De Profundis, Valsa Lenta
1 de Janeiro de 1998 ⋅ Recensões

O abismo branco

Desidério Murcho
De Profundis: Valsa Lenta, de José Cardoso Pires
Publica√ß√Ķes Dom Quixote, 1997, 69 pp.
Reedi√ß√£o Rel√≥gio d'√Āgua, 2015
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Esta pequena narrativa foi para mim uma agrad√°vel surpresa. Com uma sinceridade desconcertante, Jos√© Cardoso Pires conduz-nos pela trag√©dia que sofreu aquando da s√ļbita perda de mem√≥ria motivada por um co√°gulo de sangue que se alojou no seu c√©rebro. A narrativa √© depurada e comovente, escapando √† pieguice com uma eleg√Ęncia extraordin√°ria. O dom√≠nio da l√≠ngua torna estas p√°ginas de leitura deliciosa, do ponto de vista formal, ao mesmo tempo que do ponto de vista do conte√ļdo a leitura √© compulsiva.

O facto de a leitura ser compulsiva é algo que não compreendo muito bem. Afinal, ao ler o romance já sabemos que tudo acabou em bem. Talvez a leitura seja compulsiva porque queremos penetrar na intimidade desse homem sem memória, queremos acompanhar a reconquista de si, queremos descobrir o abismo branco da memória perdida. Agora que escrevo estas linhas percebo que talvez até nem seja de estranhar que a leitura seja compulsiva apesar de sabermos que tudo acaba bem; afinal, não é o que acontece precisamente com todas as grandes obras?

Gostava de destacar um aspecto importante, com implica√ß√Ķes filos√≥ficas. √Č comum ter a ideia de que Descartes, no contexto em que se coloca, tem raz√£o ao proferir ‚ÄúPenso, logo existo.‚ÄĚ Esta obra de Jos√© Cardoso Pires vem mostrar de forma dram√°tica qu√£o errado estava Descartes. Num contexto em que duvidamos das nossas sensa√ß√Ķes e at√© da nossa pr√≥pria raz√£o ‚ÄĒ um absurdo que Nagel recusa no seu √ļltimo livro, A √öltima Palavra ‚ÄĒ jamais podemos concluir ‚Äúeu existo.‚ÄĚ Porqu√™? Porque a palavrinha ‚Äúeu‚ÄĚ refere algo a que s√≥ podemos ter acesso por meio da nossa mem√≥ria. Mas se duvidamos dos sentidos, temos de duvidar da mem√≥ria. Logo, neste contexto, n√£o podemos ter a certeza de que o eu de agora √© o mesmo do que o eu que me lembro de ontem. No contexto c√©ptico de Descartes, a consci√™ncia √© impenetr√°vel.

Uma leitura emocionante, uma prosa límpida, uma tragédia humana: ingredientes que recomendam um livro que nos dá a conhecer um homem despretensioso e de uma sinceridade espantosa.

Desidério Murcho