Leituras Relacionadas à Cultura Geral, de Antônio Paim
Março de 2003 ⋅ Livros

A ciência faz parte das humanidades

Leônidas Hegenberg
Leituras Relacionadas à Cultura Geral, de Antônio Paim.
Rio de Janeiro: Editora Expressão e Cultura (Coleção Páginas Amarelas), 2001, 143 pp.

Os pequenos volumes, formato bolso (13x10 cm), da "Coleção Páginas Amarelas" asseguram, sem dúvida, segundo os desejos de seus organizadores, que é possível produzir livros de baixo preço (cada exemplar custa apenas um real!), acessíveis a expressivas camadas da população, capazes de efetuar decisivas contribuições sociais.

As obras, de autores brasileiros e estrangeiros, como se registra na quarta capa, abordam "temas de interesse permanente, universais, de reconhecida contribuição social, voltados ao exercício pleno da cidadania".

Diante da quantidade astronômica de livros publicados ao longo dos tempos, não espanta o aparecimento, vez por outra, de compêndios que procurem instruir leitores, indicando-lhes as obras "indispensáveis" para a boa formação cultural.

Na "Apresentação" (p. 9-12), Paim registra que a preservação da cultura geral (humanidades, liberal arts) obedece ao princípio de que haveria um patrimônio cultural comum no Ocidente. Tal preservação dava-se nos mosteiros e, depois, nas universidades da Idade Média. A ciência moderna compeliu estudiosos a rever o que havia nos programas de antigos centros universitários. Pombal, em Portugal, e Napoleão, na França, "aniquilaram" o que ainda ali restasse de cultura geral.

Contudo, em muitos países de fala portuguesa, principalmente nas universidades católicas, a cultura geral voltou a ocupar largo espaço, ao lado da ciência. Ainda assim, o conflito humanidades versus ciência não recebeu solução satisfatória. O assunto só chegou a ser adequadamente discutido a partir de 1930, nos EUA.

Quando a Universidade de Chicago concentrou as liberal arts em torno da filosofia aristotélico-tomista, o conflito voltou à tona.

Sidney Hook (1902-89) tentou eliminar divergências salientando que a ciência faz parte das humanidades. Nesse contexto, Robert Hutchins, destacado educador, não pode ser esquecido, pois concebeu e organizou os Great Books da Enciclopédia Britânica, verdadeiro "resumo" da cultura. O modelo clássico de manutenção dessa cultura apresentou-se, porém, no programa do St. John's College (EUA). Nos quatro anos da faculdade, o aluno está obrigado a ler 130 obras nas quais estaria concentrado o saber ocidental.

Isso posto, Antônio Paim nos brinda com breve caracterização dos cursos humanísticos do St. John's College e da hoje bem conhecida Open University (p. 19-24), comentando o programa de leituras de St. John (p. 25-33). Em seguida (p. 35-47), considera as atividades desenvolvidas no Instituto de Humanidades, criado por professores do Rio de Janeiro, de São Paulo e do Paraná. Trata-se de entidade sem fins lucrativos, criada em 1986, sediada em Londrina (Estado do Paraná). O Instituto de Londrina visa à recuperação da tradição humanística, em geral ignorada pelas reformas de ensino realizadas no Brasil a partir de 1960. Muito ilustrativas as "leituras recomendadas" (p. 38-47) pelos estudiosos da entidade.

Paim apresenta, em seguida, as ideias defendidas por Harold Bloom, em seu The Western Cânon, surgido em 1994 (e traduzido para o português no ano seguinte). Assentado em padrões estéticos, Bloom dá maior realce às obras literárias. Não deixa, porém, de incluir entre as obras "indispensáveis" algumas poucas produções filosóficas (esquecendo Kant!) e políticas. Nas pp. 49-120, está a lista de obras que Bloom prestigia, distribuídas em períodos: 1) era teocrática, 2) era aristocrática, 3) era democrática, 4) era do caos. Há uma repartição por países, não deixando Bloom de incluir em seu longo rol, obras alemãs, africanas, árabes, australianas, britânicas, canadenses, catalãs, croatas, escandinavas, espanholas, francesas, gregas (modernas), hebraicas, húngaras, italianas, latino-americanas, neozelandesas, polonesas, portuguesas, russas.

Um índice de nomes mencionados no livro foi incluído no final (p. 121-43), permitindo que o leitor faça ligeira avaliação de sua ignorância...

Como síntese do que, na opinião de certos estudiosos de renome, seria a "Cultura" (Ocidental), o livro de Paim é uma pequena preciosidade.

Leônidas Hegenberg
lh@phonet.com.br

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