A Mente Virtual, de Roger Penrose

Reformular a velha questão

Leônidas Hegenberg
A Mente Virtual, de Roger Penrose
Tradução de Augusto José Franco de Oliveira
Gradiva, 1997, 608 pp.
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Penrose leciona matemática em Oxford. Recebeu ambicionados prêmios de academias científicas, tendo sido um dos responsáveis por tornar plausíveis certas idéias acerca dos "buracos negros". Não é, pois, um simples divulgador "aventureiro", cujas idéias poderiam provocar a admiração de leigos, sem despertar, no entanto, a atenção de especialistas.

A Mente Virtual tem dez capítulos. Começa com a indagação "Can a computer have a mind?". A seguir, passa por escorregadios terrenos matemáticos, discutindo algoritmos e máquinas de Turing, para atingir o muito questionado problema do insight — recurso pelo qual os especialistas "perceberiam" a verdade de seus teoremas. Depois, invade a física, examinando o mundo clássico de Newton, Maxwell e Einstein; a "magia" da mecânica quântica; a "direção" do tempo e a gravidade quântica. Chega, assim, ao cérebro e seus modelos, para interrogar "Where lies the physics of mind?". O livro termina com um epílogo de uma página. [Nesta edição da Vintage, há 12 páginas com as referências; e sete páginas com o índice remissivo.]

Examinando seu conteúdo, poucas pessoas atrever-se-ão a "vencer" as 600 páginas do livro, mesmo que tenham notícia de tudo quanto foi dito acima e se encham das mais nobres aspirações. Em verdade, o livro tem o que eu chamaria partes "cativantes", partes "anódinas" e partes decididamente "indigestas", convidando o leitor a deter-se aqui e ali; passar os olhos, rapidamente, por algumas seções; e simplesmente ignorar umas duas centenas de páginas. O curioso, porém, é que as partes cativantes ou indigestas para um leitor podem ser, justamente, as indigestas e anódinas para outro...

Tenhamos em conta um dado importante. Os matemáticos, de modo geral, especialmente quando trabalham com teorias de computação, acreditam não estar distante o momento em que as máquinas venham a realizar certos processos de pensamento até agora vistos como típicos e específicos dos seres humanos. Penrose, contraditando seus colegas matemáticos, sustenta que os fenômenos da mente humana diferem por completo dos fenômenos passíveis de concretização em máquinas, atuais ou futuras. Diante disso, Penrose teve sua obra fartamente lida e recebeu, na ocasião, ao lado de críticas severas, de toda ordem, muitos elogios — que variaram da simples alusão simpática ao mais desatinado discurso laudatório.

A fim de comentar o que há neste Emperor, vamos a um periódico especializado, Behavioral and Brain Science (BBS), v. 13, de 1990, p. 643-705. A revista BBS tem por hábito examinar, em cada qual de seus fascículos, três ou quatro livros de publicação recente. Adota, para tal exame, uma "sistemática" muito interessante. Permite, antes de mais nada, (1) que o autor faça, de seu trabalho, uma apresentação resumida; depois, (2) dá a palavra a alguns comentaristas, encarregados de "dissecar" a obra, por variados ângulos; enfim, (3) abre margem para que o autor faça a "defesa" de suas idéias.

No caso de A Mente Virtual, o conteúdo do livro foi apresentado em pouco mais de 12 páginas. A seguir, 46 especialistas (em 37 comentários de uma a duas páginas, em média) analisaram o texto de Penrose, o que consumiu 38 páginas da revista. O autor utilizou 12 páginas para sua "réplica". Quase três páginas foram reservadas para as referências bibliográficas — reunindo mais de 180 títulos de livros e artigos (utilizados pelos comentaristas e pelo autor). Considerando que entre os comentaristas se acham personalidades do porte de D. J. Chalmers, D. C. Dennett, J. C. Eccles, C. Glymour e R. Wilensky, para citar apenas alguns; notando que atuam em diversos cantos do mundo; e percebendo que suas dissertações "varrem" uma grande área do conhecimento humano, pode-se concluir que o tema abordado por Penrose é, de fato, importante e digno de muita atenção.

Embora alguns leitores possam receber o livro imaginando que contribua para resolver o problema corpo-espírito, o fato é que Penrose apenas reformula a velha questão. Ela aparece, agora, como tese peculiar: para elaborar uma teoria da mente será preciso contar com certos princípios físicos — até hoje desconhecidos.

A base da argumentação seria esta: os processos mentais não têm caráter algorítmico. Vários estudiosos já disseram que a mente não se equipara a um computador porque ela tem "uma história" e, mais do que isso, apresenta "intencionalidade". Penrose deseja avançar um pouco mais. Deseja algo como "uma teoria satisfatória do consciente". A palavra "satisfatória", nesse contexto, para Penrose, significaria tratar-se de coerente e adequada teoria física. Em suma, Penrose deseja mostrar que existe um elemento essencial, não-algorítmico, nos processos mentais conscientes.

Para atingir sua meta, Penrose nota que os matemáticos "percebem" a verdade de alguns resultados (teoremas) que não se acham imersos em qualquer sistema formal. Quer isso dizer que a mente (pelo menos dos matemáticos) não está "restringida" pelos sistemas formais (não está "delimitada" por qualquer dado sistema formal). A mente é capaz de "ver" ("intuir") que certas proposições são verdadeiras, mesmo sem demonstrá-las. Em vista disso, a mente consciente não opera como computador. Opera, talvez, com "incertezas quânticas", de modo que será preciso descobrir a "física do espírito" — possivelmente na plasticidade dos "quasi-cristais"...

Em suma, Penrose escreveu uma inteligente introdução a certos tópicos da física moderna, mas concluiu meio perigosamente seu discurso, invadindo a psicologia e lançando algumas conjecturas muito discutíveis. Seu mérito pode, no entanto, estar justamente aí, pois lançar conjecturas ousadas é, afinal, provocar críticas e, assim, incentivar o aparecimento de novas conjecturas e, talvez, em seguida, de teorias satisfatórias.

Penrose escreveu, pouco depois, um novo livro, Shadows of the Mind (Oxford University Press, 1994, igualmente distribuído pela Vintage, no ano seguinte, 457 páginas). Embora seja, de certo modo, uma espécie de "continuação" do Emperor, é possível lê-lo independentemente. O New York Times assim se manifestou a respeito: "Penrose revela-nos mundos que, de hábito, são difíceis de ver; entretanto, com sua ajuda, são excitantemente imaginados." Essas palavras também podem aplicar-se ao Emperor. Vale a pena conferir.

Leônidas Hegenberg
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