Livros

Política e amor

Desidério Murcho
Os Despojados, de Ursula Le Guin
Tradução de Maria Freire da Cruz
Europa-América, 1983, 2 vols.

Juntamente com The Earthsea Quartet, esta uma das melhores obras de Le Guin, apesar de pertencer a um estilo completamente diferente. As pessoas que têm pruridos contra a ficção científica podem perfeitamente ler este livro: nada tem a ver com naves nem com seres esquisitos. Os Despojados é uma obra sobre a organização política da sociedade. E sobre o amor. Temas que podemos encontrar em qualquer género literário.

Num planeta mais ou menos como a Terra, há dois grandes blocos políticos: um bloco comunista, ditatorial; e um bloco capitalista, gerido pelas forças económicas e por uma ilusão de liberdade. Esse planeta tem uma Lua; mas essa Lua, ao contrário da nossa não é estéril; também não é muito fértil. Mas é o suficiente para sustentar a vida humana. É lá que se estabelece uma colónia independente. Uma colónia anarquista: uma sociedade sem governo, sem classes sociais e sem dinheiro.

Um físico dessa Lua está prestes a revolucionar a ciência; mas está também cada vez mais preocupado com a falta de liberdade, com a rigidez e a burocracia da sua própria sociedade anarquista. Por isso, decide violar o tabu e estabelece contacto com os capitalistas e os comunistas. Um dos aspectos mais interessantes do livro é a forma como o anarquista vê aquele mundo tão parecido com o nosso, quando acaba por ir visitá-lo.

Ao longo do livro, vamos conhecendo a sociedade anarquista à medida que o protagonista vai crescendo, até chegar à idade adulta. A sociedade anarquista não nos é apresentada como um eldorado; é-nos apresentada como uma sociedade com problemas, por vezes profundos, que o protagonista vai descobrindo à medida que vai amadurecendo. Como nenhum dos outros regimes políticos apresentados nos é apresentado como um eldorado, esta obra escapa aos pecadilhos típicos das Utopias simplistas. No fim da leitura, do ponto de vista político, o leitor fica sem respostas, o que pode ser frustrante. Do meu ponto de vista, todavia, este é precisamente um dos aspectos mais interessantes da obra de Le Guin, que faz aliás jus ao seu subtítulo: "Uma Utopia Ambígua".

Mas não se pense que este é um romance de ideias, pobre do ponto de vista ficcional. Nada disso. Do ponto de vista ficcional, esta obra é inesquecível. A densidade dramática do protagonista, a descrição da sua adolescência, juventude e vida adulta, o recorte dos personagens que o rodeiam e o modo como todos estes elementos se entrelaçam numa narrativa poética mas precisa, cativante mas desprendida, faz de "Os Despojados" uma obra inesquecível. É o que me aconteceu: estou a escrever esta recensão mais de 10 anos depois de ter lido e relido o livro… Recomendo incondicionalmente a sua leitura.

Desidério Murcho
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