Filosofia

A lógica matemática não é formal

Leônidas Hegenberg
Dizionario dei Termini e dei Concetti Filosofici, de Francesca Brezzi
Roma: Newton Compton Editori, 98 p.
Coleção Il Sapere, 81

Preliminarmente, observe-se que os italianos não podem deixar de ler, usando, como pretexto, o preço dos livros. Com efeito, várias editoras do país distribuem, há anos, obras de boa qualidade a preços muito reduzidos. (Note-se, en passant, que quase todos os livros têm o preço impresso, na última capa ou na "orelha", de modo que ficam impossibilitadas as "tramóias" de "invenção de preços, conforme a cara do freguês...".) Em especial, a Newton Compton Editori, em Roma, vem pondo, nas livrarias e nas grandes bancas de jornais, desde 1994, os livros da coleção Il Sapere — formando a "Enciclopedia Tascabile". Cada volume (19 x 12 cm, cerca de 90-100 páginas) custava "mile lire" e custa, hoje, 1.500 lire (ou seja, um real!).

A coleção, com uma centena e meia de títulos, os tem distribuídos em sete setores (identificáveis pelas cores das capas): 1) ciências humanas; 2) política, economia, direito; 3) tecnologia e medicina; 4) sociedade, ambientalismo; 5) arte, literatura, lingüística; 6) história, arqueologia e geografia; 7) comunicações e espetáculos. Via de regra, as simpáticas obras são muito bem feitas e põem, ao alcance do grande público, uma quantidade apreciável de informações extremamente úteis e oportunas.

E esta é mais uma obra da coleção Il Sapere.

 Francesca Brezzi leciona filosofia da religião na Terza Università di Roma. Em 1969, publicou, em Bologna, seu primeiro livro ("Filosofia e Interpretazione"). A obra deve ter sido bem recebida pelos estudiosos, animando-a a escrever, em seguida, 2) um ensaio a respeito de Fénélon (Perugia, 1979); 3) um estudo sobre o pensamento lúdico (Genova, 1992); 4) e ainda uma análise das fronteiras entre filosofia e religião (Roma, 1992). Para a editora Newton Compton, já havia elaborado o ensaio "Le Grandi Religione" (volume 29 da coleção Il Pensiero, divulgada em 1994).

Neste dicionário, a professora Brezzi registra o significado de 260 termos. Há, ainda, meia dúzia de termos cujos significados o leitor é convidado a buscar em outras páginas da obra. Exemplificativamente, em "Tesi", registra-se apenas "vedi Dialettica".

Cumpre notar que a autora não abre "verbetes" para nomes próprios. Nas duas páginas finais de seu dicionário, entretanto, arrola nomes de 167 autores (de Abbagnano e Adler a Wolff e Wundt, passando por Camus, Gadamer, Merleau-Ponty, Spinoza), citados nos diversos "verbetes". Ao lado de cada nome, os anos de nascimento e morte do correspondente nomeado, o que é informação de interesse. (Não há, porém, indicação de quais sejam os verbetes em que os pensadores apareçam mencionados.)

A título de curiosidade, note-se que as palavras iniciadas com a letra "A" são as mais freqüentes — ao todo, 40. Em seguida, comparecem palavras iniciadas com "S" (36), com "C" (28), com "I" (22) e com "E" (20). Menos comuns são as palavras iniciadas com "N", "O", "U" e "V" (6, cada), com "F" e "L" (5), com "B" e "G" (3), com "Q" (apenas 2) e com "W" (uma somente). Não há palavras iniciadas com as letras "H", "J", "K", "X", "Y" e "Z".

Como é próprio de dicionários (especialmente os elaborados por um único autor), algumas "entradas" são felizes, outras são inadequadas ou incompletas e terceiras, enfim, parecem incrivelmente inadmissíveis.

Apropriadas, por exemplo, as caracterizações de "agnosticismo", "anamnesi", "necessità", "noumeno". Bem feitas as apresentações de significados em "categoria" (embora o final do verbete não deixe claro o que Kant incluiu em cada qual de seus quatro agrupamentos de categorias), "giudizio", "valore". Boa a idéia de incluir o termo alemão "aufhebung" (cada vez mais usado em discussões da psicologia e da filosofia). De maneira genérica, os termos ligados à religião (campo de especialização da autora) estão bem definidos e neles pouco há para comentar.

Não muito satisfatórias, as observações registradas em, digamos, "analogia", "antinomia", "ragionamento" e "terzo escluso" (que deriva para anotações pouco claras para o leitor comum).

Muito inadequadas as anotações feitas em "a priori/a posteriori". A "definição" de indução é algo que perdeu sentido há muitos anos. Em "legge", a professora Brezzi foge do assunto. O mesmo acontece em "linguaggio". A divisão da lógica em "matemática" e "formal" (p. 59) é surpreendente, pela impropriedade. Em "natura", a autora assevera que "fisis" teria o significado de "generare", contra o que dizem autoridades de renome, que associam o vocábulo grego a "desenvolver" e, em vários casos, a "ser". Em todo caso, é boa a indicação do que Aristóteles entende por "natureza" (= totalidade do real), embora ou outros dois significados da palavra não estejam elucidados de maneira clara.

Obscuras as linhas dedicadas a "qualità" e a "quantità". Em "ragion sufficiente", nada se diz do termo; apenas se enuncia o princípio — de que nada ocorre sem que haja uma razão suficiente...

Como a autora invade, muitas vezes, os campos da psicologia, da sociologia e da lingüística, não é de todo improcedente reclamar contra a falta de alguns verbetes (por exemplo, "proposição").

A bibliografia, p. 96, é "frágil". Tem onze títulos. Nove são de obras distribuídas por editoras italianas. (Abbagnano comparece duas vezes, Ugo Spirito uma vez.) Cinco referências aparecem com a indicação "AAVV" (autores vários). Há apenas uma obra francesa (o conhecido "Vocabulaire" de Lalande) e uma norte-americana (versão italiana do dicionário de Runes).

Lembrando, como já o fizemos acima, que os livros da "Il sapere" se destinam ao grande público e custam apenas um real (!), não tem muito sentido criticá-los. Em verdade, cabe elogiar editora e autores, pelo serviço que prestam aos leitores — pondo em suas mãos informes que, no mínimo, são 75% das vezes corretos e claramente apresentados.

Leônidas Hegenberg
lh@phonet.com.br

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