O Espectro de Darwin, de Michael R. Rose
26 de Novembro de 2004 ⋅ Livros

Ir muito mais longe

Pedro Galvão
O Espectro de Darwin, de Michael R. Rose
Dinalivro, 2000, 242 pp.

Há cerca de 170 anos, o jovem Darwin abandonava o conforto da vida aristocrática inglesa para se lançar numa longa viagem de circum-navegação. Quando regressou, a experiência adquirida depressa fez dele um naturalista reputado, mas seu talento teórico permitiu-lhe ir muito mais longe. Inspirado e intrigado por aquilo que observara, concebeu a teoria da evolução das espécies por selecção natural. Iniciou assim uma revolução profunda na biologia, mas não só. O darwinismo veio abalar a visão tradicional do nosso lugar no mundo, demoliu dogmas religiosos, alimentou ideologias políticas e abriu perspectivas para novas tecnologias. Apesar das crises, abusos e incompreensões que produziu, continua a ser um dos programas de investigação mais férteis e amplos. Hoje vivemos todos sob o espectro de Darwin, mas não é fácil saber o que isso implica. Em pouco mais de duzentas páginas, Michael Rose, professor de biologia na Universidade da Califórnia, consegue introduzir-nos no darwinismo e fazer-nos perceber o que significa viver depois de Darwin.

A primeira das três partes de "O Espectro de Darwin" vale por si mesma e justifica a aquisição do livro. Nela, após uma biografia de Darwin, encontramos uma exposição esclarecedora do conteúdo fundamental do darwinismo, distribuída por três capítulos que lidam com as teorias da hereditariedade, o mecanismo da selecção natural e a árvore da vida. Embora no seu todo a exposição seja primariamente temática, dentro de cada capítulo prevalece uma orientação histórica. Obtemos assim uma boa imagem do desenvolvimento do darwinismo: podemos acompanhar as relações atribuladas que este manteve com a teoria mendeliana da hereditariedade, por exemplo, ou seguir o comportamento por vezes desconcertante da comunidade científica nos períodos em que a polémica se instala. E também ficamos a conhecer detalhes interessantes, como o facto de que um crítico que comentou "A Origem das Espécies" antes da sua publicação, embora não tenha ficado impressionado com os argumentos evolucionistas, "gostou bastante do material sobre pombos e aconselhou o editor a que, em vez de publicar a Origem, encomendasse a Darwin uma obra sobre pombos".

A segunda parte do livro incide nos efeitos práticos do darwinismo. Rose selecciona aqui três áreas: a agricultura, onde o darwinismo já produziu resultados impressionantes, a medicina, onde este se mostra cada vez mais promissor e, por fim, a eugenia. Depois de traçar a história desta última, Rose defende que hoje "a eugenia é essencialmente letra morta", e conclui: "O século XX, a idade de ouro das ideologias intrusas, chegou ao fim. As pessoas sentiram necessidade de programas messiânicos ou científicos para o futuro da espécie e a eugenia era ambas as coisas. Ainda bem que o namoro entre a biologia evolucionista e a eugenia ocorreu numa época em que a tecnologia genética era tão primitiva que havia pouca probabilidade de que tivesse um impacto duradouro sobre a espécie."

O modo como o darwinismo é relevante para a compreensão do comportamento humano constitui uma questão difícil e polémica. Rose reserva-a para a última parte do seu livro, onde examina as implicações económicas, sociais e políticas de duas teorias rivais. Uma delas, a "psicologia evolucionista", afirma que os nossos padrões de comportamento, embora sejam sem dúvida singularmente elaborados, "continuam a ser padrões de comportamento animal moldados pelos mesmos imperativos darwinistas" que operam sobre os outros animais. Opondo-se a esta perspectiva, a teoria do "darwinismo imanente" declara antes que "a natureza humana pode conformar-se às expectativas darwinistas em casos concretos, mas por razões diferentes daquelas que fazem o comportamento de outras espécies conformar-se às mesmas expectativas". Esta segunda teoria preserva assim o darwinismo ao mesmo tempo que prevê uma descontinuidade substancial entre os comportamentos animal e humano.

Rose apresenta ainda uma tentativa de explicação ousada da experiência religiosa, concluindo da melhor maneira este livro claro, informativo e conciso que nos revela a estrutura e o desenvolvimento daquele que é, muito provavelmente, o programa de investigação científico com maior significado cultural.

Pedro Galvão
Originalmente publicado no jornal Público.
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