinência podem haver, como esses mudam no curso de uma troca conversacional, como fazer concessões em consideração do fato de que tais temas de conversação são modificados legitimamente, e assim por diante. Eu considero o tratamento de tais questões excessivamente difícil, e espero regressar a elas em um trabalho posterior.

Finalmente, sob a categoria de Modo, que eu entendo não como referindo (como as categorias prévias) ao que é dito, mas, de preferência, ao como o que é dito deve ser dito, eu incluo a supermáxima – “Seja claro” – e várias máximas tais como:

  1. Evite a obscuridade de expressão.
  2. Evite a ambiguidade.
  3. Seja breve (evite prolixidade desnecessária)
  4. Seja organizado.

É óbvio que a observância de algumas dessas máximas é uma questão de menor urgência que a observância de outras; um homem que se expressou com indevida prolixidade será, em geral, mais aberto a um Explicação moderado do que seria um homem que disse algo que acredita ser falso. De fato, pode dar a impressão de que a importância de pelo menos a primeira máxima da Qualidade é tal que não deveria ser incluída em um esquema do tipo que estou construindo; outras máximas entram em operação apenas sob a suposição de que essa máxima da Qualidade é satisfeita. Embora isso possa ser correto, no que diz respeito à geração de implicaturas ela parece desempenhar um papel que não é totalmente diferente das outras máximas, e será conveniente, por agora pelo menos, considerá-la como um membro da lista de máximas.

Há, é claro, toda espécie de outras máximas (estéticas, sociais, ou morais em caráter), tais como “Seja educado”, que também são normalmente observadas por participantes em trocas de conversa, e estas podem também gerar implicaturas não convencionais. As máximas conversacionais, contudo, e as implicaturas conversacionais associadas a elas, são especialmente associadas (eu espero) com objetivos particulares que a fala (e, assim, a troca de conversa) é adaptada para servir e é primariamente empregada para servir. Eu tenho apresentado as minhas máximas como se esse objetivo fosse a troca de informação maximamente efetiva; essa especificação, é claro, é muito restrita, e o esquema precisa ser generalizado para permitir objetivos gerais como influenciar ou dirigir as ações de outros.

Como um dos meus objetivos declarados é considerar o ato de conversar como um caso especial de uma variedade de comportamento intencional, e o que é mais importante, racional, pode valer a pena observar que as expectativas ou pressuposições específicas associadas com pelo menos algumas das seguintes máximas possuem seus análogos no âmbito das transações que não são trocas de conversas. Eu listo brevemente um desses análogos para cada categoria conversacional.

  1. Quantidade. Se você está me ajudando a consertar um carro, eu espero que a sua contribuição não seja nem maior ou menor do que a exigida. Se, por exemplo, em um momento particular eu precisar de quatro pregos, eu espero que me dê quatro, ao invés de dois ou seis.
  2. Qualidade. Eu espero que suas contribuições sejam sinceras e não fingidas. Se eu precisar de açúcar como um ingrediente no bolo que você está me ajudando a fazer, eu não espero que você me passe sal; se eu preciso de uma colher, eu não espero que você me passe uma colher de mentira feita de borracha.
  3. Relação. Eu espero que a contribuição de um parceiro seja apropriada para as necessidades imediatas em cada momento da transação. Se eu estou misturando ingredientes para o bolo, eu não espero que me seja passado um bom livro, ou mesmo um pano de forno (embora isso possa ser uma contribuição apropriada em um momento posterior).
  4. Modo. Eu espero que um parceiro torne claro qual contribuição ele está fazendo e execute sua realização com razoável eficiência.

Essas analogias são relevantes para o que eu considero uma questão fundamental sobre o Princípio da Cooperação e suas máximas concomitantes, nomeadamente, quais são as bases para a suposição de que parecemos fazer, e sobre a qual (eu espero) irá tornar-se visível que o grande alcance das implicaturas depende, de que os falantes em geral ( ceteris paribus e na ausência de indicações em contrário) procederam do modo como esses princípios prescreveram. Uma resposta estúpida, mas sem dúvida adequada em certo nível, é que é apenas um fato empírico bem reconhecido que as pessoas se comportam dessas maneiras; elas aprenderam a fazer isso na infância e não perderam essa habilidade; e, além disso, envolveria uma boa dose de esforço para fazer um desvio radical do hábito. É muito mais fácil, por exemplo, dizer a verdade do que inventar mentiras.

Eu sou, contudo, racionalista o bastante para querer encontrar uma base que está por baixo desses fatos, ainda que elas possam ser inegáveis; eu gostaria de ser capaz de pensar no tipo comum de prática conversacional não meramente como algo que todos ou a maioria de fato seguem, mas como algo que é razoável seguirmos, que nós não devemos abandonar. Há algum tempo, eu fui atraído pela idéia de que a observância do Princípio da Cooperação e as máximas, em uma troca de conversa, pode ser pensada como uma questão quase contratual, com análogos de fora do domínio do discurso. Se você passar por perto quando eu estiver me debatendo com o meu carro enguiçado, eu tenho sem dúvida algum grau de expectativa de que você irá oferecer ajuda, mas uma vez que se junta a mim no conserto sob a capota, minhas expectativas se tornam mais fortes e assumem formas mais variadas (na ausência de indicações de que você é meramente um intrometido incompetente); e trocas de conversa parecem exibir, caracteristicamente, certas características que conjuntamente distinguem transações cooperativas:

  1. Os participantes têm algum objetivo comum imediato, como consertar um carro; seus objetivos últimos podem, é claro, serem independentes e até mesmo estarem em conflito – cada um pode querer consertar o carro com o objetivo de ir embora com ele e deixar os outros abandonados. Em trocas de conversa características, há um objetivo comum mesmo se, como em uma conversa sobre o muro, há um objetivo de segunda-ordem, nomeadamente, que cada parte deve, por enquanto, identificar a si mesma com os interesses conversacionais transitórios da outra.
  2. As contribuições dos participantes devem ser compatíveis, mutuamente dependentes.
  3. Há algum tipo de compreensão (que pode ser explícito, mas que é frequentemente tácito) de que, outras coisas permanecendo iguais, a transação deve continuar em um modo apropriado a menos que ambas as partes concordem que ela deve terminar. Você não simplesmente dá o fora ou começa a fazer outras coisas.

Mas ainda que bases quase contratuais tais como essas possam ser aplicadas a muitos casos, há também muitos tipos de trocas, como discutir e escrever cartas, nas quais ele falha em encaixar confortavelmente. Em todo o caso, alguém sabe que o falante que é impertinente ou obscuro decepcionou principalmente não sua audiência, mas a si mesmo. Assim eu gostaria de ser capaz de mostrar que a observância do Princípio da Cooperação e das máximas é razoável (racional) do seguinte modo: que qualquer um que se importe com os objetivos que são centrais para a conversação/comunicação (tais como dar e receber informação, influenciar e ser influenciado por outros) devem ser presumidos como possuindo um interesse, dadas as circunstâncias adequadas, na participação das trocas de conversa que serão proveitosas apenas sob a suposição de que elas são conduzidas em acordo geral com o Princípio da Cooperação e suas máximas. Se qualquer conclusão como essa pode ser alcançada, eu estou incerto; de qualquer modo, eu estou razoavelmente seguro de que não posso alcançá-la até atingir um esclarecimento considerável sobre a natureza da pertinência e das circunstâncias em que ela é exigida.

Agora é o momento de demonstrar a relação entre o Princípio Da Cooperação e as máximas, de um lado, e implicatura conversacional de outro.

Um participante em uma troca de conversa pode falhar em satisfazer a máxima de vários modos, que incluem os seguintes:

  1. Ele pode discretamente e sem ostentação violar a máxima; neste caso, em algumas circunstâncias ele será propenso a enganar.
  2. Ele pode optar por não participar do funcionamento de ambos da máxima e do Princípio da Cooperação; ele pode dizer, indicar, ou admitir tornar óbvio que ele não está disposto a cooperar do modo que a máxima exige. Ele pode dizer, por exemplo, Eu não posso dizer mais; meus lábios estão selados.
  3. Ele pode ter de enfrentar um conflito: ele pode ser incapaz, por exemplo, de satisfazer a máxima da Quantidade (Seja tão informativo quanto exigido) sem violar a segunda máxima da Qualidade (Tenha indícios adequados para o que você diz).
  4. Ele pode menosprezar a máxima; isto é, ele pode ostensivamente falhar em satisfazê-la. Sobre a suposição de que o falante é capaz de satisfazer a máxima e fazer isso sem violar outra máxima (por causa de um conflito), ele não está optando por não participar, e não está, devido à ostentação da sua ação, tentando enganar, o ouvinte se depara com um problema menor: como pode o ato dele ter dito o que disse ser reconciliado com a suposição de que ele está observando o Princípio da Cooperação de um modo geral? Essa é uma situação que caracteristicamente dá origem a uma implicatura conversacional; e quando uma implicatura conversacional é gerada deste modo, eu devo dizer que a máxima está sendo explorada.

Eu estou agora em uma posição adequada para caracterizar a noção de implicatura conversacional. Um homem que ao (por, quando) dizer (ou fingindo como se dissesse) que p implicitou que q, pode ser considerado como tendo implicitado conversacionalmente que q, dado que (1) era de se esperar que ele estivesse observando as máximas conversacionais, ou pelo menos o Princípio da Cooperação; (2) a suposição de que ele está consciente de que, ou pensa que, q é exigido com o objetivo de dizer ou fingir como se dissesse p (ou fazendo isso naqueles termos) consistente com a pressuposição; e (3) o falante pensa (e esperaria que o ouvinte pense que o falante pensa) que está ao alcance da competência do ouvinte compreender, ou compreender intuitivamente, que a pressuposição mencionada em (2) é exigida. Aplique isso ao meu exemplo inicial, à observação de B de que C ainda não foi preso. Em uma circunstância apropriada A pode raciocinar da seguinte maneira: “(1) B aparentemente violou a máxima “Seja pertinente” e assim pode ser considerado como tendo menosprezado uma das máximas associadas à perspicuidade, embora eu não tenha qualquer motivo para supor que ele está optando por não participar do processo do Princípio da Cooperação; (2) dadas as circunstâncias, eu posso considerar sua irrelevância apenas como aparente se, e somente se, eu supor que ele pensa que C é potencialmente desonesto; (3) B sabe que eu sou capaz de compreender o passo (2). Assim B implicita que C é potencialmente desonesto”.

A presença de uma implicatura deve ser capaz de ser demonstrada; mesmo se pode de fato ser intuitivamente compreendida, ao menos que a intuição seja substituída por um argumento, a implicatura (se está presente de todo) não irá contar como uma implicatura conversacional. Para saber se uma implicatura conversacional está presente, o ouvinte irá confiar nos seguintes dados: (1) o significado convencional das palavras usadas, juntamente com a identidade de quaisquer referências que possam estar envolvidas; (2) o Princípio da Cooperação e suas máximas; (3) o contexto, linguístico ou outro, da afirmação; (4) outros itens do conhecimento de fundo; e (5) o fato (ou suposto fato) de que todos os itens relevantes que entram sob os tópicos anteriores estão disponíveis para ambos os participantes e ambos os participantes sabem ou assumem que isso seja o caso. Uma regra geral para saber se uma implicatura conversacional pode ser dada é a seguinte: “Ele disse que p; não há razão para supor que ele não está observando as máximas, ou pelo menos o Princípio da Cooperação; ele não pode estar fazendo isso a menos que tenha pensado que q; ele sabe (e sabe que eu sei que ele sabe) que eu posso perceber a suposição de que ele pensa que q é exigido; ele não fez nada para me impedir de pensar que q; ele quer que eu pense, ou pelo menos está disposto a me permitir pensar, que q; e assim ele implicitou que q”.

Exemplos de implicatura conversacional

Eu apresentarei agora um número de exemplos, que eu dividirei em três grupos.

GRUPO A: Exemplos nos quais nenhuma máxima é violada ou pelo menos não é claro que alguma máxima seja violada

A está ao lado de um carro obviamente imobilizado e é abordado por B; a seguinte conversa acontece:

(1)

A: Eu estou sem gasolina.
B: Há um posto na esquina.

(Explicação: B estaria infringindo a máxima “Seja pertinente” a menos que ele pense, ou pense que é possível, que o posto esteja aberto e tenha gasolina para vender; assim ele implicita que o posto é ou pelo menos poderia estar aberto, etc.).

Nesse exemplo, diferentemente do caso da observação Ele não foi preso ainda, a associação não mencionada entre a observação de B e a observação de A é tão óbvia que, mesmo se alguém interpretar a supermáxima de Modo, “Seja perspicaz”, como se aplicando não apenas à expressão daquilo que é dito, mas também à associação daquilo que é dito com observações adjacentes, parece não haver qualquer razão para considerar essa supermáxima como infringida nesse exemplo. O próximo exemplo é talvez um pouco menos claro a esse respeito:

(2)

A: Smith não parece ter uma namorada hoje em dia.
B: Ele tem feito muitas visitas à Nova Iorque ultimamente.

B implicita que Smith tem, ou pode ter, uma namorada em Nova Iorque. (Uma explicação é desnecessária em vista daquela apresentada no exemplo anterior).

Em ambos os exemplos o falante implicita aquilo que se espera que ele acredite para preservar a suposição de que ele está observando a máxima da Relação.

GRUPO B: Exemplos em que uma máxima é violada, mas sua violação deve ser explicada pela suposição de um conflito com outra máxima

A está planejando com B um itinerário para um feriado na França. Ambos sabem que A quer ver seu amigo C, se essa visita não envolvesse uma prolongação muito grande da sua viagem:

(3)

A: Onde C vive?
B: Em algum lugar do Sul da França.

(Explicação: Não há razão para supor que B está optando por não participar do funcionamento do Princípio da Cooperação e suas máximas; sua resposta é, como ele bem sabe, menos informativa do que é exigido para satisfazer as necessidades de A. Essa infração da primeira máxima da Quantidade pode ser explicada apenas pela suposição de que B é consciente de que para ser mais informativo diria algo que infringisse a segunda máxima da Qualidade. “Não diga aquilo para o qual lhe falta indícios adequados”, assim B implicita que ele não sabe em que cidade C vive).

GRUPO C: Exemplos que envolvem exploração, isto é, um processo em que a máxima é menosprezada com o objetivo de gerar uma implicatura conversacional por meio de algo semelhante a uma figura de retórica.

Nesses exemplos, embora alguma máxima seja violada no nível do que é dito, o ouvinte está autorizado a supor que a máxima, ou ao menos o Princípio Da Cooperação como um todo, é observado no nível do que é implicitado.

(1a) A menosprezando a primeira máxima de Quantidade

A está escrevendo uma carta de recomendação sobre um pupilo que é um candidato para um emprego de filosofia, e sua carta se lê como se segue: “Caro senhor, o domínio de inglês do Sr. X é excelente, e sua frequência nos tutoriais tem sido regular. Atenciosamente, etc.”. (Explicação: A não pode estar optando por não participar, visto que se não estivesse sendo cooperativo, porque escreveria afinal? Ele não pode ser incapaz, devido à ignorância, de dizer mais, uma vez que o homem é seu pupilo; além disso, ele sabe que mais informação do que esta é necessária. Ele deve, por esse motivo, estar desejando expressar uma informação que ele é relutante em descrever. Essa suposição é sustentável apenas se ele pensa que o Sr. X não é bom em filosofia. Isto, então, é o que ele está implicitando).

Exemplos extremos de menosprezo da primeira máxima da Quantidade são fornecidos por afirmações de tautologias óbvias como Mulheres são mulheres e Guerra é guerra. Eu gostaria de manter que ao nível do que é dito, em meu sentido preferido, tais observações são totalmente desinformativas e assim, nesse nível, não podem senão infringir a primeira máxima da Quantidade em qualquer contexto conversacional. Elas são, é claro, informativas no nível do que é implicitado e a identificação do ouvinte de seu conteúdo informativo nesse nível é dependente de sua habilidade de explicar a seleção do falante dessa tautologia óbvia em particular.

(1b) Uma infração da segunda máxima da Quantidade, “Não dê mais informação do que é exigido”, sob a suposição de que tal máxima deve ser admitida

A quer saber se p, e B oferece voluntariamente não apenas a informação de que p, mas a informação para demonstrar que é certo que p, e que o indício para ser o caso de que p é assim-e-assim e tal-e-tal.

A volubilidade de B pode ser involuntária, e se é assim considerada por A pode surgir na sua mente uma dúvida sobre se B é certo como ele disse que é (“Parece-me que a senhora protesta demais”). Mas se isso for pensado como voluntário, seria um modo indireto de expressar que é em algum grau controverso se p ou não p. É, contudo, discutível que tal implicatura poderia ser explicada por referência à máxima da Relação sem invocar uma suposta segunda máxima da Quantidade.

(2a) Exemplos em que a primeira máxima da Qualidade é menosprezada

Ironia. X, com quem A tinha relações próximas até agora, revelou um segredo de A para um rival de negócios. A e a sua audiência ambos sabem disso. A diz X é um bom amigo. (Explicação: É perfeitamente óbvio para A e sua audiência que o que A disse ou fingiu ter dito é algo que ele não acredita, e a audiência sabe que A sabe que isso é óbvio para audiência. Assim, a menos que as afirmações de A sejam inteiramente despropositadas, A deve estar tentando expressar outra proposição além da que ele propôs diretamente. Essa deve ser alguma proposição obviamente relacionada; a proposição mais obviamente relacionada é a contraditória da única que ele propôs diretamente).

Metáfora. Exemplos como Você é o creme do meu café caracteristicamente envolvem falsidade categorial, assim o contraditório do que o falante fez como se tivesse dito será, estritamente falando, um truísmo; portanto, não pode ser isso que o falante está tentando expressar. A suposição mais provável é que o falante está atribuindo a seu ouvinte alguma característica ou características a respeito das quais o ouvinte assemelha-se (mais ou menos de uma maneira fantasiosa) à substância mencionada.

É possível combinar a metáfora e a ironia impondo ao ouvinte dois estágios de interpretação. Eu digo Você é o creme no meu café, pretendendo que o ouvinte entenda primeiro o interpretante5 de metáfora “Você é o meu orgulho e a minha alegria” e então o interpretante de ironia “Você é a minha desgraça”.

Lítotes6. Sobre um homem que é sabido ter quebrado toda a mobília, alguém diz Ele estava um pouco intoxicado.

Hipérbole. Toda garota bonita ama um marinheiro.

(2b) Exemplos em que a segunda máxima da Qualidade, “Não diga aquilo para o qual você não tem indícios adequados”, é menosprezada talvez não sejam fáceis de encontrar, mas o seguinte parece ser um exemplo. Eu falo sobre a esposa de X, Ela está provavelmente enganando ele esta noite. Em um contexto apropriado, ou com um gesto apropriado ou tom de voz, pode ser claro que eu não tenho qualquer razão adequada para supor que isso é o caso. Meu parceiro, para preservar a suposição de que o jogo conversacional ainda está sendo jogado, supõe que eu estou obtendo alguma proposição relacionada para a aceitação da qual eu tenho alguma base razoável. A proposição relacionada pode bem ser a de que ela está inclinada a trair o marido dela ou possivelmente que ela é o tipo de pessoa que não irá parar imediatamente com essa conduta.

(3) Exemplos em que uma implicatura é realizada por uma violação real, como distinta de aparente, da máxima da Relação são talvez raros, mas o seguinte parece ser um bom candidato. Em uma elegante festa do chá, A diz Sra. X é um saco velho. Há um momento de silêncio espantoso, e então B diz O tempo tem sido bastante delicioso nesse verão, não tem? B evidentemente se recusou a tornar o que ele diz pertinente para a observação anterior de A. Ele, por conseguinte, implicita que a observação de A não deve ser discutida e, talvez mais especificamente, que A cometeu uma gafe social.

(4) Exemplos em que várias máximas que entram sob a supermáxima “Seja perspicaz” são menosprezadas

Ambiguidade. Nós devemos lembrar que nós estamos preocupados apenas com a ambiguidade que é deliberada, e o falante tem em mente ou espera que isso seja reconhecido por seu ouvinte. O problema que o ouvinte tem para resolver é porque um falante deve, quando ainda está jogando o jogo conversacional, sair desse caminho para escolher uma afirmação ambígua. Há dois tipos de casos:

(a) Exemplos em que não há qualquer diferença, ou qualquer diferença notável, entre duas interpretações de uma afirmação ambígua em relação à sua falta de franqueza; nenhuma interpretação é notavelmente mais sofisticada, menos comum, mais obscura ou mais artificial do que outra. Nós podemos considerar os versos de Blake: “Nunca procure dizer o teu amor, Amor que nunca dito pode ser”. Para evitar as complicações introduzidas pela presença do modo imperativo, eu irei considerar a frase relacionada, Eu procuro dizer o meu amor, amor que nunca dito pode ser. Pode haver uma dupla ambiguidade aqui. O meu amor pode referir ou a um estado de emoção ou a um objeto de emoção, e amor que nunca dito pode ser pode significar ou “Amor que não pode ser dito” ou “Amor que se for dito não pode continuar a existir”. Parcialmente por causa da sofisticação do poeta e parcialmente por causa do indício interno (de que a ambiguidade é mantida) parece não haver qualquer alternativa para supor que as ambiguidades são deliberadas e de que o poeta está expressando o que ele diria se uma interpretação fosse intencionada de preferência à outra, e vice-versa; embora o poeta sem dúvida não esteja explicitamente dizendo qualquer uma dessas coisas, mas apenas transmitindo-as ou sugerindo-as (Cf. “Uma vez que ela [a natureza] escolheu-te para o prazer das mulheres, meu seja o teu amor, e o uso do teu amor de seu tesouro”).

(b) Exemplos em que uma interpretação é notavelmente menos direta que outra. Considere a complexa frase do General Britânico que capturou a província de Sind e enviou de volta a mensagem Peccavi. A ambiguidade envolvida (“Eu tenho Sind”/”Eu pequei”) é fonêmica, não morfômica; e a expressão atualmente usada não é ambígua, mas uma vez que a linguagem usada é estranha para o falante e o ouvinte, a tradução é exigida, e a ambiguidade reside na tradução oficial em inglês nativo7.

Quer a interpretante (“Eu pequei”) esteja sendo expressada ou não, parece que a interpretante indireta deve ser expressada. Pode haver razões estilísticas para expressar por meio de uma frase meramente a sua interpretante indireta, mas seria sem sentido, e talvez também estilisticamente objetável, se dar ao trabalho de encontrar uma expressão que comunique indiretamente que p, assim impondo à audiência o esforço envolvido em descobrir essa interpretante, se essa interpretante for desnecessária no que diz respeito à comunicação. Se a interpretante direta também está sendo expressada parece depender de se tal proposição conflitará com outras exigências conversacionais, por exemplo, será pertinente, será algo que o falante poderia supostamente aceitar, e assim por diante. Se essas exigências não são satisfeitas, então a interpretante direta não está sendo expressada. Se elas são satisfeitas, então ela está. Se o autor de Peccavi pode ser naturalmente presumido como pensando que cometeu algum tipo de transgressão, por exemplo, ele desobedeceu a suas ordens de capturar Sind, e se a referência a essa transgressão não será relevante para os interesses presumidos da audiência, então ele estará transmitindo ambas as interpretações; de outro modo ele estaria transmitindo apenas a interpretação não direta.

Obscuridade. Como eu exploro, para os propósitos da comunicação, uma deliberada e evidente violação da exigência de que devo evitar a obscuridade? Obviamente, se o Princípio da Cooperação deve operar, eu preciso ter a intenção de que o meu parceiro entenda o que eu estou dizendo apesar da obscuridade que eu implicito na minha afirmação. Suponha que A e B estão tendo uma conversação em presença de uma terceira pessoa, por exemplo, uma criança, então A pode ser deliberadamente obscuro, embora não muito obscuro, com a esperança de que B irá entender e a terceira pessoa não. Além disso, se A espera que B veja que A está sendo deliberadamente obscuro, parece razoável supor que, ao fazer a sua contribuição conversacional desse modo, A está implicitando que os conteúdos da sua comunicação não devem ser implicitados para a terceira pessoa.

Falha em ser breve ou sucinto. Compare as observações:

(a) A Srta. X cantou “Lar Doce Lar”.
(b) A Srta. X produziu uma série de sons que correspondem aproximadamente com a partitura de “Lar Doce Lar”.

Suponha que um examinador tenha escolhido afirmar (b) ao invés de (a). (Explicação: Porque ele selecionou esse palavreado sem sentido no lugar do conciso e quase sinônimo cantou? Presumivelmente, para indicar alguma notável diferença entre o desempenho da Srta. X e aqueles em que a palavra cantar é usualmente aplicada. A suposição mais óbvia é que o desempenho da Srta. X padece de algum defeito horrível. O examinador sabe que essa suposição é o que é mais provável de surgir na mente, assim é isso que ele está implicitando).

Implicatura conversacional generalizada

Eu tenho até agora considerado apenas casos do que eu poderia denominar de “implicaturas conversacionais particularizadas” – isto é, casos em que uma implicatura é expressada ao dizer que p em uma ocasião particular em virtude de características especiais do contexto, casos em que não há espaço para a idéia de que uma implicatura desse tipo é normalmente expressada ao dizer que p. Mas há casos de implicaturas conversacionais generalizadas. Às vezes alguém pode dizer que o uso de certas formas de palavras em uma afirmação irá normalmente (na ausência de circunstâncias especiais) expressar tal-e-tal implicatura ou tipo de implicatura. Exemplos incontroversos são talvez difíceis de encontrar, uma vez que é muito fácil considerar uma implicatura conversacional generalizada como se fosse uma implicatura convencional. Eu ofereço um exemplo que eu espero que possa ser razoavelmente incontroverso.

Qualquer um que use uma frase da forma x está se encontrando com uma mulher esta noite irá normalmente implicitar que a pessoa a se encontrar era alguém diferente da esposa, mãe, irmã, ou talvez até uma amiga platônica próxima de X. Similarmente, se eu fosse dizer X entrou em uma casa ontem e encontrou uma tartaruga no lado de dentro da porta da frente, meu ouvinte normalmente ficará surpreso se algum tempo depois eu revelar que a casa era do próprio X. Eu posso produzir fenômenos linguísticos similares envolvendo as expressões o jardim, o carro, o colégio, e assim por diante. Às vezes, contudo, não haveria normalmente essa implicatura (“Eu estive sentado em um carro toda a manhã”), e às vezes uma implicatura reversa (“Eu quebrei um dedo ontem”). Eu estou predisposto a pensar que alguém não daria ouvidos simpáticos a um filósofo que sugerisse que há três sentidos da forma da expressão um X: um em que quer dizer aproximadamente “algo que satisfaz as condições que definem a palavra X”, outro em que significa aproximadamente “um X (no primeiro sentido) que é apenas remotamente relacionado de certo modo com alguma pessoa indicada pelo contexto”, e ainda outro no qual significa “um X (no primeiro sentido) que é relacionado aproximadamente de certo modo com alguma pessoa indicada pelo contexto”. Não preferiríamos uma explicação do seguinte modo (que, é claro, pode estar incorreta nos pormenores): quando alguém, por usar a expressão da forma um X, implicita que X não pertence ou não está de outro modo intimamente relacionado com alguma pessoa identificável, a implicatura está presente porque o falante falhou em ser específico em uma maneira na qual ele poderia ser esperado como sendo específico, com a consequência de que é provável supor que ele não está em posição de ser específico. Essa é uma situação de implicatura familiar e é classificável como uma falha, por uma razão ou outra, em satisfazer a primeira máxima da Quantidade. A única questão difícil é porque ela deveria, em certos casos, ser presumida, independentemente da informação acerca dos contextos particulares de afirmação, essa especificação da proximidade ou afastamento da associação entre uma pessoa particular ou objeto e uma pessoa adicional que é mencionada ou indicada pela afirmação deva ser suscetível de interesse. A resposta deve encontrar-se na seguinte região: transações entre uma pessoa e outras pessoas ou coisas relacionadas de perto com ela estão sujeitas a serem muito diferentes quanto a seus acompanhamentos e resultados do mesmo tipo de transações envolvendo apenas pessoas ou coisas relacionadas remotamente; os acompanhamentos e resultados, por exemplo, da minha descoberta de um buraco no meu teto são provavelmente muito diferentes dos acompanhamentos e resultados da minha descoberta de um buraco no teto de outra pessoa. A informação, assim como o dinheiro, é frequentemente dada sem que o doador saiba exatamente que uso a pessoa que o recebe atribuirá a ele. Se alguém para quem a transação é mencionada a examina novamente, provavelmente encontrará a si mesmo querendo as respostas de questões adicionais que o falante pode não ser capaz de identificar antecipadamente; se a especificação apropriada for capaz de habilitar o ouvinte a responder uma variedade considerável dessas questões para si mesmo, então há uma pressuposição de que o falante deve incluí-la nessa observação; se não, então não há essa pressuposição.

Finalmente, nós podemos agora mostrar que, a implicatura conversacional sendo o que é, deve possuir certas características:

  1. Uma vez que, para assumir a presença de uma implicatura conversacional nós temos que assumir que pelo menos o Princípio da Cooperação está sendo observado, e uma vez que é possível escolher não observar esse princípio, segue-se que uma implicatura conversacional generalizada pode ser cancelada em um caso particular. Ela pode ser explicitamente cancelada, por adição de uma cláusula que declara ou implicita que o falante tenha escolhido não observar o Princípio, ou ela pode ser contextualmente cancelada, se a forma da expressão que é usualmente expressada é usada em um contexto que torna claro que o falante está escolhendo não observar o Princípio.
  2. Na medida em que o cálculo de que uma implicatura conversacional está presente exige, além da informação de fundo e contextual, apenas o conhecimento do que tem sido dito (ou o compromisso convencional com a afirmação), e na medida em que o modo da afirmação não desempenha qualquer papel no cálculo, não será possível encontrar outro modo de dizer a mesma coisa, que simplesmente carece da implicatura em questão, exceto quando alguma característica especial da versão substituída é ela mesma relevante para a determinação de uma implicatura (em virtude de uma das máximas de Modo). Se nós denominarmos essa característica de inseparabilidade, alguém pode esperar uma implicatura conversacional generalizada que seja expressada por uma locução familiar, não especial, como tendo um alto grau de inseparabilidade.
  3. Para falar aproximadamente, uma vez que o cálculo da presença de uma implicatura conversacional pressupõe um conhecimento inicial da força convencional da expressão da afirmação que exprime a implicatura, um implicatum conversacional será a condição que não é incluída na especificação original da força convencional da expressão. Embora isso possa não ser impossível para o que dá início à vida, por assim dizer, na medida em que uma implicatura conversacional se torna convencionalizada, para supor que isso é assim em um dado caso iria exigir justificação especial. Portanto, inicialmente pelo menos, implicata conversacionais não são partes do significado das expressões para o emprego das quais elas estão associadas.
  4. Uma vez que a verdade de um implicatum conversacional não é exigida para a verdade do que é dito (o que é dito pode ser verdade – o que é implicitado pode ser falso), a implicatura não é expressada pelo que é dito, mas apenas por estar dizendo o que é dito, ou por “estar expressando-o desse modo”.
  5. Visto que, calcular uma implicatura conversacional é calcular o que foi suposto com o fim de preservar a suposição de que o Princípio da Cooperação está sendo observado, e uma vez que pode haver várias explicações específicas possíveis, uma lista que pode estar aberta, o implicatum conversacional em tais casos será a disjunção de tais explicações específicas; e se a lista dessas explicações está aberta, o implicatum terá justamente o tipo de indeterminação que muitas implicata atuais parecem de fato possuir.

Herbert Paul Grice

“Logic and Conversation” é a segunda parte das William James Lectures ministradas por H. P. Grice em Harvard, em 1967. O texto foi posteriormente publicado em Syntax and semantics: volume 3, speech acts, em 1975; e em sua coletânea Studies in the way of Words, em 1989.

Notas

  1. O termo introduzido no original é “implicate”. Como o próprio Grice explicará a seguir, ele se usa desse termo para distinguir a implicação da implicatura de uma mera implicação lógica. Assim, o verbo “implicate” é usado para referir aquilo que é implicado por uma implicatura, ao passo que o verbo “imply” é usado para referir a implicação na sua acepção costumeira de implicação lógica. É digno de nota que “implicate” já se encontrava nos dicionários e tem sido traduzida comumente por “implicitar”. O problema dessa escolha de tradução é que ela envolve justamente a acepção da palavra “implicitar” que Grice pretendia evitar. Para manter a distinção que Grice tinha em vista traduziremos o verbo “implicate” por “implicitar”. N. do T. ↩︎

  2. O exemplo de Grice não funciona quando é traduzido para o português. A expressão original do exemplo é “He is in the grip of a vice”. Em inglês, “vice” pode significar tanto um vício moral quanto um torno. Um torno é uma ferramenta montada sobre uma bancada ou mesa que o ferreiro e o serralheiro usam para apertar as peças que querem limar. Assim, sem maiores detalhes sobre o contexto de asserção, a expressão em inglês pode significar tanto que ele está preso a um vício quanto que ele está preso a um torno. N. do T. ↩︎

  3. James Harold Wilson foi o primeiro ministro do Reino Unido nos períodos de 1964 a 1970 e 1974 a 1976. N. do T. ↩︎

  4. Em sua Crítica da Razão Pura, Kant lista quatro categorias com as quais alguém pode classificar qualquer juízo: quantidade, qualidade, relação e modalidade. É claro que as categorias nada têm em comum com as máximas de Grice além do nome. As categorias não têm o mesmo conteúdo das máximas e funcionam de modos muito diferentes: enquanto as categorias têm como função classificar os juízos, as máximas têm como papel prescrever o que os falantes devem fazer em uma troca conversacional. Outra diferença é que a última máxima de Grice - Modo (“Manner”) - tem uma denominação distinta da última categoria de Kant - Modalidade (“Modality”). Um modo de aproximar os dois termos é observar que “modality” pode ser encarada gramaticalmente como uma qualidade, atributo, ou circunstância que denota modo (“manner”). É curioso que Grice tenha pegado emprestado de Kant a denominação das suas máximas, pois o próprio Kant denominou as suas categorias a partir de um empréstimo da lógica de Aristóteles. N. do T. ↩︎

  5. O termo no texto original é “interpretant”. Trata-se de um termo cunhado por Charles Sanders Peirce (1839–1914) em sua teoria dos sinais. Um sinal resulta de uma relação entre o veículo do sinal, o objeto e o interpretante. O veículo do sinal é o significador e pode ser uma afirmação, um evento (um grito que é um sinal de socorro), etc. O objeto é qualquer coisa que for significada ou representada pelo veículo do sinal. Por exemplo, um grito é o veículo do sinal, o pedido de socorro é o seu objeto. O interpretante, ou pensamento interpretador, é o efeito dessa relação sobre nós intérpretes e que resulta em nossa compreensão de como o sinal representa o seu objeto. É o interpretante que nos permite compreender o significado do sinal e entender que o grito é um pedido de socorro. N. do T. ↩︎

  6. Figura de retórica que consiste em usar uma expressão atenuada para fins retóricos. Em alguns casos esse efeito é conseguido ao usar a negação com um termo ao invés de usar o antônimo desse termo. Por exemplo, eu posso afirmar “O João não é nada tolo” para sugerir precisamente o oposto, “O João é muito esperto”. N. do T. ↩︎

  7. As expressões em inglês são “I have Sind” e “I have sinned”. Na primeira frase o general afirma que conquistou, está em posse de, Sind. Na segunda frase o general afirma que pecou. A ambiguidade é fonêmica e ocorre apenas no inglês, pois “sin” (“pecar”) e Sind são pronunciadas de maneira similar. N. do T. ↩︎

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