Diário de Guerra
14 de Junho de 2004 ⋅ Livros

Quotidiano no além-mar

Ricardo Ribeiro
Diário de Guerra, de Etelvino da Silva Batista
Lisboa: Três Sinais Editores, 2000, 151 pp.

Vinte e oito de Junho de 1961; Etelvino da Silva embarca nesse dia no paquete Vera Cruz. Destino: Angola.

A rebelião havia estalado há poucos meses, e de Lisboa eram enviadas à pressa as unidades militares que deveriam ter estado presentes no momento em que o sangue começou a correr. Para Etelvino, um filho de Colares, é o início de um longo calvário, de mais de dois anos. A história pouco mais tem para contar: ao longo das cerca de 150 páginas do álbum, vamos lendo os apontamentos que o então jovem soldado lavrou religiosamente, numa base diária.

Ali estão expressas as preocupações de um homem simples e nada mais: as saudades, essas atrozes saudades que sente de tudo o que deixou para trás, e sobretudo de Isabel, a noiva que ficou em Lisboa; o receio renovado a cada dia, com a notícia de mais e mais camaradas abatidos pelo fogo inimigo; os desentendimentos com os superiores hierárquicos; o desagrado por uma alimentação inadequada, que os soldados contornam a toda a hora com o afamado improviso lusitano; as escapadinhas com as "pretas" e os pensamentos algo libidinosos que a falta de contacto com as mulheres desperta no fogoso Etelvino; a revolta perante os maus tratos infligidos aos negros pelos seus camaradas e pela Administração da Colónia; as preocupações, cada vez mais atenuadas, com o bom cumprimento do seu dever enquanto especialista em comunicações; a obsessão pela carta, recebida e enviada aos magotes, única ponte com o único mundo que lhe é familiar.

Enfim, é todo um relato do quotidiano no além-mar, com os eventos diários esmiuçados ao pormenor. Por vezes sente-se a falta de uma continuidade. A caneta do autor inicia histórias que não chega a acabar. Por vezes perde-se o foco da narrativa, enquanto noutras ocasiões há repetições de eventos já relatados. Mas, claro, estes inconvenientes não podem ser denunciados, porque a prosa não é a de um autor. Pouco importa se não encontramos no texto um pensamento de fundo sobre a problemática africana. Não é disso que pretende tratar o livro. Trata-se apenas dos apontamentos diários de um combatente vulgar no Ultramar português.

Seja como for, as pequenas entradas diárias parecem ter cola; não se conseguem parar de ler. Talvez precisamente pelo seu carácter micro. Uma chama a outra e assim por diante, até ao final da página, da página seguinte, depois, é só mais um mês e mais um. E num instante o livro chega ao fim. O livro, porque a estadia do "nosso" Etelvino ir-se-ia ainda prolongar: as notas correspondentes aos últimos seis meses da guerra dele perderam-se para sempre. Mas a memória daqueles dois anos com a Companhia de Caçadores 164 não se perderá nunca mais, graças a este belo livro.

As páginas são profusamente ilustradas com fotografias do próprio autor; algumas, por ele tiradas, enquanto outras representam-nos nos mais diversos momentos africanos. Isabel, a omnipresente Isabel, está também nestas páginas, na sua beleza portuguesa, de cabelo e olhos escuros.

Ricardo Ribeiro
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