Descobertas Notáveis!, de Frank Ashall
Livros

Investigação pura

Pedro Galvão
Descobertas Notáveis!, de Frank Ashall
Replicação, 2001, 272 pp.

"É, na minha opinião, muito importante que as pessoas saibam que não há ninguém que consiga prever os benefícios a que a investigação pura nos leva: os estudos básicos para compreender a Natureza têm muitas vezes conduzido a aplicações que, embora imprevisíveis, se revelaram de grande importância." Frank Ashall exprime assim o seu descontentamento relativo à crescente "comercialização" da actividade científica, que se tem traduzido numa falta de investimento na investigação pura ou básica. Ashall é professor na Universidade de Washington, onde estuda as bases moleculares da doença de Alzheimer, e escreveu "Descobertas Notáveis!" em grande parte para denunciar o erro de se menosprezar a investigação pura.

Nos dezoito capítulos do livro somos conduzidos pelas mais diversas áreas das ciências da natureza. Das experiências de Faraday aos anticorpos monoclonais, Ashall foca, sempre com grande brevidade, muitas das descobertas científicas mais influentes. O combate ao paludismo, a descoberta da penicilina, a utilização dos raios-X e a teoria do "Big Bang" contam-se entre os temas abordados.

Na maior parte do livro, Ashall consegue mostrar como a curiosidade desinteressada dos cientistas acabou por conduzir a descobertas com um valor prático incalculável. E, para além de reconstituir de uma forma sempre cativante o contexto de cada uma das descobertas examinadas, procura esclarecer a um nível elementar o seu conteúdo. Neste último aspecto, no entanto, os capítulos que se ocupam das teorias da relatividade e da física quântica suscitam algumas reservas. Estas teorias desafiam de tal maneira a nossa compreensão que o espaço que Ashall lhes concede não é suficiente para que o leitor possa formar uma ideia rudimentar sobre elas. Mas quem se sentir desencorajado com os capítulos dedicados à Física não deve pôr o livro de Ashall de lado, pois todos os restantes proporcionam seguramente uma leitura muito agradável e informativa.

Pedro Galvão
p.m.galvao@gmail.com
Texto publicado no Público, 17 de Novembro de 2001
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