Contos do Entardecer, de Antônio Ribeiro de Almeida
2 de Fevereiro de 2005 ⋅ Livros

A passagem do homem pelo mundo

Heitor Martins
Contos do Entardecer, de Antônio Ribeiro de Almeida
Rio Preto: Editora Rio-Pretense, 2002, 98 pp., 2002

Muitos anos atrás, quando eu era professor da Universidade de Brasília, um aluno, cujo nome não recordo mais, apareceu-me um dia para discutir uma possibilidade de tese. Seu tema: o significado da literatura modesta, escrita e publicada na província, que nunca atinge os grandes meios de comunicação nem é distribuída pelas grandes cadeias de livrarias, mas que é uma afirmação de civilidade num mundo cada vez mais controlado por interesses materiais. Quase sempre edições pagas pelo próprio autor ou por seus amigos, mantendo viva uma tradição literata e uma preocupação com documentar certos valores e sentimentos universais de que vamos cada vez mais nos esquecendo. Livros que não entram nos cânones da "grande" literatura, mas que, às vezes, são mais representativos dos valores da civilização brasileira que muita coisa supinamente badalada e academicamente desmembrada pelos açougueiros da desconstrução.

Lamento hoje que o aluno nunca mais tenha voltado, provavelmente tragado pelos interesses mais brutais que a vida nos impõe. Nem chegamos a discutir um projeto de como se poderia fazer uma tese sobre este assunto, de pesquisa quase impossível, quer pelas dificuldades de obtenção destas obras, quer pela imensidão do campo a ser coberto.

Lembrei-me disto pouco tempo atrás quando, procurando certo livro numa livraria de Belo Horizonte, esperei que o caixeiro consultasse o computador e me dissesse que não tinha o livro, antes de fazer a pergunta normal: "E onde posso conseguir tal obra?" A conversa que se seguiu foi exemplar:

— O autor já apareceu no programa do Jô?
— Não tenho a menor idéia.
— Porque se não apareceu, a gente não vai cadastrar este livro e não tem a menor possibilidade de encontrá-lo.

Não havia mais possibilidade de diálogo — entre o programa do Jô e o computador da cadeia de livrarias estava resolvido o problema do livro brasileiro.

Dias depois, coincidentemente, recebi uma carta de um dos melhores poetas brasileiros de sua geração, autor de vários livros, alguns notavelmente bem editados, apresentando-me seu último livro e solicitando minha colaboração na sua publicidade, "já que o volume conta com boa distribuição comercial e poderá ser encontrado normalmente nas livrarias do país". Mas, logo a seguir informando: "Melhor dizendo: normalmente naquelas poucas livrarias que ainda cultivam algum acervo poético em suas estantes. Ainda que nas estantes mais inacessíveis ou mais ao rés do chão, como é de praxe hoje em dia."

Lembrei-me de minha adolescência, quando comprávamos livros na Livraria Francisco Alves, na Rua Rio de Janeiro, no centro de Belo Horizonte, principalmente obras poéticas editadas pela Zélio Valverde e pela Cultura, que o livreiro Kneipp sempre colocava na estante ao lado da caixa, a altura de nossos olhos na frente do balcão. Nunca fui impedido de ler o título e o autor do livro na lombada porque sua posição na estante estava fora do nível de meus olhos ou porque a estante fosse "inaccessível".

Mas, como dizia Machado de Assis, nem tudo passa sobre a terra.

Um velho amigo de bancos escolares, Antônio Ribeiro de Almeida, envia-me agora seus Contos do Entardecer, exemplo melhor desta literatura cuja consideração me deu oportunidade a abrir esta crônica. Publicado em 2002 pela Casa do Livro Editora Rio-pretense, de São José do Rio Preto, SP, o pequeno volume é uma delicada jóia para os olhos e uma delícia para a mente. Despretensioso, a partir de seu título, o livro reúne alguns contos em que a vida diária das pequenas cidades do interior, no caso a mineira Serrana (Visconde do Rio Branco, terra natal do autor), se desenrola pacatamente, sob o signo de uma eternidade presente em seu referencial religioso.

Antônio Ribeiro de Almeida não se peja de sua preocupação religiosa e da importância que a devoção simples tem como cimento da vida social. Quase em surdina — uma surdina que lembra as velhas igrejas de Minas, que o autor visita em memória e essência no conto "A Carta Perdida" — relembrando o Natal, participamos da "última missa do galo"; assistimos a uma "procissão do encontro"; voltamos aos tempos escolares em "Álbum de Formatura" e "Aprendendo a Ler"; ouvimos as histórias de "Cabo Paulino", herói local; sofremos a perda que ainda hoje dura da "primeira namorada"; assistimos a solução pacífica dos problemas municipais, com o Caburé e o cabo Astrogildo; ligamos a ficção de um Tom Mix de cinema mudo às imagens que a infância guardou de um parente inesquecível; enfim, já fora deste ambiente, enfrentamos a brutalidade a que nos submete a política e a vida urbana daquela segunda metade do século XX, na história de um alto dignitário da igreja, sendo assediado por jornalistas que a situação não permite serem inteiramente honestos.

Há um tom de elegia nestas histórias, tom que vai da tristeza a consolação pela aceitação. Meditação sobre o fim das coisas, ainda vivas em espírito se já perdidas em sua materialidade. São realmente "contos do entardecer", pequenas vinhetas de uma reflexão maior sobre o sentido da vida em sua experiência minimalista e o sentido maior da experiência humana apontada sempre para a eternidade.

Os pequenos contos de Antônio Ribeiro de Almeida nos levam a uma profunda lucubração metafísica sobre o sentido real da passagem do homem pelo mundo — qualquer que seja este homem, do Caburé jardineiro relapso ou da prostituta Rita Pé Grande que participa de uma cerimônia religiosa pública ao cardeal que representa a consciência nacional numa época especialmente negativa do país — lucubração sobre aquilo que os clássicos chamavam de "novíssimos" do homem (a morte, o juízo, o inferno, o paraíso).

O "entardecer" de Antônio Ribeiro de Almeida é uma oportunidade de reencontro com os valores espirituais da civilização da qual participamos. Mais não se pode pedir daquilo que, no início desta crônica, identificamos como fator de conservação de nossa civilidade.

Heitor Martins

Universidade de Indiana, Estados Unidos
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