Decompondo o Arco-Íris, de Richard Dawkins
Livros

A poesia da ciência

Desidério Murcho
Decompondo o Arco-Íris, de Richard Dawkins
Gradiva, 2000, 356 pp.
Comprar

Richard Dawkins é um dos mais importantes pensadores do nosso tempo. Infelizmente, os seus livros passam quase sempre despercebidos na imprensa cultural portuguesa. Isto talvez se fique a dever a uma tacanhez falsamente humanista que faz muitas pessoas pensar que podemos encontrar respostas às grandes questões da condição humana em Shakespeare ou Platão, mas não nos modernos cientistas. Isto é um disparate, claro, já que muitos dos grandes pensadores de todos os tempos foram também cientistas — ontem, como hoje. Por outro lado, é estranho que queiramos sinceramente saber de onde viemos, para onde vamos e quem somos passando por alto as melhores respostas que a ciência contemporânea tem para nos oferecer, e preferindo elucubrações obscuras e entretanto ultrapassadas pelo desenvolvimento da ciência.

Tanto pelos temas que aborda, como pela elegância e simplicidade da forma, esta obra é altamente recomendada para todos os leitores, independentemente da sua formação literária ou científica. O livro é composto por 12 capítulos, um prefácio e uma bibliografia seleccionada. O índice analítico da edição original foi amputado na edição portuguesa. Três temas percorrem este livro: a poesia da ciência, a pseudociência e a superstição, e a questão de saber se a evolução natural tem uma direcção. Só a última exige alguma familiaridade do leitor com as modernas teorias evolucionistas. Os outros dois temas são do interesse dos tais "humanistas" que dizem preocupar-se com as grandes questões da condição humana mas que se mantêm à margem da ciência, e também dos filósofos que se debatem com o problema da pseudofilosofia, e dos teólogos e crentes religiosos.

Nos primeiros capítulos, Dawkins procura mostrar que a ciência não se deve divorciar da poesia. O termo "poesia" surge aqui como metáfora para toda e qualquer manifestação literária de recorte humanista, na qual se reflecte sobre a condição humana e sobre aspectos estéticos e emocionais do universo que nos rodeia. Curiosamente, este livro deveria ser recebido de braços abertos pelo leitor português familiarizado com o poeta António Gedeão, que introduziu com sucesso a terminologia e a mundividência científicas na poesia. Dawkins mostra como a atitude estética se enriquece se estiver cientificamente informada — e Gedeão é um exemplo a que Dawkins infelizmente não pôde recorrer! — e como a mundividência científica se "humaniza" se for enriquecida com uma atitude estética. O caso de Carl Sagan, que tinha um talento especial para mostrar o encanto da ciência, é paradigmático.

Todavia, a adopção da atitude estética na ciência encerra os seus perigos. Um desses perigos é a habilidade humana para se colocar no centro do universo — neste sentido, a palavra "humanista" deveria ser entendida como uma marca de provincianismo, à semelhança de "especista" ou de "racista". Uma das formas mais populares de "humanismo" no sentido pejorativo do termo é a pseudociência, a crendice religiosa e a superstição. Numa das passagens mais admiráveis da moderna bibliografia ensaísta, Dawkins mostra que razões o levam a pensar que não devemos acreditar no milagre de Fátima. Com uma argumentação brilhante, que recorre ao famoso ensaio do filósofo escocês David Hume (1711-76) sobre os milagres, Dawkins mostra que a probabilidade de estarmos perante uma ilusão por parte das pessoas que alegadamente presenciaram o milagre é muito superior à probabilidade de o Sol efectivamente se ter movido, como os pastorinhos e as 70 mil testemunhas afirmaram: “Se o Sol se moveu de facto, mas o acontecimento só foi visto pelas pessoas de Fátima, então teria de se ter dado um milagre ainda mais notável: teria de ter sido encenada uma ilusão de não-movimento relativamente a todos os milhões de testemunhas que não estavam em Fátima. E isso se ignorarmos o facto de que, se o Sol se tivesse realmente deslocado à velocidade referida, o sistema solar se teria desintegrado. Não temos alternativa senão a de seguir Hume, escolher a menos miraculosa das alternativas disponíveis e concluir, contrariamente à doutrina oficial do Vaticano, que o milagre de Fátima nunca aconteceu.”

O fenómeno da pseudociência é outro dos temas que Dawkins persegue com vigor. Carl Sagan dedicou-lhe um livro inteiro — "Um Mundo Infestado de Demónios" —, mas este é um tema que merece continuamente a nossa atenção. É caso para dizer que a ciência acaba por ser vítima do seu próprio inegável sucesso; nunca vemos cientistas a procurar vindicar as suas teorias apelando para a teologia; mas vemos os mais loucos devaneios humanos a procurar ancorar-se na ciência. Retomando o primeiro tema do livro, Dawkins comenta que a pseudociência não passa de má ciência poética — indesejável para quem tem um desejo genuíno de descobrir o mundo que o rodeia, um desejo que não se deixe subalternizar pelo desejo infantil de estar no centro do universo. Ou pelo desejo mais prosaico de parecer profundo. Ao tratar da pseudociência, Dawkins trata também da pseudofilosofia, denunciada por Alan Sokal na obra "Imposturas Intelectuais". Uma leitura a não perder.

Desidério Murcho
desiderio@ifac.ufop.br
Texto originalmente publicado na revista Livros (Dezembro de 2000).
Termos de utilização ⋅ Não reproduza sem citar a fonte