16 de Julho de 2016   Filosofia

A pensar nos estudantes

Aires Almeida
Dicionário Escolar de Filosofia, 2.ª edição
organização de Aires Almeida
Lisboa: Plátano, 2009, 280 pp.

Esta segunda edição foi totalmente revista e muitíssimo aumentada. Por um lado, mantém as suas características de dicionário escolar, no sentido em que se mantém a preocupação com a clareza e o uso de uma linguagem acessível, além dos índices didácticos e da cobertura exaustiva dos conceitos centrais do programa de Filosofia do ensino secundário. Por outro lado, justifica-se ir mais longe, abandonando-se a ideia minimalista subjacente à edição anterior, de modo que a presente edição satisfaça um público ainda mais alargado. Por isso se duplicou o número de entradas, se aprofundaram muitas das que já existiam e quase todas foram revistas e actualizadas, corrigindo-se alguns aspectos menos felizes. Daí que a equipa de autores tenha também crescido.

A ideia deste dicionário continua a ser a de contribuir para que a terminologia e o jargão filosóficos deixem de assustar. Tal como os físicos, os biólogos, os músicos ou os economistas, os filósofos inventam e utilizam muitas vezes termos que não são usados na linguagem comum. Outras vezes também utilizam termos comuns, mas com um significado diferente do habitual. Isso explica muitas das dificuldades que os estudantes encontram no seu caminho. Mas a consulta de um bom dicionário pode contribuir decisivamente para impedir que a confusão e a desorientação se instalem. O dicionário é, pois, uma espécie de pronto-socorro do estudante: sempre à mão para desfazer confusões, esclarecer dúvidas e dar rigor àquilo que se afirma. E talvez se justifique mais o seu uso em filosofia do que em qualquer outro domínio de conhecimentos.

A razão é simples. Enquanto as ciências e as artes se defrontam com problemas essencialmente de carácter empírico e prático, a filosofia debate-se com problemas de natureza conceptual, pois trata de compreender a própria natureza da ciência, das artes e do nosso dia-a-dia. Os problemas da filosofia são problemas reais, que visam o que de mais básico há no nosso pensamento e no modo como vemos o mundo, impelindo-nos muitas vezes a rever ideias, conceitos e crenças que nos parecem evidentes. Daí a ideia comum de que, em filosofia, tudo é discutível. Esta ideia, apesar de não ser inteiramente incorrecta, de modo algum implica que a todo o momento tudo tenha de ser revisto e que os conceitos filosóficos possam ser usados de qualquer maneira. O presente dicionário é um instrumento para ajudar os estudantes a pensar filosoficamente, mas também para lhes facultar de forma breve, acessível e rigorosa informação importante sobre a enorme variedade de noções, problemas, teorias e nomes que fazem da filosofia um universo vasto e fascinante.

Até aqui tem-se falado dos estudantes de Filosofia e não dos leitores em geral. Não é por acaso, dado que não se trata simplesmente de um dicionário de filosofia, mas de um dicionário escolar de filosofia. E isso faz uma grande diferença; a diferença que nos permite dizer que este não é apenas mais um dicionário de filosofia. É um dicionário concebido e estruturado tendo especialmente em conta as características e necessidades concretas dos milhares de estudantes de Filosofia do ensino secundário, os quais raramente encontram à sua disposição o apoio de que realmente precisam e que procuram.

Concretizando melhor, o que acaba de ser dito traduz-se no seguinte:

  1. Grande parte das cerca de novecentas entradas foram seleccionadas em função dos tópicos do programa de Filosofia do secundário, assim como em função das necessidades de qualquer jovem que desperta pela primeira vez para a filosofia;
  2. A linguagem utilizada procura, sem prescindir do rigor que se exige, ser acessível a jovens que pela primeira vez contactam de forma disciplinada com a filosofia;
  3. As entradas são geralmente curtas, mas informativas, evitando-se as longas divagações críticas perante as quais os estudantes se sentem frequentemente perdidos;
  4. Tem-se em consideração o tipo de dúvidas e confusões que habitualmente os estudantes portugueses levantam relativamente a certas noções, de modo a esclarecê-las e evitá-las;
  5. As entradas mais extensas apresentam um mapa geral dos problemas, teorias e argumentos centrais das disciplinas filosóficas tradicionais;
  6. Incluem-se quatro tipos de índices: um com o programa oficial de filosofia, outro com artigos de disciplinas filosóficas não directamente abordadas no programa, outro com termos estrangeiros utilizados em filosofia, e ainda um índice remissivo de autores. Deste modo, relacionam-se as entradas com as matérias estudadas nas aulas e facilita-se a consulta do dicionário, mesmo aos estudantes que não sabem bem o que procuram;
  7. No fim encontra-se uma cronologia com os momentos e factos mais marcantes, tanto da filosofia como do contexto histórico, cultural e científico, assim como um mapa das disciplinas filosóficas e indicações bibliográficas de língua portuguesa;
  8. Sempre que uma noção ou ideia é explicada, é acompanhada de exemplos acessíveis.

As entradas do dicionário são de quatro tipos. As mais extensas são sobre as disciplinas filosóficas tradicionais (epistemologia, ética, estética, lógica, metafísica, filosofia da religião, filosofia política, etc.), sendo atribuído um maior destaque às que são estudadas no ensino secundário.

As entradas de tamanho médio são dedicadas às posições filosóficas substanciais, ou seja, àquelas posições que nem todos os filósofos defendem e que têm sido objecto de disputa (empirismo, racionalismo, idealismo, realismo, positivismo, cepticismo, utilitarismo, contratualismo, etc.).

As entradas mais curtas, que constituem a maioria, são reservadas para as noções de base da filosofia, isto é, para aquelas noções que geralmente os filósofos aceitam como neutrais e que, portanto, se distinguem das anteriores (abstracto, concreto, argumento, falácia, paradoxo, indução, percepção, teísmo, etc.).

Há ainda entradas sobre filósofos, com maior destaque para os que se consideram mais importantes, incluindo filósofos contemporâneos. Alguns destes não costumam ser referidos nos manuais escolares, mas é importante mostrar aos estudantes que a filosofia não é coisa do passado e que, ao contrário do que às vezes se pensa, está cada vez mais viva e estimulante.

Alguns estudantes poderão considerar que muitas entradas são dispensáveis. Mas também não se pretende que o dicionário se esgote e se submeta completamente ao plano de estudos dos estudantes do secundário. Já a primeira edição deste dicionário pretendia ir além disso, de modo a corresponder às necessidades dos estudantes mais interessados, assim como às dos leitores em geral e até às dos estudantes dos cursos de Filosofia e dos próprios professores. Mas isso torna-se ainda mais saliente nesta segunda edição, em que se procurou evitar as lacunas e omissões da edição anterior, precisamente com o objectivo de satisfazer mesmo o estudante mais avançado. Estamos em crer que nada do que é realmente importante em filosofia foi deixado de fora.

Um aspecto que poderá causar perplexidade a certos leitores prende-se com algumas opções de carácter linguístico. Assim, os leitores habituados a ler filosofia em língua inglesa poderão estranhar entradas como fisicismo (em vez de fisicalismo), externismo/internismo (em vez de externalismo/internalismo) ou sobreveniência (em vez de superveniência). Pensamos, contudo, que há anglicismos, como os que acabámos de referir, que são dispensáveis — até porque o seu uso entre nós ainda não está devidamente consagrado —, havendo opções mais adequadas em português. O leitor comum teria dificuldade em compreender por que razão se haveria de dizer fisicalismo, quando o termo é formado a partir do adjectivo “físico” e não do inexistente fisical. Não deixámos contudo de incluir esses anglicismos, se bem que remetendo para os termos portugueses que consideramos mais correctos e onde essas noções são esclarecidas.

Aires Almeida

Autores

Índice

Autores
Prefácio

Como usar o dicionário
Índice por unidades do programa oficial
Índice por disciplinas
Índice de termos estrangeiros

Artigos de A a Z

Apêndice: Símbolos lógicos
Apêndice: O universo da Filosofia

Leituras recomendadas
Cronologia