O Engenhoso Fidalgo Dom Quixote de la Mancha
8 de Janeiro de 2005 ⋅ Livros

Os 400 anos de Dom Quixote de La Mancha

Antônio Ribeiro de Almeida
O Engenhoso Fidalgo Dom Quixote de la Mancha, de Miguel de Cervantes Saavedra
Mem-Martins: Europa-América, 2004, 842 pp.

"En un lugar de la Mancha", há quatrocentos anos, saiu a cavalgar Don Quixote. E sua cavalgada prossegue, montado no Rocinante, lança em punho, na sua louca missão de proteger damas e desfazer injustiças. Em todas as línguas vivas, e até nas mortas, como o Latim e o Idiche, as crianças, os adultos e os velhos acompanham suas "salidas". Rocinante nunca se cansou de levar o cavaleiro de triste figura pelas terras da Espanha acompanhado do gordo Sancho Pança no seu burrico. Escritores, filósofos, poetas e pintores debruçaram-se sobre a obra de Miguel de Cervantes de Saavedra e fizeram diferentes e provocantes "leituras". Desenhos e pinturas de Gustavo Doré, Denis Henri Ponchon, Salvador Dalí e o nosso Portinari ilustram as aventuras do El ingenioso hidalgo Don Quijote de la Mancha.

Dos escritores há que citar a interpretação clássica do filósofo espanhol Miguel de Unamuno com sua Vida de don Quijote y Sancho, de 1931, que é de leitura obrigatória para quem desejar penetrar nas mensagens que a obra cervantina nos oferece. Não vou me deter a resumir as aventuras do Quixote. Todo mundo conhece a sua corrida contra os moinhos de vento que para ele eram terríveis gigantes ou a sua idealização da mulher na figura de Dulcinea del Toboso que não passava de uma serviçal feia e suja. As aventuras do Quixote são relatadas em nada menos de 126 capítulos na edição Aguilar. No Brasil, infelizmente, não conheço uma edição integral do Quixote. A Petrobrás publicou um livro, de leitura interessante, que contém 21 gravuras de Portinari ilustradas com 21 poemas de Carlos Drummond de Andrade. São duas percepções que se reúnem no texto, a do pintor e do poeta, sobre diferentes momentos da obra de Cervantes. Os poemas de Drummond estão no livro As Impurezas do Branco (1973). Transcrevo o poema IV, "Convite à Glória", porque reflete muito bem o Idealismo do Quixote contra o Realismo do Sancho e, quem sabe, poderá estimular os leitores a conhecerem esse texto e a edição integral do Quixote. O poema é um diálogo entre Quixote e seu escudeiro:

— Juntos na poeira das encruzilhadas conquistaremos a glória.
— E de que me serve?
— Nossos nomes ressoarão nos sinos de bronze da História.
— E de que me serve?
— Jamais alguém, nas cinco partidas do mundo será tão grande.
— E de que me serve?
— As mais inacessíveis princesas se curvarão à nossa passagem.
— E de que me serve?
— Pelo teu valor e pelo teu fervor terás uma ilha de ouro e esmeralda.
— Isto me serve.

Antônio Ribeiro de Almeida
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