O Doge, de Arquiduque Alexis von Gribskoff

Registo crepuscular

Fátima Maldonado
O Doge, de Arquiduque Alexis von Gribskoff
Fenda, 1999, 72 pp.

É um livro estranho, e mais perplexo se fica ao descobrir que a primeira edição é de 1963. Mas pensando melhor faz todo o sentido, já que nessa época ainda alguns sabiam quem eram Bronzino, Carlos o Temerário ou Ticiano. E que Veneza era designada por “Sereníssima” na sua época de maior esplendor. E as audiências de então riam-se dos palhaços no circo, dos actores cómicos ou dos parvos de aldeia e talvez não se extasiassem tão alarvemente com figuras obscenas estilo Herman José no seu actual e confrangedor desempenho como Bezerro de Ouro.

São nove textos interligados por personagens que se contam e expõem ao longo de poucas páginas. O autor, o arquiduque Alexis von Gribskoff, vai desvendando que é filho de uma arquiduquesa veneziana e de um cardeal da Sereníssima. O registo é crepuscular e dedicado à memória do barão Leopold von Andrian. O clima é de estufa, onde venenos misturando-se na espessura dos perfumes contaminam a atmosfera e formam lucidíssimos pensamentos. Nenhum dos actores destas encenações malditas ignora que os cenários onde mataram, amaram ou concederam maior beleza se extinguirá rapidamente, e essa precariedade é o que torna tão intensa a disposição desse mundo fatal que não virá a resistir, como sabemos, a várias guilhotinas. “A primeira atitude, solicitada pela urgência, foi, na sequência de um hábito que mais tarde se tornaria instituição, promover o desenraizamento. (...) Era uma época duma decadência imparável mas subtil e era por isso que se falava da sua lânguida alegria. Porque, para quem conhecesse de perto a natureza de um tal tempo, veria que, para lá de tudo, tropeçar num cadáver era uma das formas ainda não ultrapassadas de cortesia palaciana.”

Uma destas elegias trata do encontro entre o cardeal — pai do arquiduque von Gribskoff, suposto autor do livro — e Carlos V, com quem o Papa o encarregara de negociar alianças. O imperador “costumava vestir-se, quando a noite ia muito alta, de veludo negro e púrpura; ornamentava o seu peito com o Cordeiro Dourado e permanecia imóvel, durante horas sem conto, contemplando o Anjo da Morte. Sabia, com a certeza dos videntes, que o céu é uma ilusão, e, nos seus momentos mais sombrios, errava pelo palácio fugindo à vigilância do Anjo”. A recriação da figura de Carlos V é muito bela, deambulando pelo palácio rodeado por catatuas e outras aves tropicais de longo bico vermelho cujos “gritos pontiagudos perfuravam os espaços vigiados pelo Anjo. Conta-se que este tentou, em vão, destruir todos estes cantores. Mas as catatuas defendem-se em círculo, fazem oferendas fúnebres e celebram as suas vitórias com um rigor estridente. O Anjo ficou um dia com a face em sangue numa dessas lutas sem glória”. A função da arte é a alquimia da ressurreição. Seja a de Carlos V num outro homem que detesta caçar, não suportando por isso o cheiro quente do animal morto e dando tiros nos seus próprios cães, seja a de Veneza enforcada pelo sol abrigando os amores de um cardeal que usa em memória da escrava turca o seu turbante e a quem a arquiduquesa acalma com morangos. Ou essa história feroz entre David e o Rei Saul. O leitor precisa de largueza para orientar-se nos labirintos, não para encontrar saídas, elas não existem. Trata-se apenas de semear enigmas em espaços intercalares dissolvendo nos ácidos vozes consonantes. Tornar-se a arte audível a todas as orelhas é devaneio que passará depressa, como passaram outras utopias. “Sabe o que é um cravo à noite?”, pergunta uma das personagens deste livro que investiga a memória para poder ligar um estado de espírito a um perfume. São estudos que requerem maturação, reflexos e bagagens no antigo cabedal da Rússia. E sempre que o humor saturniano, ao ver a arquiduquesa descalça sentada num monte de canas secas, cortava ao cardeal melancólicas penas, este murmurava: “Começa a parecer-se com um gladíolo.” Nunca deverá abusar-se de citações, mas já que estes livros especiosos não costumam suscitar grandes audiências que ao menos dessa escrita congelem aqui algumas lágrimas de gelo ou sémen indicando caminhos menos congestionados ou asfaltos menos poluídos.

Ana Teresa Pereira é escritora que parece ter-se dirigido nestas direcções, os seus primeiros livros vergavam ao peso de mundos onde o perfume das rosas obrigava ao contínuo porte de máscaras góticas. Nem por isso menos respiráveis, essas paragens conduziam a torres donde se avistavam paisagens complexas. Embora nos últimos livros tudo pareça prestes a unir-se, como pronto a cicatrizar o desvio que criara. Mas essa é outra história, aguarda-se desfecho. De O Doge falávamos, com ele terminamos, esse Obscuro que recordava à arquiduquesa Arnolfini, que vivera a infância ou com uma loba ou com uma leoa. “A loba explica o seu ar de parto recente e a boca de lábios jovens. Os seus olhos têm o efeito metálico da bauxite e em todo este rosto há uma sombra de noite azul, etrusca e límpida.” Arnolfini foi quem lhe ensinou que é preciso viver muito tempo entre os cristais.

Fátima Maldonado

Recensão publicada originalmente no jornal Expresso (26/02/2000).
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