Direito ao Erro, de José Alberto Quaresma
Livros

Nada se cria, nada se transforma, tudo se perde

Desidério Murcho
Direito ao Erro: A batalha da educação em Portugal, de José Alberto Quaresma
Vega, 2001, 182 págs

Entre 1997 e 1999 José Alberto Quaresma publicou um conjunto de crónicas no "Independente". São essas crónicas, com cerca de duas páginas cada, que agora se publicam neste volume. O autor é professor de História no ensino secundário, em Portimão. Estas crónicas registam a sua observação crítica da realidade diária da vida de um professor e revelam duas coisas: um prosador de talento e uma cabeça que pensa, coisas raras que urge acarinhar e estimular.

As crónicas são irónicas e despretensiosas. Denunciam o desinteresse dos estudantes pelo estudo e um sistema de ensino burocratizado, tolo, cinzento e refém das maiores tontices falsamente pedagógicas, que procuram avaliar metafísicas etéreas, esquecendo-se de avaliar coisas simples como saber escrever português correctamente ou saber resolver equações ou — como no caso da Filosofia — saber pensar; até porque o objectivo fundamental é apresentar números felizes de falso sucesso escolar. Ao contrário do que é tão habitual no discurso dos professores, Quaresma não veste a capa do sábio horrorizado com a ignorância da malta nova, do moralizador barato que se escandaliza com os cabelos roxos e os corpos perfurados de metais baratos, recorrendo a Séneca ou Kierkegaard para exibir a sua infinita superioridade. O autor revela, ao invés, carinho e respeito pelos seus estudantes, condições sem as quais é impossível ser-se um bom professor. Mas revela também bom senso, lamentando a forma vil como os estudantes se deixam monopolizar pelas modas inventadas pela indústria americana nos anos 50 para os explorar e fazer muito dinheiro (leia-se o texto "Exploração do lazer infantil").

O direito ao erro, de que fala o título, é uma das muitas ideias importantes do autor. Os estudantes têm direito ao erro. Todos temos. Perante o erro, precisamos de ser corrigidos e de corrigir, e não de sarcasmo e de olhares distanciados de horror. E quando tomamos consciência do erro inevitável, adoptamos medidas para o conter dentro de limites razoáveis, em vez de nos limitarmos a gargalhar com o erro alheio, ignorando o nosso. A correcção simpática e paciente de erros é um dos momentos fundamentais da aprendizagem. Mas não se pense que o autor disseca este tipo de pensamentos obtusos em páginas intermináveis de prosa intensamente sonolenta. Pelo contrário, limita-se a estimular-nos a pensar, expondo com bem ritmada ironia as suas observações.

Mas eu duvido. Duvido que a ironia nos permita alcançar resultados; que nos permita melhorar o que precisa de ser melhorado no ensino. E em Portugal. Um dos maiores mestres da ironia foi Eça de Queirós, e "Os Maias" é a obra em que, de forma devastadoramente perfeita, as tolices da sociedade portuguesa são sistematicamente expostas. E que acontece? Hoje estuda-se, disseca-se, papagueia-se, refere-se, cita-se e decora-se "Os Maias" no sistema de ensino que é o reflexo mais puro da tola, frívola e cinzenta sociedade portuguesa que Eça denuncia, sem nunca se perceber que esse é o objectivo central da obra: denunciar uma sociedade em que nada se cria, nada se transforma, tudo se perde — porque é uma sociedade feita por cinzentos, para cinzentos, que respira ainda a reacção histérica de uma Contra-Reforma a uma Reforma que nunca houve, a desconfiança em relação aos estrangeirados, a ideia falsamente patriótica de que o que é nacional é bom, só porque é nacional, mesmo que seja o pior do mundo.

É por isso que duvido. Estou de alma e coração com o autor, mas penso que as pessoas assim não percebem. Fica uma leitura memorável e a certeza reconfortante de que há professores que pensam nas nossas escolas. É pena que não mandem nada.

Desidério Murcho
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