As Cruzadas Vistas pelos Árabes, de Amin Maalouf

Luminosidade e serenidade

Maria João Cantinho
As Cruzadas Vistas pelos Árabes, de Amin Maalouf
Tradução de Cascais Franco
Difel, Lisboa, 325 pp.
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Amin Maalouf é um autor sobejamente conhecido do público português. Movendo-se com o mesmo à-vontade no seio dos vários géneros literários, como sejam o romance histórico, o ensaio, a ficção, a crónica, transformou-se numa das figuras mais prestigiadas do panorama da literatura francófona. Originário do Líbano, tendo nascido em 1949, Maalouf acabou por emigrar e fixou residência em Paris, onde vive desde 1976. Após ter concluído aí os seus estudos de economia e sociologia, decide então experimentar o jornalismo, profissão que muitos consideram ainda ser a principal fonte da escrita. O facto de Maalouf ter empreendido inúmeras missões nos mais variados países, permitiu-lhe o vasto manancial literário e cultural que conforma a riqueza e o colorido inesgotável da sua escrita, aproximando-o dessa autora genial e absolutamente incomparável (hoje tão esquecida da nossa literatura) que é Marguerite Yourcenar. Observa-se em Maalouf o mesmo fôlego, a mesma luminosidade e serenidade da prosa de Yourcenar, bem como uma consistência muito próxima daquela que a autora confere aos seus personagens, captados em toda a sua profundidade, seres com alma e corpo, dilacerados pelas suas paixões e sentimentos, vítimas dos seus sonhos e das suas aspirações, maiores que a vida, como é o caso de Leão, o Africano, de Samarcanda, só para citar os casos dos seus romances mais envolventes e conseguidos, no género do romance histórico.

Esta obra pretende-se como fazendo parte de um género literário intermédio entre a crónica e o romance histórico, com as vantagens e as desvantagens que isso, obviamente, acarreta. Se, por um lado, perde quanto ao aspecto da construção de personagens e também no colorido que lhe é habitual, por outro ganha em rigor histórico e em objectividade, sem deixar de ser, note-se, uma obra ímpar e fascinante. A principal razão consiste, quanto a mim, na particularidade de ser uma descrição desse acontecimento fabuloso e mítico que foram, para os europeus ocidentais, as cruzadas, mas de um ponto de vista que nos é absolutamente estranho e desconhecido: o dos árabes. Ficamos a saber que também nós, os guerreiros santos, os famosos mártires da fé cristã, cometemos as maiores barbáries e atrocidades, algumas bem hediondas, em nome de um Deus justo e misericordioso. Só por essa razão, a de apurarmos a responsabilidade dos nossos cruzados, os nossos antepassados glorificados, ao longo dos séculos, pela Igreja, vale a pena lermos atentamente esta obra. O outro lado da questão, a outra versão que ignoramos e que temos de conhecer obrigatoriamente (mais do que questão moral, converte-se numa questão ética), é o que nos permite decidir e ajuizar acerca da legitimidade das cruzadas, e da tão apregoada evangelização, e o que nos permite igualmente apurar acerca da responsabilidade, não só dos factos históricos em si, como também dos historiadores e da historiografia que contribuíram para a consagração desse fenómeno.

A partir deste romance e tendo-lhe compreendido a enorme importância, a Rádio-Canadá e a Tele-Hachette, em conjunto, decidiram realizar um telefilme que foi difundido durante alguns meses em França. Também a ilustre e elitista Academia Francesa (sabemos quão poucos foram homenageados e aceites na mesma) preparou a partir dela uma importante peça histórica, La Tribune de l'Histoire. Estes acontecimentos posteriores mostram bem o impacto desta obra em França, aliada ao extremo rigor e veracidade que constituem os seus factos históricos, elementos que Maalouf não negligencia.

Por estas tardes que elanguescem o corpo e em que o tédio cresce como uma cortina parda e amolecida, apetece ler com lentidão, para quebrar o fluxo contínuo dos dias, "matar o tempo", expressão que se encontra francamente em desuso, com um bom livro, capaz de arrastar a nossa imaginação num voo ilimitado pela história dos longínquos séculos da Reconquista. Recomenda-se especialmente aos jovens que têm aversão ao estudo da história, uma vez que o carácter atractivo e lúdico da obra em si torna bastante divertida a iniciação nesse período da história.

Maria João Cantinho
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