As Elegias de Duíno, de Rainer Maria Rilke
Livros

Digestão lenta

Maria João Cantinho
As Elegias de Duíno, de Rainer Maria Rilke
Tradução e introdução de Maria Teresa Dias Furtado
Assírio e Alvim, Lisboa, 1993.
Comprar

Há alguns dias, um amigo lançou-me numa teia de inquietações relativas à poesia. As questões reapareceram-me, incontornáveis e quase dolorosas. O que é a poesia e qual a sua função? O que representa ela (que "mundo" representa) e que formas operatórias utiliza para transfigurar a experiência dos seres humanos em experiência estética... e por aí adiante. Procurei respostas nos meus amigos poetas, os mortos, os sábios, os sibilinos, os místicos. Então, decidi regressar e lançar a âncora. Reli com uma atenção apaixonada as saudosas Elegias de Duíno. Nos últimos anos caiu em desuso ler poetas como Rilke. Ou como T. S. Eliot, ou Trakl e ainda muitos outros, apesar de algumas editoras portuguesas teimarem em publicá-los, salvaguardando a sanidade da poesia. Não são próprios para consumir ao ritmo da fast food, convenhamos! Têm uma digestão lenta e complicada e não nos deixam em repouso com o mundo. Não são poetas que celebrem a alegria de viver, o sucesso, os dias felizes que hão-de vir, mas sim poetas que atravessam escombros e ruínas, para aí descobrirem a miséria e a sublime grandeza da alma humana, redescobrindo um esplendor essencial. São poetas que obedecem ao seu instinto, que é o de devolver por inteiro a humanidade ao homem, reinvestindo-o da sua dimensão essencial e, por isso mesmo, trágica. São os poetas da solidão e do desamor, do desamparo, da escuridão.

Curiosamente, Rilke foi e é, ainda, um dos poetas que mais gerações de escritores e, sobretudo, poetas portugueses marcou. Desde muito cedo, Paulo Quintela percebeu-lhe a importância fundamental, tendo levado a cabo essa colossal tarefa que foi traduzir a sua obra. E os ecos de Rilke imediatamente se fizeram sentir: Sophia deMello Breyner e Andresen, António Ramos Rosa, Herberto Helder, Fiama Hasse Pais Brandão, Fernando Guimarães (como Maria Teresa Dias Furtado nos adverte) e eu acrescentaria também Rilkianas, recentemente publicado na Assírio e Alvim, de Ana Hatherly.

Rainer Maria Rilke nasceu em Praga, em 1875, e morreu na Suíça, em 1926. Arauto de uma voz universal, não pode dizer-se que tenha tido pátria. Rilke foi um nómada errante, percorrendo incansavelmente uma Europa que sofria, neste dealbar do século, uma convulsão, a vários níveis: histórica, cultural, económica e social. Conviva próximo do pensamento de Nietzsche, Kierkegaard, Freud, Rilke cedo compreendeu essa devastação terrível que estava prestes a fazer-se sentir e que era a eminência da primeira guerra mundial. Descobre a obra do genial poeta Hölderlin, em Paris (em 1910 e através de um dos editores da obra de Hölderlin), lendo-o num estado de absoluto fascínio. Esse encontro será fulgurante, pois, a partir desse momento, o tom elegíaco de Hölderlin jamais o abandonará. Pode-se dizer, então, que começa aqui a fase tardia do poeta, consagrada nas Elegias e nos Sonetos a Orfeu. E essa foi também a fase em que o poeta atingiu o estatuto mítico, que ainda hoje lhe conhecemos.

A História das Elegias confunde-se com a aura do local onde elas tiveram o seu início: o castelo de Duíno (hoje, lugar de literárias peregrinações). Perto da cidade de Trieste, sobre o Adriático, ergue-se o magnífico castelo, quase inacessível. Foi nesta propriedade da sua amiga e mecenas, a princesa Marie von Thurn und Taxis-Hohenlohe, que tudo terá começado. As Elegias conhecerão o seu termo apenas em 1922, na torre de Muzot, na Suíça.

As Elegias tiveram uma origem, ou melhor, um ponto de partida. Rilke tinha o desejo (bem ao gosto do romantismo) de escrever sobre as "Amantes infelizes", as "abandonadas", tomando por base essas mulheres, maiores que a vida, cujo destino ficou marcado por uma absoluta e incondicional entrega. Falamos de Mademoiselle de Lespinasse , Gaspara Stampa, Mariana de Alcoforado (sim, a nossa!). O destino trágico e pungente dessas mulheres obcecava-o e manifestava por elas um respeito e uma ternura infinitos. E assim o "assaltou" a primeira Elegia. E ela começa assim, num sopro terrível:

Se eu gritar, quem poderá ouvir-me, nas hierarquias
dos Anjos? E, se até algum Anjo de súbito me levasse
para junto do seu coração: eu sucumbiria perante a sua
natureza mais potente. Pois o belo apenas é
o começo do terrível, que só a custo podemos suportar,
e se tanto o admiramos é porque ele, impassível, desdenha
destruir-nos. Todo o anjo é terrível. [...]

O leitor, por esta altura, já deve ter percebido que Rilke não nos dá tréguas. A tensão constante que lateja nos seus versos, essa violência dialéctica e alegórica em que o poeta sustenta cada imagem poética, dilacerando-nos o coração, retirando-nos o fôlego, revolvendo-nos a alma até ao abismo, é a marca do seu sublime. O que sobra, perguntar-me-á, talvez... Sobra a magnitude da sua voz, abrindo-se ao esplendor da linguagem, num inesgotável mar de representações. Sobra a beleza das imagens poéticas que Rilke foi capaz de encontrar num mundo devastado pelo espectro da guerra e da morte, qual Orfeu atravessando o reino de Hades para resgatar Eurídice, para salvar a mais importante e improvável de todas as coisas humanas: o Amor.

Todas as elegias são marcadas por esta violência alegórica, pautando-se por uma musicalidade que lhe advém do tom elegíaco e hímnico. "Celebrando a morte", como o refere o próprio Rilke numa carta a Hugo von Hofmannsthal sobre a questão, mas também a vida, será nas próprias palavras de Rilke que nós podemos descortinar a "chave" das Elegias de Duíno e aceder a um plano de visibilidade da sua ideia interna. Numa carta em que responde às questões "incómodas" do seu tradutor polaco, Rilke escreve assim (citação extraída do prefácio de Maria Teresa Dias Furtado):

E sou eu que tenho de dar a verdadeira explicação das Elegias? Elas ultrapassam-me infinitamente. Considero-as um aperfeiçoamento na sequência daqueles pressupostos essenciais já presentes no Livro das Horas e que em ambas as partes dos Novos Poemas se servem experimentalmente de um imagem do mundo, vindo a concentrar-se de modo conflituoso nos Cadernos de Malte em que voltam a confrontar-se com a vida e aí quase demonstram que esta vida suspensa no abismo é impossível. Nas Elegias, e partindo dos mesmos dados, a vida volta a ser possível [...] A afirmação da vida e da morte constitui uma única e mesma coisa nas "Elegias" [...]

Nas Elegias há esses seres etéreos que são os anjos. Estes configuram-se na nossa tradição como os redentores dos homens. Salvam-nos, reúnem-nos, apanham os nossos destroços e o que resta de nós, na desolada paisagem da vida e da história humana. No entanto, esses anjos, que são os mediadores entre o além e o aquém, entre o invisível (a transcendência) e o visível (a Terra), são também terríveis, também eles transportam consigo uma escuridão que lhes é intrínseca. Os anjos de Rilke celebram a existência e a linguagem, por meio do único acto que lhes assiste: o canto. A célebre frase rilkeana Gesang ist Dasein, fundindo o canto com o Ser, permite-nos compreender o modo como o poeta compreendia a existência humana e a sua relação com a poesia. Para ele, a poesia não podia ser senão mística, no sentido em que a existência humana só poderia encontrar a sua salvação através da linguagem poética, aspirando ao plano da totalidade, ou seja, a de uma dizibilidade absoluta e redentora.

A nona elegia abre-nos uma ténue possibilidade:

Aqui é o tempo do dizível, aqui a sua pátria.
Fala e proclama. Mais do que nunca
perecem as coisas, as que se podem viver, pois
o que as substitui, tomando o seu lugar, é um fazer sem imagem.
Um fazer sob crostas, que querem rebentar, assim que
por dentro o agir cessa e se limita de outra forma.
Entre as marteladas persiste
o nosso coração, tal como entre os dentes
a língua, que, no entanto,
apesar de tudo, continua a louvar.

Há obras que nos deixam sem convicções de qualquer espécie. Donde partimos e nunca mais regressamos com o mesmo olhar. As Elegias de Duíno é uma delas.

Maria João Cantinho
mjcantinho@hotmail.com
Termos de utilização ⋅ Não reproduza sem citar a fonte