O Mundo Assombrado pelos Demónios Um Mundo Infestado de Demónios, de Carl Sagan
24 de Novembro de 2004 ⋅ Livros

Crendice humana

Desidério Murcho
O Mundo Assombrado pelos Demónios, de Carl Sagan
Tradução de Rosaura Eichenberg
São Paulo: Companhia das Letras, 2006, 512 pp.
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Um Mundo Infestado de Demónios, de Carl Sagan
Tradução de Ana Falcão Bastos e Luís Leitão Bastos
Lisboa: Gradiva, 1997, 450 pp.
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Estamos perante 25 capítulos sobre a pseudociência, o misticismo, os OVNIS — e, tangencialmente, sobre o pós-modernismo, essa doença da cultura actual. É um estudo das origens, causas e consequências das mais diversas manifestações de irracionalismo no nosso tempo. Em muitos casos, Sagan compara as crenças actuais com crenças medievais. O caso dos que afirmam terem sido raptados por alienígenas, por exemplo, é comparado com as crenças medievais nas bruxas. O leitor fica espantado com a imensa diversidade da crendice humana e confirma — se for um céptico empedernido, como eu — a ideia de que a estupidez humana não conhece limites.

Carl Sagan mostra, com inúmeros argumentos razoáveis, que a crendice humana não é uma atitude inteligente; mostra que não há indícios razoáveis da existência de OVNI, nem de telecinécia, telepatia, demónios, deuses, etc. A mensagem que procura fazer passar é a de que o futuro nos pertence; mas temos de saber lidar eficientemente com o universo se quisermos sobreviver — e isso não se consegue com atitudes irracionais, mas com a ciência e a inteligência crítica.

O relativismo e a descrença na ciência e na racionalidade são traços gerais da cultura actual; tal como no final do século XIX era normal ser-se positivista, hoje é normal ser-se relativista e irracionalista. Como todos os preconceitos culturais, o irracionalismo deve ser cuidadosamente avaliado e examinado e é isso que Sagan nos oferece de forma sistemática, mas popular e extremamente acessível, neste livro.

As razões históricas para a existência desta autêntica doença cultural serão talvez múltiplas, mas algumas parecem-me óbvias:

  • O desencanto em relação aos resultados esperados da sociologia (a grande ciência do séc. XIX, que iria lidar com os problemas sociais, económicos e políticos com a mesma desenvoltura com que a física lida com pontes e edifícios — a coisa revelou-se complicada e até a economia, a faceta mais quantificável das ciências sociais, vive num limbo de incertezas e é incapaz de prever o que quer que seja);
  • A descoberta dos perigos da poluição;
  • O aparecimento de armas de destruição maciça;
  • O aparente impasse na descoberta de uma cura para o cancro;
  • O surgimento de outra doença mortal sem cura visível (SIDA);
  • A descoberta difícil de que os europeus não eram intrinsecamente superiores aos outros povos;
  • E a consciencialização de que somos apenas animais que evoluiram a partir de primatas.

Júlio Verne (1828-1905), o grande escritor e divulgador científico francês, amava a natureza em todos os seus aspectos. Mas, devido aos preconceitos do seu tempo, pensava que a natureza era inesgotável. No livro Aventuras de Três Russos e Três Ingleses os protagonistas queimam uma floresta inteira em África para facilitar medições trigonométricas. E o narrador afirma, encantado: dentro de um mês nenhuns indícios restarão. Hoje sabemos o quanto ele estava enganado.

Não serão os irracionalistas e os relativistas vítimas do seu tempo, aceitando acriticamente e sem estudos os preconceitos actuais? Penso que sim. E penso que o exame atento das posições irracionalistas e relativistas revela — como é típico nos preconceitos — como estas crenças são frágeis e estão mal fundadas: essa é a tarefa a que Sagan se dedicou com tenacidade neste livro. Estas fragilidades vêm ao de cima quando as coisas se tornam sérias. Feyerabend, cujo mote filosófico subtil era "tanto faz", quando descobriu que tinha cancro submeteu-se, claro, a todos os tratamentos da ciência moderna. Por que não foi antes a um curandeiro tribal, já que defendia ser a ciência como a bruxaria? Porque os relativistas não acreditam seriamente e consistentemente no relativismo — aliás, não podem fazê-lo porque a lógica não o permite: se acreditam firmemente no relativismo não são relativistas porque acreditam firmemente numa coisa, o que é proibido pelo credo relativista.

Muitas vezes, o relativismo parece uma tentativa infantil de recapturar o mundo perdido em que a Europa e o homem branco (mas não a mulher...) eram o centro do universo. É muito mais prático dizer que toda a gente tem razão porque a verdade é relativa, do que admitir que em muitas matérias nós, europeus, estavamos profundamente enganados. É muito mais prático dizer que somos contra a ciência toda do que procurar soluções reais para os problemas da poluição — soluções que exigem uma enorme preparação científica. É muito mais prático dizer que todas as morais são relativas, do que discutir seriamente problemas morais complexos. É muito mais prático dizer que a verdade é relativa, do que admitir que somos nós que afinal não somos assim tão inteligentes e que temos dificuldade em dominar matérias difíceis — aquilo que hoje pensamos que é verdade, descobrimos amanhã que não o é.

Há três aspectos que vale a pena destacar neste livro. Em primeiro lugar, a preocupação constante de educar os seus concidadãos para a liberdade e o pensamento crítico; em vez de se fechar no seu gabinete de trabalho, Sagan quer dialogar com as pessoas comuns, quer fazê-las pensar, preocupa-se com o nosso futuro comum e não apenas com os pormenores técnicos da sua própria ciência — atitude rara em Portugal (com algumas excepções admiráveis, como António Manuel Baptista e Jorge Buescu).

Em segundo lugar, a tolerância e a paciência que Sagan teve para tentar compreender e avaliar de forma justa as crenças do seu tempo — atitude impensável para o académico português típico que acha que não pode "sujar as mãos" em matérias populares, não vá confundir-se com o povão. Claro que sem esta atitude, a crendice e o irracionalismo, o erro e o disparate continuarão a envenenar livremente os espíritos dos nossos jovens.

Em terceiro lugar, a dúvida: será que valeu realmente a pena o esforço de Sagan? Sou muito céptico em relação à possibilidade de instilar senso comum na generalidade das pessoas. E não acredito que os relativistas, os partidários da New Age, da magia, do ocultismo, da alquimia, da astrologia, dos OVNI, da telepatia, da psicanálise, do pós-modernismo, etc., leiam este livro; e não acredito que, se o lerem, se deixarão convencer. De maneira que ficamos nesta situação um pouco paradoxal: o livro só convence os que já concordam com Sagan; mas essas pessoas não precisavam de ser convencidas.

Apresso-me a dizer que este cepticismo quanto ao alcance do livro não é uma forma de desculpabilizar quem nada faz contra a fatuidade e estupidez humanas. É apenas a manifestação de um cepticismo quanto à possibilidade de se conseguir mudar muita coisa. Mas acho que temos todos o dever de fazer tudo o que estiver ao nosso alcance para mudar as coisas. Mesmo que não acreditemos que a mudança é possível. É esta atitude razoável? Sim. Porque apesar de não se poder mudar tudo, pode-se mudar algumas coisas. E que maior feito pode existir para um ser humano do que o de libertar uma consciência para o pensamento crítico? Carl Sagan fez isso a muita gente.

Nomeadamente a mim.

Desidério Murcho
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