Filosofia

Uma tensão do sujeito

Leônidas Hegenberg
Dizionario di Filosofia, de Fabio Di Marcantonio
Roma, L'Airone Editrice, 1997, 127 pp.
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A editora L'Airone, de Roma, publica, há alguns anos, uma "collana" de divulgação, com quase 40 volumes. São pequenos livros (pouco mais de uma centena de páginas), os "manuali & dizionari", alegadamente "chiari, concisi e complete". Atendendo, possivelmente, ao que o público mais solicita, essa coleção tem livros de capa azul (história e sociedade), marrom [esoterismo (!)] ou verde (psicologia).

Entre os livros azuis encontramos, p. ex., um dicionário da civilização egípcia, um dicionário da mitologia romana e etrusca, assim como um sumário das "grandes datas da história da Europa". A parte dedicada ao esoterismo, metade da coleção, abrange, por exemplo, vários manuais (de magia, de numerologia, de fisionomia) e alguns textos "similares" (runas, pedras, horóscopos, etc.) Os livros de capa verde, apenas seis, por ora, voltam-se para a hipnose, a interpretação dos gestos e a arte de vencer na vida.

Quanto ao dicionário de filosofia, note-se que não fornece informes a respeito de seu autor. Cabe notar que Fabio Di Marcantonio alude a numerosos filósofos. Menciona, aliás, praticamente todos os vultos relevantes — agradável surpresa, em dicionário de tão poucas páginas. Apenas alguns poucos filósofos, costumeiramente considerados como de especial relevância, são ignorados. Entre eles, Ayer, Meinong, Peano. É verdade que o autor dá atenção excessiva a alguns vultos famosos, muitas vezes alheios ao campo da filosofia. (Ocorre isso, por exemplo, com Bernardo di Chiaravalle, Christian Wolff, Jacob Burkhardt, Johann G. Herder, Karl Kautsky, Lucien Laberthonniere, Max Stirner, Sigmund Freud). Também é verdade que a maioria dos filósofos merece apenas uma linha, remetendo-se o leitor a "verbetes" adequados. (É o caso, por exemplo, de Carnap, Frege, Kuhn, Ortega y Gasset, Popper, Quine, Russell, Stuart Mill,... mencionados em locais como "neopositivismo", "linguaggio", e assim por diante.)

Vários pensadores (por exemplo, Agostino, Bacon, Kant, Leibniz, Ockhan, Platão) merecem uma coluna (meia página) ou até uma página. Certos pensadores italianos, como de esperar, são tratados com (exagerada?) atenção. Há longos "verbetes" dedicados a Genovesi, Marsilio da Padova, Vico. Surpreendentemente, no entanto, Copérnico e Croce merecem apenas uma linha.

Em alguns casos, adotando nomes para nós menos usuais, o autor "complica" — para leitores brasileiros, é claro — a localização de certos itens. É o caso, por exemplo, de Bacone (menos grave, naturalmente), Cartesio (em vez de Descartes), Eraclito (Heraclito), Talete (Tales). Onde buscar Xenófanes?

Os verbetes "longos" deste dicionário (isto é, os verbetes que ocupam mais de duas ou três colunas) são dedicados a "Aristotele" (quase três páginas), "comprensione", "convencione", "Elea", "epistemologia", "ermeneutica" (duas páginas), "esistenzialismo" (um dos mais longos, com sete colunas), "fenomenologia", "idealismo italiano", "logica" (seis colunas), "marxismo" (seis colunas), "neopositivismo", "Platone", "positivismo" (oito colunas), "pragmatismo", "romanticismo", "spiritualismo" e "strutturalismo".

Há momentos felizes e infelizes, neste dicionário. Tendo incluído verbetes como "fisica" e "linguaggio", era de esperar a presença de "matemática" ou "psicologia". O que Marcantonio diz, por exemplo, de analítico/sintético, é meio dúbio. Falta esclarecer, por exemplo, o que se entende por "inferência". Está errada a caracterização de "deduzione". São muito sumárias e pobres as caracterizações de "causa" e de "definizione". Não agrada muito a asserção de que o determinismo teria sido substituído, na física, por uma reconstrução probabilística do universo. Afirmar que "pulsione" é "uma tensão do sujeito" não ajuda muito o leitor que procura entender o significado de idéias freudianas. (Aliás, o tema escapa dos terrenos filosóficos, tal qual acontece com o verbete "meccanismi di difesa".) Discutível, por certo, o registrado em verbetes como "neopositivismo" e "necessità" (nada se fala da possibilidade). A noção de "realidade" limita-se ao campo da psicanálise — o que também é condenável, num dicionário de filosofia.

Descontando esses aspectos menos apropriados, cabe dizer que o dicionário de Marcantonio atinge seus objetivos — mostrando-se razoavelmente claro (em grande número de verbetes), conciso (na maioria dos casos) e completo (no que concerne aos filósofos arrolados).

Leônidas Hegenberg
lh@phonet.com.br

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