De Profundis, Valsa Lenta
1 de Janeiro de 1998 ⋅ Livros

O abismo branco

Desidério Murcho
De Profundis: Valsa Lenta, de José Cardoso Pires
Publicações Dom Quixote, 1997, 69 pp.
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Esta pequena narrativa foi para mim uma agradável surpresa. Com uma sinceridade desconcertante, José Cardoso Pires conduz-nos pela tragédia que sofreu aquando da súbita perda de memória motivada por um coágulo de sangue que se alojou no seu cérebro. A narrativa é depurada e comovente, escapando à pieguice com uma elegância extraordinária. O domínio da língua torna estas páginas de leitura deliciosa, do ponto de vista formal, ao mesmo tempo que do ponto de vista do conteúdo a leitura é compulsiva.

O facto de a leitura ser compulsiva é algo que não compreendo muito bem. Afinal, ao ler o romance já sabemos que tudo acabou em bem. Talvez a leitura seja compulsiva porque queremos penetrar na intimidade desse homem sem memória, queremos acompanhar a reconquista de si, queremos descobrir o abismo branco da memória perdida. Agora que escrevo estas linhas percebo que talvez até nem seja de estranhar que a leitura seja compulsiva apesar de sabermos que tudo acaba bem; afinal, não é o que acontece precisamente com todas as grandes obras?

Gostava de destacar um aspecto importante, com implicações filosóficas. É comum ter a ideia de que Descartes, no contexto em que se coloca, tem razão ao proferir “Penso, logo existo.” Esta obra de José Cardoso Pires vem mostrar de forma dramática quão errado estava Descartes. Num contexto em que duvidamos das nossas sensações e até da nossa própria razão — um absurdo que Nagel recusa no seu último livro, A Última Palavra — jamais podemos concluir “eu existo.” Porquê? Porque a palavrinha “eu” refere algo a que só podemos ter acesso através da nossa memória. Mas se duvidamos dos sentidos, temos de duvidar da memória. Logo, neste contexto, não podemos ter a certeza de que o eu de agora é o mesmo do que o eu que me lembro de ontem. No contexto céptico de Descartes, a consciência é inescrutável.

Uma leitura emocionante, uma prosa límpida, uma tragédia humana: ingredientes que recomendam um livro que nos dá a conhecer um homem despretensioso e de uma sinceridade espantosa.

Desidério Murcho
desiderio@ifac.ufop.br
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