Deixei o Meu Coração em África
25 de Dezembro de 2005 ⋅ Livros

Guerra colonial inglória

Ricardo Ribeiro
Deixei o Meu Coração em África, de Manuel Arouca
Lisboa: Oficina do Livro, 2005, 447 pp.

Este livro oferece-nos uma viagem do tempo, leva-nos a determinadas áreas de um Portugal cuja existência cessou, apesar dos seus fragmentos provoarem ainda a memória de muitos dos nossos compatriotas.

Viviam-se os finais dos anos 60, e o mundo estava em ebulição. No Extremo Oriente lutava-se no Vietname e os estudantes mostravam a sua força nas universidades norte-americanas; aqui mais perto, em França, são também os estudantes que mostram como se vira uma página da história a partir das ruas. E aqui, neste maravilhoso país à beira-mar plantado, alimenta-se uma guerra colonial inglória, aguenta-se com finos cordéis um mundo que está prestes a acabar. Em breve, serão abertos trilhos de ressentimento no coração dos portugueses do aquém e do além mar. Os de lá bradando "traição!" e os de cá respondendo "já bastava!". A verdade é que foram tempos conturbados, marcantes, que ocuparão sempre um lugar grande na alma de quem os viveu.

E são estes tempos que Manuel Arouca parece ter conservado em gelo, para agora, quase quarenta anos volvidos, nos apresentar, neste livro, como se de um suculento manjar se tratasse. Alegrem-se os nostálgicos. O tempo volta para trás, na pena deste mágico. Será contudo um universo limitado, este que o escritor conservou para nosso deleite. É a perspectiva de uma sociedade definitivamente extinta com a queda dos últimos bastiões coloniais. A gente da "alta" que habitava para os lados da linha do Estoril, e cujos filhos seriam sucessores naturais nos Governos e administrações vindouras. A passagem do testemunho foi, até certo ponto, interrompida pela Revolução dos Cravos, mas o que nos importa aqui é um estado de vida que então se preservava e que está presente de forma vívida nas páginas deste livro.

Uma das glórias de Deixei o Meu Coração em África é a capacidade de fazer reviver não só essa sociedade dos grandes, mas também outras realidades: a guerra em África, e, de certa forma, uma alma portuguesa que se foi perdendo nas últimas décadas. Quando nos apercebemos que Manuel Arouca tem o engenho para recriar tudo isto e ainda fazer-nos conhecer até ao intímo, não uma, mas cinco ou seis personagens, então o nosso entusiasmo atinge os píncaros. De forma que não hesitamos em afirmar que estamos perante uma das coisas verdadeiramente grandiosas que se escreveram em Portugal nos últimos tempos.

O livro, esse, foi devorado em poucos dias. Ainda não se tinha chegada a uma quarta parte do seu volume e já uma angústia me assaltava: e quando acabar? Quero mais!

Porquê tanto entusiasmo? Talvez porque o efeito da memória reavivada é poderoso, porque as nostalgias de uma infância bem passada sejam colocadas ao rubro pela escrita de Manuel Arouca, mesmo que nessa altura apenas memórias vagas existam, é um mundo que antes se pressentia e que ganha agora forma nas páginas da obra.

E eis que, com o correr da escrita, nada dissemos ainda sobre a trama da história narrada. Invertamos por uma vez a estrutura das nossas análises, e encerremos o texto com a sinopse: Rodrigo, todos pensavam, estava perdido para o mundo, desaparecido na fase terminal de uma doença letal. É então que um dia, de forma completamente misteriosa, surge nas mãos dos que lhe estiveram mais próximos um manuscrito que narra a sua vivência de um tempo nuclear na vida das pessoas daquela geração: inicia-se na doce despedida dos estudos e na entrada para a chamada vida activa, que, então, significava geralmente a incorporação nas Forças Armadas e uma comissão no Ultramar. As memórias de Rodrigo prosseguem, detendo-se na sua intensa experiência na Guiné e nas pessoas que ali o rodeiam. Jaime e Rogério são os amigos mais próximos, enquanto lá longe, na Metrópole, vamos tendo notícia do seu outro mundo. Isabel e Leonor são as mulheres da sua vida. Através dela chegamos a todos os outros personagens, dignos representantes, em todos os seus vectores, do tal Portugal entretanto extinto. Há também os amigos de antes, como Ricardo e Chico, que têm o seu papel nesta história sem pontas soltas. E são precisamente estes, na companhia da omnipresente Isabel, que, em 1989, lêem com avidez todas aquelas linhas que parecem apresentadas por um querido fantasma do passado.

Pontos fracos? Insignificantes. Pontuais anacronismos, algum, pouco, desconhecimento da realidade militar, mas sobretudo muitos erros de revisão do texto. Pequenos pontos que não chegam a nódoas, e que nunca poderiam macular a grandiosidade da obra que hoje abordamos.

Ricardo Ribeiro
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