Ensaios de Filosofia
Junho de 2003 ⋅ Ensino da filosofia

A marosca

Álvaro Nunes
Ensaios de Filosofia, de Agostinho Franklin, Isabel Gomes e J. Vieira Lourenço
Porto Editora, 2003

Mais um manual que também é acompanhado por outros instrumentos de trabalho, neste caso, o Caderno do Aluno e acetatos. Trata-se de um livro grande e pesado (talvez excessivamente grande e pesado). Isso deve-se, pelo menos em parte, ao facto de na versão para os professores (é de supor que não acontecerá na versão para os alunos) existir um Guia do Professor na margem de cada página, em que se dão sugestões de exploração, se indicam objectivos do programa e se sugerem percursos didáctico-pedagógicos. A ideia é boa, embora, como dissemos torne talvez o manual excessivamente pesado.

Como a Porto Editora já nos habituou o manual é graficamente cuidado, embora a profusão de informação por página e a sua organização torne a utilização, pelo menos enquanto não se conhecer bem, desnecessariamente complicada. Um manual, devido ao fim e ao público a que se destina deve ser de fácil utilização, pelo que quando precisa de dedicar algumas páginas a "Como funciona este manual" (pp. 8-11) e a "Como estudar com este manual" (pp. 12-13) algo está mal.

Quanto ao resto, na unidade inicial, a secção com o título "Abordagem introdutória à Filosofia e ao filosofar" começa assim:

Perplexidade

"Na imagem que temos em cima, vemos um homem a analisar uma linha ou cordel e, a partir dela, produzir um longo texto (que já ultrapassou a secretária...). Esta imagem pode-nos ser útil para ilustrar o que significa e o que faz a Filosofia.

De facto, em Filosofia está sempre presente um homem (=sujeito humano) que se esforça por compreender e produzir uma interpretação (=leitura) da realidade que está diante de si, seja ela humana ou natural." (p. 24)

Esta é, por várias razões, uma péssima forma de começar um manual:

1) Sugere que Filosofia é produzir textos. Em Filosofia, claro, produzem-se textos. Mas em Portugal há uma tendência para dar uma importância excessiva aos textos. Os textos são apenas um dos instrumentos com que os filósofos trabalham. Na realidade, o ponto de partida da filosofia são problemas e não textos. Este equívoco ― que também é do programa ― tem depois continuidade na ideia de que filosofar é uma mera actividade interpretativa.

2) Sugere que filosofar é produzir textos excessivamente longos. Isto transmite a ideia, ou pelo menos reforça a convicção de muitas pessoas, de que a Filosofia consiste numa longa dissertação em que se complica desnecessariamente o que é trivial ou óbvio. Esta ideia é reforçada pelo facto de o texto, na imagem, ser sobre uma linha ou cordel.

3) Mostra imediatamente que o manual vai cair nos lugares comuns e banalidades que abundam em muitos outros. Que acréscimo de informação traz dizer que em Filosofia está sempre presente um homem. Quem se poderia estar à espera que estivesse? E que ganhamos com a identificação de homem com sujeito humano? Será para evitar a cólera das femininistas?

4) Por fim, põe ênfase na ideia de que a filosofia consiste numa mera actividade de interpretação. Esta ideia que faz da actividade filosófica uma produção de discursos paralelos é um equívoco de programa, que nada justifica que se repita nos manuais.

Há mais exemplos que mostram que os autores têm uma concepção incorrecta de filosofia. Assim, nas páginas 26-27 diz-se que:

"Em Filosofia, as áreas de reflexão que se dedicam à problemática da linguagem, da relação que a linguagem possa ter com a realidade, são a Filosofia da Linguagem, a Filosofia Analítica e a Hermenêutica.

A linguagem exige que a comunicação e a forma da sua concretização seja feita segundo regras que, grosso modo, serão estudadas por uma disciplina filosófica chamada Lógica mas que poderá também ser abordada por disciplinas como a Retórica ― a arte ou técnica de argumentar e convencer e que exigirá, como se percebe, um conhecimento correcto das regras de linguagem e de lógica."

No primeiro parágrafo faz-se a confusão típica nos meios filosóficos portugueses da Filosofia da Linguagem com a Filosofia Analítica. Esta confusão seria facilmente evitada se, por exemplo, se tivesse em conta que Platão e Santo Agostinho escreveram sobre a linguagem e não eram filósofos analíticos e que a Filosofia Analítica é uma forma de conceber e fazer filosofia que não se limita à filosofia da linguagem mas estende-se a todas as áreas tradicionais da filosofia.

No segundo parágrafo faz-se uma confusão entre linguagem e comunicação e, depois, disto com a Lógica e a Retórica. Dizer que a Lógica estabelece as regras da linguagem e que a Retórica exige um conhecimento correcto das regras da lógica é, no mínimo, abusivo.

Mas há mais. Por exemplo, quem ler atentamente a secção 1.2. com o título "Quais são as questões da Filosofia? Alguns exemplos", não encontrará nenhum exemplo. O texto começa por confundir a pergunta "Quais são as questões da filosofia?" com a pergunta "Para que serve a filosofia?", para nos informar em seguida de que "Perguntar para que serve a Filosofia é, no entanto, uma pergunta de tipo diferente do perguntar para que serve uma bicicleta, uma caneta ou um guarda-chuva..."

Por fim, ficamos a saber que a filosofia, apesar de não resolver os problemas do quotidiano, pode ajudar, porque pode "conduzir à construção de um mundo mais livre e mais humano, ou seja, mais justo, ao permitir o confronto e a partilha de projectos de vida bem como sentidos comuns de existência. (...) A Filosofia (...) pode pôr questões sobre as nossas acções concretas e ajudar a ter uma maior consciência sobre os caminhos percorridos e aqueles que temos à nossa frente." (pág. 45). Mas nada nos é dito sobre as questões da filosofia.

É só na secção 1.3 "A dimensão discursiva do trabalho filosófico" que nos é prometida a apresentação de alguns enunciados filosóficos (e não de problemas, embora o contexto seja sobre problemas). Digo prometida, porque apesar da promessa e da subsecção 1.3.1 ter mesmo o título "Dos enunciados comuns à formulação de problemas filosóficos. Alguns exemplos de questões da Filosofia", não é enunciado um único problema filosófico (note-se que o título da secção 1.2 já tinha prometido dar exemplos de questões filosóficas).

Partindo de uma referência a um texto de Thomas Nagel, segundo o qual a filosofia consiste em questionarmos e compreendermos ideias muito comuns que usamos todos os dias sem pensar nelas, os autores perguntam "O que devemos entender por ideias comuns?", para, logo a seguir, no que só pode ser considerado má fé, confundir esta pergunta com esta outra: "O que devemos entender por enunciados comuns?" Daqui passam ao esclarecimento do que se entende por enunciado, embora corresponda mais à verdade dizer que passam ao obscurecimento, uma vez que o que parecem entender por enunciado é aquilo que toda a gente entende por qualquer tipo de frase:

"Temos então um enunciado quando, numa dada linguagem, nos encontramos perante a expressão de um juízo, de uma ordem, de um conselho, de uma opinião ou reflexão sobre determinada matéria." (p. 55)

Em seguida, fazem a distinção entre "enunciados comuns", que são expressos na linguagem comum, como alguns textos jornalísticos, provérbios, poemas, contos e lendas, e "enunciados cuidados", de que são exemplos os textos literários, o ensaio, o texto filosófico produzido por filósofos profissionais, e que se distinguem dos primeiros por serem mais elaborados, mais profundos, mais desenvolvidos e mais rigorosos, para concluir que o que é importante é compreender que em muitos dos enunciados comuns podemos detectar problemas e formas de questionamento a que os enunciados cuidados dos filósofos procuram responder.

Na página seguinte frisa-se que as "perguntas triviais que fazemos no dia-a-dia não podem ser consideradas perguntas ou questões filosóficas, diz-se novamente que é possível encontrar um esboço de alguns problemas filosóficos nalguns enunciados comuns e promete-se uma vez mais exemplos de enunciados filosóficos, embora nenhum seja dado.

É então que compreendemos a marosca! Os enunciados filosóficos estão nos textos das páginas seguintes! O processo, engenhoso, é o seguinte: contrapõem-se textos jornalísticos, como exemplos de enunciados comuns, e textos filosóficos, como exemplos de enunciados cuidados, procurando mostrar como os enunciados comuns remetem para enunciados filosóficos. Assim, por exemplo, um enunciado jornalístico como "Então o pai meteu uma nota de 50, 00 euros dentro da carta de condução que entregou ao guarda." remete para "O que faz com que uma acção seja boa ou má?" (p. 57) e o enunciado comum "A gente parte sempre do princípio de que tem todo o tempo do mundo à nossa frente." para o enunciado cuidado (filosófico) "Se a morte não existisse, haveria muito que ver e muito tempo para o ver mas muito pouco que fazer (fazemos quase tudo para evitar morrer) e nada em que pensar." (p. 59)

Vejamos os equívocos que estão na base destas distinções. Antes de mais, há uma confusão inicial entre enunciados comuns e o que Thomas Nagel tem em mente quando fala de ideias comuns. Ao falar de ideias comuns, Nagel está a pensar nas crenças que todos de uma forma ou outra temos sobre uma diversidade de assuntos (a existência do mundo, a existência de livre-arbítrio, de bem e de mal, etc.). Para ele, a filosofia consiste na investigação crítica destas crenças, isto é, consiste em investigar se existem razões, e quais, para manter essas crenças ou se, no caso de não existirem, devem ser postas de lado. Isto não tem qualquer relação com uma distinção entre enunciados comuns e cuidados, ou com a ideia que subjaz a esta distinção de uma filosofia espontânea versus filosofia sistemática e, portanto, é um erro fazer coincidir ideias comuns e enunciados comuns.

Em segundo lugar, a distinção entre enunciados comuns e enunciados cuidados é, como mostra o exemplo da página 59, em grande medida, artificial. Ambos os enunciados estão em linguagem natural e é difícil ver porque é que um é cuidado e o outro não ou porque é que um é filosófico e o outro não. Parece que o critério aqui foi antes o facto do segundo ter sido escrito por alguém que afirma ser filósofo.

Em terceiro lugar, assumindo que "Se a morte não existisse, haveria muito que ver e muito tempo para o ver mas muito pouco que fazer (fazemos quase tudo para evitar morrer) e nada em que pensar." é um enunciado filosófico, ele não enuncia, ou então enuncia tão explicitamente quanto o primeiro (jornalístico), um problema filosófico.

O resto desta secção mostra-nos que "A Filosofia faz-se no trabalho sobre a escrita" com um fac-smile de uma página do livro Les Mots de Jean-Paul Sartre (p. 60) que o autor riscou quase na íntegra e não se diz uma única palavra sobre enunciados, argumentos ou técnicas de avaliação de argumentos.

Na secção seguinte, a última desta unidade (a 1.4) os autores mostram, com base num texto de Locke, como se lê Filosofia e dão um exemplo de interpretação de um texto.

Suponhamos agora que éramos alunos do 10.º ano que estávamos a ter o primeiro contacto com a disciplina. Depois de ter lido esta unidade do manual, que aprendemos sobre a filosofia, sobre as questões filosóficas e sobre a discursividade filosófica, matérias desta unidade? A resposta é tristemente simples. Daí que só possamos concluir parafraseando David Hume:

"Ao passarmos os olhos pelos manuais, persuadidos destes princípios, que devastação devemos fazer? Se pegarmos num volume de inspiração pós-moderna, por exemplo, perguntemos: Contém ele algum raciocínio acerca da filosofia? Não. Contém ele algum raciocínio relativo a problemas, teorias e argumentos filosóficos? Não. Lançai-o às chamas, porque só pode conter sofisma e ilusão."

D. Hume, Investigação sobre o Entendimento Humano, Edições 70, p. 156 (paráfrase)

Álvaro Nunes

Texto retirado de Filosofia e Educação
Termos de utilização ⋅ Não reproduza sem citar a fonte