A Estética do Século XIX, de Federico Vercellone

A hipnose do intelecto

Célia Teixeira
A Estética do Século XIX, de Federico Vercellone
Editorial Estampa, 2000, 167 pp.

Para quê ler um livro de história da filosofia? A resposta parece simples: supostamente, lemos esse género de livros para ficarmos a saber quais os problemas que preocupavam ou preocupam os filósofos, quais as teorias que eles avançaram para os resolver e que argumentos forneceram a seu favor. A fórmula é simples, e todas as disciplinas do conhecimento são constituídas por problemas, pelas teorias que os pretendem resolver e pelos argumentos ou provas que suportam essas teorias. Não há nenhuma razão para que na filosofia a fórmula seja diferente. E é essa informação que procuramos quando lemos uma história da filosofia: conhecer os problemas as teorias e os argumentos da filosofia. Aparentemente, isto é algo indiscutível, mas só aparentemente.

Pelo título, A Estética do Século XIX de Frederico Vercellone poderá parecer um desses livros de história da filosofia. Mas não é! É um livro de história, sem dúvida, e também fala de filosofia. É constituído por quatro capítulos, todos eles basicamente dedicados à estética continental: fala-se de Hegel e de Schelling — aos quais lhes é reservado um capítulo inteiro —, de Schopenhauer, Kierkegaard, Nietzsche e muitos outros. Fala-se também das suas teorias. Mas a que problemas pretendem estas teorias dar respostas? A coisa é apresentada de tal modo que parece que os problemas advêm das próprias teorias dos filósofos, como se as teorias fossem construídas para mero divertimento intelectual, sem terem qualquer relação com a realidade — neste caso, sem terem qualquer relação com o mundo da arte —, sem pretenderem constituir-se como resposta a coisa alguma. Mas isto é uma perversão da dialéctica intelectual. Eis um exemplo: “Se, com Fichte, se observava o insinuar-se da negatividade no âmbito da estética, com Schelling volta a colocar-se o antigo valor especulativo da beleza, bem como, pelo menos por alguns momentos, uma absolutização da arte totalmente inédita, não apenas para o período em causa mas talvez para toda a história ocidental.” Do que é que se está a falar? Qual a informação que o autor pretende veicular? Para além da prosa aguerrida que dificulta a leitura e não elucida o conteúdo, o que é que isto quer dizer? Aparentemente Schelling e Fichte estão em desacordo. Mas essa discórdia parece ser meramente teórica, como se de facto não houvesse nada que pudesse contar como evidência contra ou a favor das suas posições, como se não tivessem argumentos (bons ou maus), ou, pior ainda, como se o mundo da arte e a história da arte não tivessem um papel central, já que é disso que se trata. (Quando fazemos filosofia da arte, temos de recorrer ao mundo da arte, temos que conhecer as práticas artísticas, temos que estar a par do que dizem os críticos de arte, etc. Se queremos saber o que distingue as boas obras de arte das más, por exemplo, temos que apresentar teorias que se apoiem no que se passa no mundo da arte, caso contrário o nosso trabalho não tem sentido.) E porque é que a posição de Schelling é assim tão fundamental para a história ocidental? O autor não nos apresenta nenhuma razão a favor disto, por isso deve ser algo de trivial, aceite como evidente por todos. Mas não é. Logo, não basta sugerir para que acenemos com as nossas cabeças.

É verdade que muitos dos filósofos mencionados não primam pela clareza nas suas obras, mas eles têm teorias interessantes que vale a pena compreender e discutir. E por compreender quero dizer saber quais os seus problemas, teorias e argumentos. Mas se ao lermos este livro nem conseguimos compreender as suas teorias, como poderemos discuti-las? Palavras como “logo”, “e”, “ou”, “portanto”, “se”, etc., estão lá, sugerindo que existem argumentos, que existe uma dialéctica, mas poderíamos trocar todas as partículas lógicas sem que isso sacrificasse o conteúdo do texto. Mas esta obra pode proporcionar uma experiência interessante: ao lê-la ficaremos certamente a conhecer o significado da expressão “hipnose do intelecto”.

Célia Teixeira
Texto publicado na revista Livros.
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