[an error occurred while processing this directive] [an error occurred while processing this directive] Depois do Empirismo Lógico / After Logical Empiricism, de Richard Jeffrey
Filosofia

Probabilismo radical

Leônidas Hegenberg
Depois do Empirismo Lógico / After Logical Empiricism, de Richard Jeffrey
Lisboa: Edições Colibri, 2002, 78 páginas.

Wittgenstein, temendo não ser adequadamente compreendido, pediu, em testamento, que seu hoje famoso Tractatus fosse publicado com o original alemão ao lado das traduções. Seu pedido, depois de alguns anos, passou a ser ignorado. Inúmeras traduções, inclusive as publicadas no Brasil, "esquecem" o original alemão.

A Editora Vozes (Petrópolis, Rio de Janeiro) planeja homenagear Kant, em próximo centenário de morte (ocorrida em 1804), publicando alguns de seus trabalhos com o original alemão ao lado da tradução. Essa prática, não muito comum, podia ser mais freqüentemente adotada, especialmente quando em tela textos "complicados" — entre os quais eu incluiria, sem dúvida, os de Freud.

Pois a prática foi adotada, em Portugal, nesta edição das "Petrus Hispanus Lectures 2000", pronunciadas pelo professor R. Jeffrey (Princeton), em 5 e 7 de Dezembro de 2000, por iniciativa da Sociedade Portuguesa de Filosofia. O texto em inglês aparece nas páginas pares; a tradução, nas ímpares. (Apenas por curiosidade, registro um fato há muito constatado: o texto em inglês é sempre mais curto.)

A edição, a tradução e uma introdução para essas "Lectures 2000" estiveram a cargo de António Zilhão, da direcção da Sociedade Portuguesa de Filosofia.

Iniciando estas anotações, lembremos que Richard Jeffrey, nascido em 1926, foi um dos líderes da interpretação subjetiva da probabilidade. Também se destacou ao defender enfoque bayesiano para a teoria da decisão. Valendo-se de recursos matemáticos e lógicos não exageradamente complicados (embora freqüentemente ignorados pela maioria dos filósofos), utilizou ideias de Thomas Bayes (matemático inglês do século XVIII) e de Frank Ramsey (1903-30) a fim de desenvolver uma teoria que, em certo sentido, "concretiza" certos sonhos de Sexto Empírico, manifestados em torno do ano 200 da era cristã. Recordemos que Sexto, em curiosas defesas do ceticismo, pretendia abordar questões de decisão prática por meio de desejos, impressões e preferências pessoais, sem apelo a conhecimentos objetivos. Entre as mais afortunadas contribuições de Jeffrey para a filosofia da ciência estaria o procedimento que permite calcular a probabilidade de certa hipótese mostrar-se verídica, partindo de dados relativamente duvidosos.

Na Introdução deste livro que as Edições Colibri colocam, agora, ao alcance de estudiosos de fala portuguesa, o professor Zilhão nos conta, com habilidade e de modo esclarecedor, que Jeffrey desde cedo se interessou pela teoria das probabilidades. Tornou-se herdeiro da filosofia centro-européia dos anos 1920-40, em que despontavam Carnap e Reichenbach (e seus colegas de Viena e de Berlim). Jeffrey não se diz interessado em rejeitar as doutrinas desses mestres. Seu propósito seria ampliar, mediante aprofundamento crítico, o chamado "empirismo lógico". A doutrina que nasceu dessa análise crítica passou a ser conhecida como "Probabilismo radical".

O livro da Colibri contém dois ensaios. No primeiro deles, Jeffrey comenta o que aconteceu "Depois do Empirismo Lógico" (p. 2-33). No segundo, descreve seu "Probabilismo Radical" (p. 34-71).

Leitores sem algum conhecimento de probabilidades não estarão em condições de ler os ensaios. Fórmulas com símbolos pouco usuais aparecem em muitas páginas (principalmente do segundo ensaio), tornando bem difícil a compreensão do texto.

Os leitores com algum preparo filosófico (afeiçoados à filosofia da ciência), beneficiar-se-ão com a Introdução do professor Zilhão, percebendo em que contexto a sucessão Carnap-Quine-Davidson-Jeffrey pode ser colocada e, a partir daí, situar melhor algumas questões que gravitam em torno do binômio "estrutura conceptual / experiência da realidade". Esses leitores perceberão, ainda, como e por que razão Jeffrey considera que a ação baseada em juízo probabilístico deve ter prioridade sobre o apelo às fontes primárias da cognição. E perceberão, enfim, que a cognição, para Jeffrey, é um empreendimento "colaborativo" em que juízos probabilísticos se equilibram e calibram mutuamente.

Nas páginas finais (73-78) há uma lista de 85 trabalhos de Jeffrey, desde o artigo "Valuation and Acceptance of Scientific Hypothesis", aparecido em 1956, no v. 23 de Philosophy of Science, até a nova edição (anunciada para o próximo ano) do livro Computability and Logic — originalmente publicado em 1974, com a colaboração de George Boolos e agora amplamente revista por J. Burgess.

Ao lado de numerosos artigos, aí estão os livros mais conhecidos de Jeffrey: Formal Logic: Its Scope and Limits (ed. de 1967, de 1981 e de 1990); The Logic of Decision (ed. de 1965 e 1983 e, corrigida, de 1990); e Probability and the Art of Judgement (1992). Vale a pena lembrar que Jeffrey organizou, em 2000, uma importante antologia com os ensaios de G. Hempel, Selected Philosophical Essays — obra de especial interesse para estudiosos de filosofia da ciência.

Leônidas Hegenberg
lh@phonet.com.br

Instituto Brasileiro de Filosofia
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