Estações Diferentes, de Stephen King
3 de Agosto de 2004 ⋅ Livros

O melhor de King

Desidério Murcho
Estações Diferentes, de Stephen King
Tradução de João Brito
Lisboa: Temas e Debates, 2001, 544 pp., 11,50 €

O Círculo de Leitores e a Temas & Debates têm vindo a publicar vários títulos de Stephen King, conhecido autor de livros de grande circulação, muitos dos quais adaptados ao cinema. Nos meios "intelectuais", Stephen King é liminarmente afastado como um exemplo da literatura tipo pastilha elástica que os americanos inventaram no século que agora termina. Além disso, trata-se de um autor que cultiva um género menor: o terror. Duas razões de peso para uma pessoa bem-pensante não ler Stephen King. Mas, como acontece muitas vezes com juízos apressados e com ideias feitas, Stephen King merece bem ser lido.

Avancei para a leitura desta obra com todas as desconfianças — e acho que só me decidi realmente a lê-la porque um dos seus quatro contos foi levado ao cinema, dando origem a um dos melhores filmes que já me foi dado ver: Stand By Me ("Conta Comigo"), de Rob Reiner. Para minha surpresa, King é muito melhor do que se poderia pensar — apesar de estes quatro contos serem atípicos na obra do escritor, uma vez que não se tratam de contos de terror. King domina o tempo e o espaço com mestria, mas é sobretudo na densidade dramática das personagens e no puro prazer de contar histórias que o seu talento é mais notório. Um dos aspectos surpreendentes de King é a sua criatividade; praticamente cada personagem secundária, cada pequeno acontecimento, é descrito com vivacidade e com tantos pormenores que é espantoso como nem ele nem nós perdemos o fio à meada. King é um grande contador de histórias, e este livro oferece ao leitor o prazer primitivo de ler uma história sem rendilhados literários desnecessários, histórias cujo valor reside em si mesmas e não no modo mais ou menos artificioso ou "literário" como são contadas. Ler King é ler uma história. Uma boa história.

O volume apresenta um conto por cada estação do ano. O Outono intitula-se "O Corpo" e tem como mote "A Perda da Inocência". Foi este conto que deu origem ao admirável filme de Rob Reiner de 1986. Neste conto descreve-se de forma extraordinária 2 dias da vida de 4 pré-adolescentes que, no Maine, América, no fim das férias de Verão, descobrem o corpo de um rapaz da idade deles que foi colhido por um comboio. Mas isto é apenas o que está à superfície. O que está realmente em causa é o que é ter 12 anos e ter amigos, é a cumplicidade, a distância e a proximidade — e, ao mesmo tempo, a coragem, a vontade de vencer e o medo de fracassar. As preocupações sociais de King estão sempre presentes como pano de fundo — o que é vir das famílias erradas e tentar singrar decentemente, o que é ter talento literário e interesse pela cultura num meio que só preza o futebol e o dinheiro e o que é ter amigos com quem partilhamos a descoberta da vida e a camaradagem sem enganos.

O conto dedicado ao Inverno é talvez o mais "literário" mas também o que mais se aproxima do género do terror. Tem como mote um clube de contadores de histórias e chama-se "A Técnica de Respiração". O título refere-se à técnica de respiração para parturientes, para as ajudar a dar à luz. Todavia, antes de chegarmos à história principal, vamos descobrindo a pouco e pouco o mistério de um estranho clube de contadores de histórias. O ambiente é tranquilo mas ligeiramente inquietante. A história principal apresenta-nos então o caso de uma mãe solteira corajosa, que luta até ao fim contra os preconceitos de uma América dos anos 50, quando ser mãe solteira era ainda um enorme estigma social.

O conto dedicado à Primavera tem como mote "A Esperança é Eterna" e foi adaptado ao cinema em 1994, com o título "Os Condenados de Shawshank" e a inesquecível interpretação de Morgan Freeman. Trata-se da história de um homem, Andy Dufresne, injustamente condenado a prisão perpétua pelo assassínio da mulher e do seu amante, apesar de Andy não ter realmente feito tal coisa. Todo o conto se desenrola no interior da prisão, mas centra-se na personalidade extraordinária de Andy — personalidade que a pouco e pouco nos vai sendo revelada, até a sua verdadeira dimensão se tornar evidente já perto do fim da narrativa. Num certo sentido trata-se de uma variação do tema clássico já tratado por Alexandre Dumas no seu "O Conde de Monte Cristo", mas agora concebido como um hino contemporâneo à esperança e à vontade de vencer. O que mais impressiona neste conto é a relação entre Red, que conta a história, e Andy, o homem injustamente condenado que nunca perdeu a esperança. É uma relação de admiração, de respeito e de solidariedade tão humana que é difícil não ver nela a esperança para o género humano.

Finalmente, o conto dedicado ao Verão tem como mote "A Morte Espreita" e intitula-se "O Aluno Dotado". Este conto foi também adaptado ao cinema em 1998, dando origem a "Sob Chantagem", um filme para esquecer. Este é o conto mais sinistro de todos, apesar de não ser uma história de terror. Trata-se da história de um adolescente, Todd Bowden, que descobre que um idoso que habita perto de si e que dá pelo nome de Denker é um nazi fugido. Em vez de o denunciar, Todd resolve fazer chantagem com o velho nazi, pois tem uma curiosidade mórbida em conhecer as suas histórias do horror dos campos de concentração — e Denker esteve durante anos à frente de um desses campos de extermínio. A pouco e pouco a personalidade psicopata de Todd vai-se revelando, e King consegue descrever com mestria a mentalidade e as emoções de um psicopata, assim como a personalidade mais fria e experiente de um velho nazi fugido. A história acaba por se transformar numa macabra comédia de enganos, na qual Denker e Todd se digladiam. O que mais me impressionou neste conto foi a capacidade de King para nos fazer entrar a pouco e pouco na mente de um psicopata.

A tradução portuguesa de João de Brito é boa. E não foi tarefa fácil, pois King escreve de modo muito coloquial — sobretudo no conto "O Corpo", onde dá conta do modo de falar dos pré-adolescentes americanos em 1960. Esta é, pois, uma obra de leitura acessível mas enriquecedora — provavelmente um bom incentivo à leitura para os nossos jovens.

Desidério Murcho
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