Filosofia política

Política e biologia

Álvaro Nunes
A Darwinian Left
de Peter Singer
Yale University Press, 64 pp.

É de toda a utilidade que a esquerda leia e reflicta atentamente neste pequeno livrinho em que Peter Singer, o filósofo da moral australiano de quem foram publicados recentemente entre nós Libertação Animal e Ética Prática, repensa os fundamentos da esquerda. Como Singer diz logo nas primeiras páginas, este não é um livro sobre a esquerda como força política organizada, mas sobre a esquerda como um conjunto de ideias acerca da realização de uma sociedade melhor. É a esta luz que a caracterização que oferece de esquerda deve ser entendida:

Ser de esquerda é estar do lado dos fracos e não dos poderosos; dos oprimidos e não dos opressores; dos dominados e não dos dominadores. [...] Se encolhemos os ombros perante o sofrimento evitável dos fracos e dos pobres, dos que são explorados e maltratados, ou que simplesmente não têm o necessário para viver decentemente, não somos de esquerda. Se dizemos que o mundo é assim, e sempre será, e nada há que possamos fazer, não somos de esquerda. A esquerda procura mudar esta situação. (pág. 8)

É a partir desta concepção minimalista e moral de esquerda que Singer procura desenvolver a tese de que, uma vez que o marxismo já não pode constituir o seu fundamento, a esquerda deve procurar esse fundamento num entendimento moderno da natureza humana, isto é, deve ter em conta, ao estabelecer os seus objectivos e meios, o que o darwinismo nos ensina sobre a natureza humana.

O resto das setenta páginas do livro são dedicadas ao desenvolvimento desta ideia. No primeiro capítulo, Politics and Darwinism, Singer explica como a direita usou a teoria biológica da evolução para justificar o direito dos fortes a dominar os fracos, discute a possibilidade de um darwinismo de esquerda e analisa a forma como a esquerda e os marxistas em geral receberam o darwinismo. No segundo, Can the Left Accept a Darwinian View of Human Nature?, indica quais as barreiras ao darwinismo que a esquerda deve abandonar e chama a atenção para a importância de determinar o que na natureza humana é fixo e não pode ser ignorado por aqueles que queiram construir uma nova esquerda. No terceiro capítulo, Competition or Cooperation?, Singer defende que a disposição para cooperar (ou para o altruísmo recíproco — o termo técnico para cooperação) é uma característica fixa da natureza humana e que devemos criar condições que façam avançar a nossa compreensão das regras de cooperação mútua benéfica e desse modo tornar possível que relações desse tipo se desenvolvam. O capítulo 4 tem o título From Cooperation to Altruism? e nele Singer argumenta a favor da existência do altruísmo genuíno e de que é um erro afirmar que a teoria da evolução mostra que as pessoas não podem ser motivadas pelo desejo de ajudar outros. Por fim, no quinto e último capítulo, A Darwinian Left for Today and Beyond, Singer resume as conclusões a que chegou e afirma que, embora a sua seja uma visão deflaccionada e realista do que a esquerda pode alcançar, o facto de sermos seres racionais pode levar-nos no futuro a pontos difíceis agora de imaginar, pode levar-nos até, pensa Singer, a um altruísmo puro e desinteressado.

Como é óbvio, num livro com as dimensões deste, Peter Singer não pode mostrar que causas resistem à queda do marxismo nem que novas causas podem ser adoptadas pela esquerda e tem de limitar-se a esboçar o projecto de “uma esquerda darwinista”. Mas as ideias que apresenta são certamente importantes para a intensa reflexão que a esquerda política tem de fazer se quiser voltar a contribuir significativamente para o progresso social no Ocidente.

Álvaro Nunes