A Cor das Ideias
Junho de 2003 ⋅ Ensino da filosofia

Mais suicídio filosófico

Júlio Sameiro
A Cor das Ideias, de Rui Grácio e José Girão
Texto Editora, 2003

O Módulo Inicial deste manual é minado por um erro científico básico cujas consequências o tornam um fraco instrumento de trabalho. Este erro encontra-se no ponto 2.1, pp. 40-41, onde se nega a existência de problemas específicos da filosofia e, em consequência, a disciplina é reduzida a uma actividade sem conteúdo próprio.

O argumento consiste em referir problemas abordados por filósofos e não filósofos para concluir que, por isso, não há problemas específicos da filosofia. A falácia é evidente. Tomemos o problema "como combater a meningite?". Assim formulado, este problema diz respeito a toda a gente. Interessa a biólogos: "que é e como pode ser prevenida e tratada a meningite?"; e a políticos: "a vacina contra a meningite deve ser incluída num plano nacional de vacinação?". Mas, de acordo com o raciocínio do manual podemos concluir que o problema do biólogo não é específico da sua disciplina!

Impedindo-se de explicar o que é a filosofia, este módulo não pode cumprir a sua função. Nas 6 páginas deste capítulo, "2.1 ― Quais são as questões da Filosofia ― alguns exemplos", o manual, com a "desculpa" do método e da pedagogia, procurou apresentar de forma organizada, com exposição e pequenos textos, as disciplinas da Filosofia e os seus problemas. Mas, em vez de proporcionar orientação para uma actividade cuja especificidade ― problemas e instrumentos ― o aluno compreende e exercita, apenas conseguiu proporcionar conteúdos para o aluno, depois de falhar a penosa tentativa de interpretação, decorar e repetir.

Uma ilustração deste estilo pode ser retirado de um texto que, na página 43, pretende distinguir Moral e Ética. Veja-se o último parágrafo:

"Segundo uma outra abordagem, ligeiramente diferente, a moral considera o agir na sua relação com a lei, a constituição da regra e o juízo prudencial da consciência, ao passo que a ética trata do fundamento da moral"

E pronto! É tudo! Devia ser óbvio que os nossos rapazes e raparigas de 14 ou 15 anos não podem nem têm obrigação de perceber, pelos seus meios, que o agir na sua relação com a lei não remete apenas para a polícia e para os tribunais; nem de que tipo de regras em constituição se fala (do costume? Leis?...) nem o que é um juízo prudencial. E receará que também existam tais juízos mas não da consciência!

De facto, todos os textos estão recheados de referências e distinções prejudiciais nesta fase porque não assentam na compreensão dos problemas básicos que as originam. Por não saber o que é Filosofia, o manual não pode apresentar um esboço de discussão espontânea e acessível dos problemas da Filosofia e, portanto, não dá ao aluno a oportunidade de compreender o que é a actividade filosófica praticando-a.

Uma prova do insucesso na caracterização dos problemas filosóficos está na actividade proposta na página 46.

Os autores dão para análise um texto de Eco cuja tese ― "O desporto já só é conversa sobre a conversa do desporto" ― não responde a um problema filosófico e, apesar de ela ser literalmente errada, nem propõem a sua refutação. Deste modo, tanto a especificidade dos problemas da filosofia como o seu método são obscurecidos. O manual espera, mais uma vez, que o aluno se submeta ao encantamento do texto e assim paralise as suas capacidades críticas. Precisamente o contrário do que deveria fazer. Como filósofo o aluno deveria perguntar:

― Qual é o problema? Qual é a tese?

― O problema é filosófico?

O problema não é filosófico. Mas, se o objectivo fosse o de exercitar a actividade filosófica e, portanto, se se tratasse de uma actividade do capítulo seguinte, o texto poderia servir para mostrar que o alcance dos instrumentos críticos da Filosofia ultrapassa a disciplina. Por isso, identificada a tese, a análise poderia prosseguir com a pergunta crítica fundamental:

― É a tese verdadeira?

E com as suas filhas críticas:

― O material apresentado é suficiente para justificar a tese?

― Não terei razões para criticar a tese? Não disponho de contra exemplos?

E, uma vez demolida a tese, seria possível ensaiar o passo seguinte:

― Poderei ser caridoso? O material apresentado não poderá ser reformulado para apresentar uma hipótese talvez mais humilde mas mais produtiva?

Esta metodologia poderia fazer justiça ao pitoresco e sugestivo da prosa de Eco sem bloquear as capacidades críticas do aluno. Mas, como a filosofia portuguesa teme que os nossos aprendizes de filosofia perguntem clara e objectivamente pela verdade, é pouca a esperança de a ver cultivada.

Um momento em que o manual se aproxima da adequação mora nas páginas 56-57, no ponto "3.5.2 Exemplo de argumentações e contra-argumentações a propósito da pena de morte", mas, com a falta de enquadramento, o manual perdeu a oportunidade de esclarecer a natureza da actividade filosófica.

Perdeu em primeiro lugar, a oportunidade de esclarecer, sem ambiguidades nem vaguezas, a natureza dos problemas filosóficos. O debate apresentado comprovaria que os problemas fundamentais da filosofia a) são espontâneos e dizem respeito a todo o cidadão; b) podem ser expostos numa linguagem clara e simples; c) apesar de o problema se impor a todos e apelar ao trabalho de outras disciplinas, não deixa de ser especificamente filosófico.

Seja qual for o contributo de uma pessoa de outra área (seja sociólogo ou historiador ou jurista ou sacerdote ou...) ela não poderá, enquanto pessoa dessa área, tratar adequadamente a questão da pena de morte porque se trata de questionar os próprios princípios. Ao mesmo tempo que discutimos a pena de morte discutimos o poder e os limites dos diferentes princípios que se apresentam como critérios para as punições. Que princípio invocamos no debate? Protecção da sociedade? Uma ideia de pessoa que exige o castigo como regeneração? A retribuição? O direito à vida é um limite absoluto para a punição?... Sendo uma questão que diz imediatamente respeito às nossas vidas, é no terreno conceptual, dos princípios, que a o seu debate decorre e é a filosofia que apura as teorias e os instrumentos adequados a esse debate.

Em segundo lugar, o manual perdeu a oportunidade de explicitar e exercitar os instrumentos do debate filosófico ― o que, afinal, consistiria no apuramento dos instrumentos que o estudante já usa espontaneamente. O capítulo, em vez de apresentar tais instrumentos enreda-se numa teoria da racionalidade que, no melhor dos casos, teria lugar lá para o fim do 11º Ano.

Finalmente perdeu a oportunidade de esclarecer a natureza e valor da sabedoria filosófica. Apresentados os argumentos, o manual despacha rapidamente a ideia de que a resposta final... variará com as pessoas. Com a sua curta conclusão, deixa sobreviver a triste ideia de que, no caso de não obtermos uma resposta francamente conclusiva... ficamos como no princípio e a decisão, no fim de contas, é arbitrária.

Um dos problemas do ensino da filosofia é o facto de o aluno identificar o saber com a resposta conclusiva. Pensa que se no fim da investigação não temos tal tipo de resposta, não temos razões mas apenas os seus destroços. E que, permanecendo a dúvida, então, se tivermos de optar, o faremos opinativamente, irracionalmente, por uma espécie de ímpeto caprichoso e que, capricho por capricho, mais vale o capricho inicial, o que passou ao lado da cansativa busca de esclarecimento e verdade. Infelizmente este preconceito é perfilhado pela moda filosófica e pelo senso comum.

Mas o facto é este: é arbitrário afirmar que se a pessoa investiga (discute) a questão filosoficamente, isto é, orientada para a verdade e com os instrumentos argumentativos que a filosofia cultiva, não pode chegar a uma resposta conclusiva. Mas, mesmo que não atinja tal resposta estará, no fim, mais esclarecida sobre um conjunto dos seus princípios e dos princípios de outrem. Conhecerá o conjunto de erros que o espreitam e estará mais bem informado sobre os riscos de qualquer posição que venha a adoptar. A sabedoria assim alcançada é o bem da filosofia e este manual esconde-a.

Júlio Sameiro
Texto retirado de Filosofia e Educação
Termos de utilização ⋅ Não reproduza sem citar a fonte