Up From Dragons
18 de Outubro de 2003 ⋅ Livros

Dragões do Éden

Desidério Murcho
Up From Dragons: The Evolution of Human Intelligence, de John R. Skoyles e Dorion Sagan
McGraw-Hill, 2003, 448 pp.
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Quando Os Dragões do Éden (1977), de Carl Sagan, foi editado entre nós (pela Gradiva), foi uma revelação para muitos leitores. A ciência podia ser completamente diferente da tortura a que estávamos habituados nas escolas e universidades, em que os formalismos para decorar obscureciam a paixão de descobrir e discutir ideias. Além disso, a ciência estava a abordar com imenso sucesso algumas das "questões últimas" habitualmente encaradas como território exclusivo das chamadas "humanidades": Quem somos? De onde viemos? Para onde vamos? Depois de ler este livro, ficava-se com a impressão forte de que nenhuma pessoa séria poderia abordar este tipo de questões últimas sem estar cientificamente informado — como, aliás, os grandes filósofos clássicos.

As ciências do cérebro, entretanto, desenvolveram-se exponencialmente, motivadas em parte pelos esforços de Carl Sagan para compreender a natureza da inteligência humana e das outras. Todavia, esses desenvolvimentos permanecem desconhecidos do grande público, em parte por estarem espalhados em artigos científicos publicados nas revistas da especialidade. Up From Dragons é uma espécie de actualização do livro original de Carl Sagan. Da autoria de Dorian Sagan (filho de Carl) e John R. Skoyles (da London School of Economics, Universidade de Londres), estamos perante um livro igualmente fascinante e igualmente importante para uma compreensão mais sólida do que é ser humano.

Apesar de alguns capítulos um pouco mais exigentes, trata-se de uma obra firmemente dirigida ao público leigo. Nela, somos convidados a explorar os meandros mais secretos da consciência humana, das nossas emoções, do modo como vemos as coisas e a nós mesmos. Sendo o resultado da evolução natural, o nosso cérebro e a nossa consciência só podem ser entendidos olhando para a evolução do próprio Homo sapiens e dos seus antecessores e primos evolutivos. Uma das muitas ideias exploradas neste livro que nos ficam a retinir na memória é esta: de todos os grandes mamíferos, nós somos os mais poderosos corredores de fundo. Muitos dos grandes mamíferos, tanto predadores como vegetarianos pacíficos, conseguem correr mais depressa do que nós; mas não por mais tempo. A chita, por exemplo, que atinge velocidades estonteantes, só consegue fazê-lo por alguns segundos. Mas os seres humanos conseguem correr a um ritmo regular durante horas. Os autores argumentam que para os nossos antepassados esta foi uma característica decisiva para a sobrevivência: permite um tipo de caça muito eficiente, permite seguir presas durante dias e permite ainda a comunicação entre tribos bastantes afastadas geograficamente. Ora, uma das características humanas cruciais é a ligação profunda que sentimos uns pelos outros. Esta ligação emocional poderá ter tido um papel crucial para o desenvolvimento da nossa consciência, porque dá ao cérebro as estruturas necessárias para manter um "registo" actualizável, ao longo do tempo, de acontecimentos e emoções que podem ter ocorrido há anos. Estas estruturas, por sua vez, são cruciais para uma consciência de si articulada e complexa, que é parte fundamental do que chamamos "a centelha humana". É a descoberta dessa "centelha" que está em causa neste livro.

Desidério Murcho
desiderio@ifac.ufop.br
Publicado originalmente no jornal Público (3 de Maio de 2003).
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