A Darwinian Left, de Peter Singer

Política e biologia

Álvaro Nunes
A Darwinian Left, de Peter Singer
Yale University Press, 64 pp.
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A esquerda política saiu completamente destroçada das recentes eleições autárquicas, mas bem vistas as coisas isso não tem nada de surpreendente. Órfã de valores e causas depois da queda do muro de Berlim, sem nada para oferecer e rendida aos princípios económicos e sociais do liberalismo económico, a esquerda política arrastou-se num exercício estéril do poder. Esse poder que durante muito tempo usou, ou pretendeu usar, para impulsionar a sociedade esvaziou-se de sentido e passou a ser utilizado sem objectivos, ao sabor dos interesses do momento, numa sucessão de incongruências e ziguezagues múltiplos, de que o episódio rocambolesco da taxa de alcoolémia é apenas o exemplo mais recente. O que é surpreendente, portanto, é que a sua queda tenha demorado tanto a acontecer.

Os espíritos mais esclarecidos da esquerda não demorarão a perceber que a causa da derrocada está neste vazio de ideias e de futuro, de princípios e de causas, que a Terceira Via e o próprio António Guterres tão bem exemplificam, e que a sua renovação tem de passar por encontrar (ou reencontrar) causas e valores que dêem sentido à sua existência política.

É por isso que, neste período de reflexão que se segue à sua lenta agonia e brusca queda, é de toda a utilidade que a esquerda leia e reflicta atentamente neste pequeno livrinho em que Peter Singer, o filósofo da moral australiano de quem foram publicados recentemente entre nós Libertação Animal e Ética Prática, repensa os fundamentos da esquerda.

Como Singer diz logo nas primeiras páginas, este não é um livro sobre a esquerda como força política organizada, mas sobre a esquerda como um conjunto de ideias acerca da realização de uma sociedade melhor. É a esta luz que a caracterização que oferece de esquerda deve ser entendida:

Ser de esquerda é estar do lado dos fracos e não dos poderosos; dos oprimidos e não dos opressores; dos dominados e não dos dominadores. [...] Se encolhemos os ombros perante o sofrimento evitável dos fracos e dos pobres, dos que são explorados e maltratados, ou que simplesmente não têm o necessário para viver decentemente, não somos de esquerda. Se dizemos que o mundo é assim, e sempre será, e nada há que possamos fazer, não somos de esquerda. A esquerda procura mudar esta situação. (pág. 8)

É a partir desta concepção minimalista e moral de esquerda que Singer procura desenvolver a tese de que, uma vez que o marxismo já não pode constituir o seu fundamento, a esquerda deve procurar esse fundamento num entendimento moderno da natureza humana, isto é, deve ter em conta, ao estabelecer os seus objectivos e meios, o que o darwinismo nos ensina sobre a natureza humana.

O resto das setenta páginas do livro são dedicadas ao desenvolvimento desta ideia. No primeiro capítulo, Politics and Darwinism, Singer explica como a direita usou a teoria biológica da evolução para justificar o direito dos fortes a dominar os fracos, discute a possibilidade de um darwinismo de esquerda e analisa a forma como a esquerda e os marxistas em geral receberam o darwinismo. No segundo, Can the Left Accept a Darwinian View of Human Nature?, indica quais as barreiras ao darwinismo que a esquerda deve abandonar e chama a atenção para a importância de determinar o que na natureza humana é fixo e não pode ser ignorado por aqueles que queiram construir uma nova esquerda. No terceiro capítulo, Competition or Cooperation?, Singer defende que a disposição para cooperar (ou para o altruísmo recíproco ― o termo técnico para cooperação) é uma característica fixa da natureza humana e que devemos criar condições que façam avançar a nossa compreensão das regras de cooperação mútua benéfica e desse modo tornar possível que relações desse tipo se desenvolvam. O capítulo 4 tem o título From Cooperation to Altruism? e nele Singer argumenta a favor da existência do altruísmo genuíno e de que é um erro afirmar que a teoria da evolução mostra que as pessoas não podem ser motivadas pelo desejo de ajudar outros. Por fim, no quinto e último capítulo, A Darwinian Left for Today and Beyond, Singer resume as conclusões a que chegou e afirma que, embora a sua seja uma visão deflaccionada e realista do que a esquerda pode alcançar, o facto de sermos seres racionais pode levar-nos no futuro a pontos difíceis agora de imaginar, pode levar-nos até, pensa Singer, a um altruísmo puro e desinteressado.

Embora Peter Singer nunca o diga explicitamente, a sua argumentação sugere que a esquerda cometeu um erro quando, ao abandonar o marxismo, abandonou também as principais causas e valores por que desde sempre lutou. Com efeito, a queda dos regimes comunistas do leste europeu foi seguida pelo abandono praticamente imediato do marxismo e das causas tradicionais da esquerda e, por todo o lado, a esquerda ― aturdida ― converteu-se à economia de mercado e recuou para um programa minimalista baseado na solidariedade que, por exemplo, nas mãos de António Guterres, mostrou demasiadas vezes a sua inspiração cristã. Tudo indica, portanto, que a esquerda procedeu como se a falência dos seus objectivos e valores fosse uma consequência necessária da derrocada do marxismo. Mas isto, claro, é um erro.

É um facto que, historicamente, a esquerda encontrou ― ou julgou encontrar ― o fundamento para os seus objectivos políticos no marxismo (o que permite compreender a rapidez com que, ao abandonar o marxismo, abandonou também esses objectivos), mas da falsidade do marxismo não se segue a falsidade dos valores da esquerda. Isso seria como argumentar que se adoptássemos o liberalismo isso conduziria a um maior bem-estar para toda a gente e depois, perante a falência do liberalismo, concluíssemos que esse bem-estar era impossível. Da mesma maneira que, neste caso, não há motivos para acreditarmos que o bem-estar é impossível, também, no caso do marxismo, não há motivos para pensarmos que os objectivos da esquerda devam ser abandonados.

Mas isto não significa que os valores e causas da esquerda marxista sejam todos correctos e possam ser mantidos. Na realidade, não significa nem que sejam correctos nem incorrectos, mas que abandoná-los apenas porque a teoria que se julgava fundá-los se revelou errada, foi uma atitude precipitada; o que se deveria ter feito era repensar os seus fundamentos. Este processo, com toda a certeza, revelaria que alguns dos objectivos e causas da esquerda, apesar de cortados os vínculos ao marxismo, podiam ser mantidos; que outros, antes julgados inquestionáveis, são inaceitáveis; e, nalguns casos também, que novos objectivos ― como a defesa dos animais não humanos ―, correspondendo à aspiração da esquerda em tornar o mundo melhor, podiam ser adoptados.

Como é óbvio, num livro com as dimensões deste, Peter Singer não pode mostrar que causas resistem à queda do marxismo nem que novas causas podem ser adoptadas pela esquerda e tem de limitar-se a esboçar o projecto de "uma esquerda darwinista". Mas as ideias que apresenta são certamente importantes para a intensa reflexão que a esquerda política tem de fazer se quiser voltar a contribuir significativamente para o progresso social no Ocidente.

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