Era uma Vez um Número, de John Allen Paulos
7 de Maio de 2004 ⋅ Livros

Ciência é cultura

Aires Almeida
Era Uma Vez Um Número, de John Allen Paulos
Bizâncio, 2002, 205 pp.

Falar de cultura é, para muitas pessoas, o mesmo que falar do que acontece no mundo das artes e das letras. Raramente o que se passa no domínio das ciências tem lugar no que se poderia chamar o discurso cultural dominante. É assim frequente considerar-se como culta a pessoa que sabe muito de literatura, mesmo que desconheça as noções mais elementares da física, da biologia e da matemática. Inversamente, muitas pessoas que dominam perfeitamente os conceitos da física, da biologia e da matemática são rotuladas de culturalmente pobres caso desconheçam o número de cantos de Os Lusíadas, ou o nome do autor de As Elegias de Duíno. A cultura está do lado das letras e não do lado dos números, diz-se. Ora, se há coisa que John Allen Paulos pretende ao escrever Era Uma Vez Um Número, é precisamente mostrar que tais ideias estão erradas.

Paulos, um matemático conhecido também como autor de livros como Mathematics and Humour, procura desta vez mostrar que a criatividade e a imaginação não são exclusivos das letras, e que nas histórias que se contam ou se escrevem se escondem muito mais números do que aquilo que vulgarmente se imagina. Procura mostrá-lo fazendo desfilar uma verdadeira torrente de pequenas histórias, algumas delas bastante divertidas e para a compreensão das quais recorre às mais variadas noções matemáticas. Termos tão banais como normal, típico, habitual, sorte, modelo, relação, dependência, possibilidade, etc., a partir dos quais se estruturam muitas das nossas histórias e opiniões mais comuns, serão melhor compreendidos se formos capazes de reconhecer as noções da estatística, da probabilidade, da lógica e da matemática em geral que tais termos exprimem de modo informal. As inúmeras histórias que o autor apresenta servem precisamente esse objectivo. E um dos exemplos mais elucidativos da presença oculta da matemática nas histórias reside nos estereótipos de que elas frequentemente se servem.

Mas, de caminho, Paulos aproveita também para se demarcar e até para desmistificar certas interpretações de carácter matemático de algumas narrativas, como sucede em relação aos célebres códigos da Bíblia. Uma compreensão estatística do que está em causa mostra que qualquer previsão é simplesmente insustentável. Não é, pois, dessa maneira que Paulos se propõe preencher o hiato entre literatura e matemática. Até porque ele se esforça em grande parte do livro por comparar e distinguir os dois tipos de discurso: o primeiro é informal, apresenta uma visão pessoal e uma linguagem intensional (com s), enquanto que o segundo é formal, impessoal e, em grande parte, extensional. A ideia, nas próprias palavras do autor é a de que “o drama e a humanidade das histórias engrandecem os estudos científicos e estatísticos, ao passo que o rigor e a perspectiva desinteressada dos últimos impedem que as histórias degenerem em ninharias sentimentais ou publicidade espalhafatosa. A metáfora e a analogia prolongam a literariedade estreita da compreensão matemática e científica e os cálculos e os constrangimentos matemáticos fundamentam a imaginação literária”.

Contudo, o modo como Paulos procura dar corpo à sua ideia de que matemática e literatura não se encontram em campos opostos e que a cultura científica não deve ser expulsa do domínio da cultura tout court, não deixa de ser ligeiramente decepcionante. Isto porque só com muita dificuldade se encontram argumentos. A estratégia do autor limita-se quase sempre à simples associação de ideias e ao poder sugestivo das inúmeras histórias que introduz. O seu estilo solto e algo prolixo nem sempre permite saber com clareza o que aí se procura defender. E quando se percebe o que está a ser defendido, a sensação mais frequente é a de que está a afirmar trivialidades. De resto, sempre que introduz ideias mais interessantes, o autor trata-as de maneira apressada, como acontece de algumas das ideias de figuras sonantes da lógica filosófica e da filosofia da linguagem (Wittgenstein, Quine, Ryle, Grice, Kripke), o que por sua vez faz com que só os leitores já familiarizados com tais ideias possam compreender o que está em causa.

Uma palavra final para a tradução que, apesar da revisão científica, deixa passar erros deveras surpreendentes. Eis alguns exemplos: a noção estatística de tendência central a que se dá o nome de moda é traduzida pelo termo modo (p. 23); os termos identidade e entidade são utilizados indiscriminadamente nas mesmas circunstâncias e com o mesmo significado (p. 138 e p. 157); na p. 172 escreve-se “o papel insensato de Sokal” em vez de “o ensaio insensato de Sokal”.

Aires Almeida
aires.almeida@netcabo.pt
Originalmente publicado na revista Os Meus Livros.
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