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Junho de 2003 ⋅ Filosofia

Davidson e a justificação da verdade

André Barata
Donald Davidson: Acerca da Correspondência, Coerência e Cepticismo, de Manuel Sanches
Coimbra: Angelus Novus, 2002, 96 pp.

Este livro traz-nos uma sóbria e rigorosa apresentação, por mão de Manuel Sanches, do pensamento de Donald Davidson (n. 1917), um dos nomes incontornáveis da filosofia norte-americana do séc. XX, autor de vários conceitos e teses de relevo em domínios como a teoria da linguagem, a filosofia da mente, a teoria da decisão e a teoria da crença. M. Sanches não se abalança, porém, a uma apresentação integral de Davidson, antes focando a atenção em três pontos, entre si relacionados, e que subintitulam o presente estudo — os problemas em torno da correspondência e da coerência, no quadro de uma investigação filosófica sobre a verdade, e o problema da possibilidade de um cepticismo global acerca da verdade das nossas crenças.

O ponto de partida de M. Sanches reside na tese davidsoniana de uma indefinibilidade da verdade, ou seja, de não ser possível obter-se uma definição de verdade que não pressuponha já, circularmente pois, a própria noção de verdade. Nesse sentido, é percorrido o panorama das diversas teorias filosóficas da verdade existentes — desde as teorias da correspondência (seja por congruência seja por correlação), as teorias da coerência, as teorias pragmatistas, semânticas e deflacionistas — para nelas encontrar esta mesma dificuldade. A propósito do corresponditismo em particular, afirma M. Sanches: "Dizer que uma frase ou uma crença é verdadeira quando corresponde aos factos não acrescenta nada à ideia de verdade."

Poder-se-ia ser conduzido a pensar então que, no que respeita à verdade, Davidson nada concluiria senão um "mais vale calarmo-nos". No entanto, longe disso, desta forma Davidson simplesmente inaugura a sua própria abordagem ao tópico da verdade.

Tratar-se-á, primeiramente, como salienta M. Sanches, de distinguir entre dois âmbitos teóricos, um metafísico outro epistémico, os quais se deixam intuir pelo tipo de perguntas que associamos a cada um deles — ao primeiro a pergunta "o que é a verdade?", ao segundo a pergunta "sob que condições aceitamos certa frase ou crença como verdadeira?". De acordo com Davidson, é possível responder à segunda destas questões mesmo não se dispondo de nenhuma boa resposta para a primeira. Donde que distinga entre "teorias da verdade", como as atrás enumeradas, e "teorias da justificação da verdade"; e que, não obstante a indefinibilidade da verdade, nos proponha uma teoria epistémica "acerca das razões que podemos ter para aceitar certas verdades como tal".

Tratar-se-á, em segundo lugar, de apresentar a proposta davidsoniana da teoria da coerência como teoria da justificação da verdade. "O seu objectivo", explica M. Sanches, "é mostrar que há uma presunção a favor da verdade de uma crença quando esta é coerente com um agregado significativo de outras crenças." No entanto, com isto não está em causa uma discussão do que seja a verdade, mas tão-só da sua justificação e do modo como a construímos — Davidson não está, pois, disposto a ceder no ponto relativo à independência da verdade face às nossas justificações e construções. Donde não se perder de vista a realidade como horizonte último da verdade; simplesmente, não é nesta que fundamos as nossas justificações da verdade. Nas palavras de M. Sanches, "a tese coerentista que Davidson defende é a de que a única razão para sustentar uma crença é outra crença". Em suma, se Davidson apenas admite uma teoria epistémica a propósito da verdade, é porque não nos é possível formular adequadamente uma teoria metafísica da verdade e não porque a verdade se reduza a uma perspectiva meramente epistémica (na linha, por exemplo, de um Richard Rorty).

Além desta teoria coerentista da justificação da verdade, Davidson avança duas importantes ideias a respeito das crenças e desejos dos sujeitos humanos e do modo como entre eles é possível estabelecer-se uma relação de interpretação. Por um lado, e na sequência do coerentismo de justificação, a ideia de que as nossas crenças e desejos são holísticos — "cada interpretação deverá suportar e ser suportada pelas outras interpretações que fazemos do pensamento e da acção de uma pessoa"; por outro lado, a ideia de que, além de holísticos, são também racionais — "crenças e desejos só podem ser atribuídos a agentes racionais". A partir destes dois aspectos, do holismo e da racionalidade, Davidson formula o que designa por "princípio de caridade", a saber, que a capacidade de um falante interpretar um outro falante pressupõe que o intérprete considere a maioria das crenças do sujeito interpretado como verdadeiras ou ao menos como estando de acordo com as suas próprias crenças. De outra forma, a interpretação não seria possível.

É neste quadro que Davidson elabora uma teoria da interpretação, que M. Sanches resume do seguinte modo: "Segundo esta teoria, o significado de uma frase depende das suas relações com outras frases; essas relações devem ser, na sua maioria, as de consistência, coerência e racionalidade. Um intérprete deve considerar o objecto da sua interpretação, na sua maior parte, verdadeiro, de acordo com os seus próprios padrões. Isto é, deve interpretar de modo a maximizar a coerência das suas crenças e das crenças do interpretado."

Naturalmente, poder-se-á objectar que esta teoria da interpretação não garante nem a verdade da crença nem a infalibilidade da interpretação, abrindo assim caminho para um cepticismo. É que a coerência não é incompatível com a falsidade. Contudo, Davidson sustenta que a coerência dos nossos sistemas de crença é capaz de gerar uma efectiva correspondência, reatando o laço com a realidade propriamente dita. Para isso, concorre uma das suas teses mais controversas, a de que o conteúdo das nossas crenças seria determinado pela sua causa exterior (teoria causal da crença), pelo que as crenças seriam intrinsecamente verdadeiras. M. Sanches dá conta da controvérsia expondo tanto os argumentos de Davidson como os dos seus críticos (Ernest Sosa, Colin McGinn e P. Kein) num debate que permanece inteiramente actual e longe de estar concluído.

André Barata

Originalmente publicado em Público (24 de Maio de 2003)
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