Cosm, de Gregory Benford

A questão última da existência

Desidério Murcho
Cosm, de Gregory Benford
Europa-América, 2000, 344 pp.

Gregory Benford é físico, professor na Universidade da Califórnia em Irvine e autor de vários romances de ficção científica, um dos quais, Timescape, ganhou o prestigiado prémio Nébula. Este é o seu mais recente título de ficção científica, no qual se explora as ideias avançadas por Alan Guth: a existência de vários universos paralelos além do nosso, cuja existência, desenvolvimento e características seriam regidos por leis semelhantes às da selecção natural. Assim, o “ajuste perfeito” do nosso universo para a vida inteligente perde o ar misterioso ou religioso e transforma-se em algo tão natural como o comprimento dos pescoços das girafas.

Em Cosm Benford introduz outros elementos: os universos poderiam ser criações de seres inteligentes de outros universos. Mas é melhor começar pelo princípio. Num acelerador de partículas, após uma sessão na qual se faz colidir átomos de urânio, uma explosão destrói o equipamento; dessa explosão resulta um objecto estranho, opaco, redondo do tamanho de um melão e incrivelmente pesado para o tamanho. Quando se começa a observar esse objecto, a que a autora da experiência chamará Cosm, percebe-se que se trata de uma espécie de janela tridimensional para um universo em tudo semelhante ao nosso. Mas, do nosso ponto de vista, o tempo de Cosm flúi cada vez mais depressa, numa linha exponencial. Oportunidade única, pois, para observar toda a vida de um universo, desde o seu nascimento até à sua morte.

O autor convida-nos, pois, a encarar a questão última da existência: o fim do próprio universo. Ao contrário do que por vezes se pensa, o universo não é eterno, as estrelas nascem e morrem, assim como as galáxias, e o próprio universo acabará por morrer (quer por causa da contracção imposta pela força da gravidade, quer por acabar por consumir todo o hidrogénio e hélio existentes nas estrelas). Já Carl Sagan, no Contacto, nos tinha apresentado uma breve visão do que poderá ser uma reacção ao destino cruel e frio do universo: uma imensa tecnologia galáctica, capaz de manter galáxias juntas, impedindo que se dispersem pela inexorável expansão do espaço e do tempo. Essa visão surge também em Cosm: quando se observa os últimos biliões de anos da vida de Cosm surgem indícios de que uma forma de vida inteligente está a controlar a matéria e a energia, no sentido de impedir a sua extinção definitiva.

Entretanto, outros investigadores provocam a existência de outro Cosm; mas este apresenta pequenas diferenças nas constantes físicas fundamentais, relativamente ao nosso universo, ao contrário do primeiro Cosm. É este facto que conduz Max, um dos personagens do romance, a especular sobre a teoria inflacionista de Alan Guth, acrescentando-lhe alguns aspectos cruciais, como a ideia de que a natureza do universo seria regida não apenas por leis de selecção natural, mas também que seriam o resultado de experiências semelhantes à que conduziu à formação de Cosm: o nosso universo seria, também ele, uma criação de seres inteligentes de outro universo qualquer. E talvez se possa até criar uma tecnologia que permita passar de um universo para outro, escapando desta forma à morte do nosso universo de origem.

Este é, pois, mais do que um romance de ficção científica, uma obra na qual as grandes questões da condição humana são levantadas de forma sóbria e com conhecimento de causa. As personagens são espessas, com sólidos perfis psicológicos. A política científica e o ambiente universitário são igualmente apresentados com verosimilhança: o autor conhece obviamente bem este meio. A leitura é compulsiva e instrutiva.

Desidério Murcho
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