Beyond the Sea of Ice, de William Sarabande

Falta de tempo

Desidério Murcho
Beyond the Sea of Ice, de William Sarabande
Bantam Books, 1987, 373 págs.
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Não se sabe exactamente quando os seres humanos atravessaram o que é agora o Estreito de Bering, saindo da Ásia em direcção à América, para povoarem este continente. Terá acontecido pelo menos há mais de 30 mil anos, em plena Era Glaciar. O agora Estreito de Bering estava completamente coberto de imensos lençóis de gelo, estendendo-se a tundra siberiana até ao actual Alasca. Os seres humanos que povoavam a tundra eram caçadores-recolectores, vivendo em pequenas tribos nómadas, sempre em busca de caça. Algo os fez atravessar a tundra em direcção a leste e entrar na América, acabando com o passar dos milénios por povoar de norte a sul.

Este romance narra a aventura de Torka, um caçador-recolector da Era Glaciar que se vê forçado a caminhar para leste, em direcção à América, juntamente com a sua pequena tribo. Na tradição do enorme sucesso de vendas que foram os romances de Jean Auel (publicados em Portugal), William Sarabande apresenta-nos o modo de vida dos antepassados dos índios americanos, as suas deambulações pela tundra e as suas relações pessoais. Tal como os romances de Jean Auel, estamos em pleno território da literatura de cordel. Mas uma literatura de cordel que se lê com gosto, sobretudo, sem dúvida, por parte dos mais novos — com a vantagem de aprenderem algo sobre a pré-história.

Literariamente, Auel inaugurou um novo tipo de romance histórico (o romance… pré-histórico), que desde então se tornou uma indústria poderosa nos EUA, graças ao acolhimento que teve por parte dos leitores. Infelizmente, que eu saiba, ainda ninguém alcançou a qualidade literária de Harry Harrison e da sua trilogia A Oeste do Éden.

Este romance de Sarabande é o primeiro de uma longa série, intitulada "The First Americans". A narrativa é fluente e muito pormenorizada, o que dá ao leitor a impressão de acompanhar de muito perto as aventuras dos personagens. O recorte psicológico dos personagens é convincente literariamente (estão dramaticamente muito bem definidos, não são meros “personagens de cartão”), mas historicamente deixa muito a desejar. Claro que ninguém pode saber como eram estes povos psicologicamente, mas os dados da antropologia moderna relativamente a povos nómadas primitivos actuais mostra-nos um recorte diferente. Sarabande como que coloca pessoas do século XX, com as suas atitudes típicas e relações sociais, na pré-história. Não é tão grave como Auel (situa-se um pouco entre a pobreza de Auel e a mestria de Harrison) mas podia ser muito melhor. Todavia, o aspecto mais frágil desta narrativa é o domínio do tempo, que é extremamente deficiente — é quase como se tudo acontecesse numa única unidade de tempo: o autor é incapaz de nos dar a sensação da passagem do tempo. E percorrer a pé centenas de quilómetros é uma coisa que exige muito tempo.

Apesar das suas limitações óbvias, aconselho a sua leitura aos fãs do romance pré-histórico, sobretudo os mais novos, pois as aventuras e peripécias de Torka e da sua tribo agarram o leitor da primeira à última página.

Desidério Murcho
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