Espionagem na Guerra
23 de Abril 2006 ⋅ Livros

Guerra e civilização

Fernando M. Caria
Espionagem na Guerra: Conhecer o inimigo de Napoleão à Al-Qaeda, de John Keegan
Tradução de Mariana Pinto dos Santos
Lisboa: Tinta da China, 2006, 475 pp.

Este livro é imprescindível para todos os que se interessam por estratégia em geral, ou estratégia militar em particular. Organizado segundo uma estrutura de estudo de casos, leva-nos a percorrer alguns dos episódios mais significativos dos confrontos militares de diversas épocas, na perspectiva do papel da informação no desenrolar desses conflitos e respectivo impacto nos seus desfechos. Mas o tema central acaba por se revelar ao longo das páginas: o que é a informação e qual é o seu valor, em função do tempo em que é obtida, transmitida e utilizada, desde vários meses entre cada uma destas etapas no séc. XVIII, até à informação em tempo real dos nossos dias.

A história da civilização está indelevelmente ligada às guerras. O seu estudo e compreensão não são exercícios de mentes mais belicosas ou retorcidas, antes consubstanciam a capacidade de não cometer os mesmos erros do passado. Da perseguição de Lord Nelson à frota de Napoleão que invadiu o Egipto à espionagem humana sobre os segredos das armas da "vingança de Hitler" (as famosas bombas voadoras V1 e V2), passando pela guerra das Malvinas (quase perdida pelos britânicos devido à total ausência de informação sobre as forças militares argentinas), John Keegan leva-nos numa viagem fascinante e vívida pelas histórias das informações estratégicas e militares, demonstrando o seu uso e os seus resultados. Não se limitando às questões militares, dá-nos enquadramentos históricos, políticos e económicos, que definem um quadro vivo e dinâmico, onde a informação não desempenha um papel único e principal, mas antes se joga como mais um elemento-chave dos muitos que permitem, em conjunto, vencer ou perder os conflitos.

No epílogo ("Espionagem Militar desde 1945"), somos levados a rever os pontos-chave dos casos estudados nos capítulos anteriores, agora ampliados pelo papel da informação, nos conflitos mais recentes e modernos como as duas guerras do Iraque e a invasão do Afeganistão.

Só na conclusão ("O Valor da Informação Militar") é feita a ligação entre a importância das informações estratégicas e da espionagem militar com o terrorismo actual de base religiosa e civilizacional. Nesta ligação, o autor acaba por afirmar positivamente o que ao longo dos vários casos abordados ia sendo descoberto a pouco e pouco. Apesar de todos os meios modernos hoje à disposição destas actividades (a intercepção electrónica de mensagens, a vigilância e fotografia por satélite entre outros), a informação, se bem que importante de "per si", não é suficiente para a vitória nos conflitos. Sejam eles amplos e declarados, como no caso das guerras, sejam camuflados e não visíveis, como no caso do terrorismo. O que importa é o uso que é dado a essas informações pela estrutura que lidera e suporta o conflito e em última análise, é essa mesma estrutura, a sua força e determinação, que decidem o resultado dos conflitos.

Em jeito de bónus estudantil, o autor presenteia-nos ainda com uma selecção de bibliografia sobre os temas abordados no livro, fundamental para quem crê que a realidade, nas suas formas mais cruas e nuas, suplanta em muito a imaginação e a ficção.

Fernando M. Caria
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