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Filosofia

Como impedir o pensamento

Desidério Murcho
O Meu Dicionário Filosófico, de Fernando Savater
Tradução de Carlos Aboim de Brito
Publicações Dom Quixote, 2000, 423 pp.
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Fernando Savater é amplamente conhecido entre nós e tem vários e merecidos leitores. Ao contrário do que é habitual na filosofia mais conhecida em Portugal, Savater é capaz de pensar pela sua própria cabeça e incitar-nos a fazer o mesmo — devolvendo assim a filosofia à sua própria natureza. Como ele próprio afirma, "a filosofia como filologia parece-me no comum dos casos uma cansativa criancice: a maioria dos que tentam averiguar o íntimo de um autor acabam por estripá-lo." Isto acontece porque enquanto observarmos a filosofia de longe, enquanto não contactarmos nós mesmos com os problemas, os argumentos e as ideias filosóficas, não poderemos verdadeiramente compreender os grandes filósofos do passado. E já agora: nem os do presente. A filosofia como filologia que se pratica maioritariamente em Espanha, Portugal e noutros países fortemente influenciados pelo pensamento franco-alemão, tem uma tendência estranhíssima para ser uma espécie de "clube dos filósofos mortos" ignorando a vigorosa filosofia contemporânea mais recente. Na verdade, nunca se produziu tanta e tão boa filosofia como nos últimos 50 anos. Mas já me perguntaram, numa conferência, se ainda havia filósofos. Isto é significativo.

Este dicionário não deve ser entendido como uma obra de consulta: não é um verdadeiro dicionário, mas apenas cerca de 50 ensaios, dispostos por ordem alfabética, e nos quais o autor percorre os seus temas favoritos: Alegria, Citações, Democracia, Dinheiro, Estupidez, Ética, Eu, Igualdade, Ler, Morte, Racismo, Ser, Vida, Vontade. Nem sequer é um dicionário de A a Z: termina na letra V, com Vontade. Os artigos dedicados a autores são escassos: só aparecem um punhado deles, entre os quais Russell, Espinosa, Nietzsche e Voltaire. Na verdade, este dicionário inspira-se vagamente do Dicionário Filosófico de Voltaire, no qual também Quine se inspirou para escrever o seu pequeno Quidities: An intermittently philosophical dictionary. Não se trata, pois, de um dicionário que se consulte em busca de informação; lê-se para saber as opiniões de Savater. E lê-se bem, apesar do hábito terrível que o autor tem de passar a vida a citar e a referir autores; trata-se ainda de um tique da filosofia como filologia que ele próprio critica, mas de que não conseguiu libertar-se completamente. E o pior é que estas citações são na maior parte dos casos argumentos falaciosos de autoridade e têm o efeito contrário ao que Savater pretende, pois impedem o pensamento.

Tomemos o caso do artigo "Religião". Imaginemos um leitor agnóstico ou ateu ou religioso, mas que tenha o espírito aberto e que queira pensar abertamente sobre matérias religiosas. Depara-se com um texto levemente argumentativo de um ateu que, em vez de oferecer argumentos claros ao leitor para que este os possa avaliar, parece partir do pressuposto de que é uma tolice crer em Deus, e atira meia dúzia de nomes de filósofos à cara do leitor, e mais umas quantas citações. O leitor, coitado, dificilmente se sentirá com força para lutar contra tantos ateus insignes. Isto é um dispositivo que impede o pensamento. Se Savater apresentasse claramente os seus argumentos contra a existência de Deus, o leitor teria a liberdade de discordar, de pensar por si mesmo, avançando assim na compreensão do problema. Assim, o leitor desprevenido encolhe-se, e pouco mais resta fazer do que a mera aceitação ou a mera recusa, consoante se é ateu ou crente.

Savater faz algumas incursões na filosofia analítica; mas a sua deficiente formação não lhe permite ir muito longe. E, no fundo, ao opor-se à tolice da filosofia como filologia, ao querer discutir ideias, Savater está a opor-se à filosofia tal como se faz em Portugal e Espanha e a meio caminho de descobrir o que há de fundamental na filosofia analítica: a discussão livre e rigorosa de ideias. Talvez o faça no fim da vida, como aconteceu a Ferrater Mora. Entretanto, podemos deliciar-nos com um texto que os académicos vão ignorar, por ter falta de notas de rodapé e por não ser prestigiante dizer que se leu Savater.

Desidério Murcho
desiderio@ifac.ufop.br
Publicado na revista Livros, 18 (Março de 2001).
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