Fábulas e Contos, org. por Italo Calvino
Livros

Multiplicidade de vozes

Maria João Cantinho
Fábulas e Contos, Vol. 2, org. por Italo Calvino
Editorial Teorema, 2000, 348 pp.

Uma das mais interessantes novidades editoriais do ano passado foi, sem dúvida, esta edição, onde se encontram reunidas uma série vastíssima de contos e fábulas, recolhidas pelo autor, ao longo de dois anos de incansável labor, como ele próprio o refere na preciosa introdução da obra. Acabou de sair o segundo volume desta colecção, que será composta por três volumes, numa edição luxuosa, o que sem dúvida fragiliza a obra, pois de início, o objectivo da obra era a sua popularidade, tanto pelas fontes em que se baseava, como pelo público-alvo a que se destinava.

Foi em 1954 que Italo Calvino se lançou nesta longa aventura que era compilar, rescrevendo contos populares recolhidos nas várias regiões da Itália, a partir dos vários dialectos que a constituem. A ideia de uma recolha (que já tinha sido tentada anteriormente, à maneira da recolha tal como fora efectuada pelos irmãos Grimm), lacuna que se fazia sentir no campo da literatura popular e fabulista, levou-o ao mundo dos contos de fadas, onde, como ele próprio o refere, foi "agarrado pela natureza tentacular e aracnídea do objecto de estudo", sucumbindo ao encanto da riqueza e da limpidez do mundo fabulista e, por outro lado, igualmente seduzido pela infinita variedade, diversidade e repetição desses contos, nas suas diversas versões.

A recolha exigiu um intensíssimo trabalho de escolha e de selecção entre uma multiplicidade de versões que se encontravam compiladas de acordo com critérios linguísticos e estilísticos bem diversos, pelo que o trabalho do autor implicou uma série de opções, pautando-se essas escolhas por uma depuração estilística e da língua, bem como por uma procura de harmonia interna dos contos e coerência da construção literária. Longe vá a ideia de considerar-se esta recolha como uma simples e linear tradução dos contos a partir das versões originais.

A questão da autoria e o modo como a editora Teorema apresenta esta obra talvez não seja a mais correcta, pondo-a ao nível das restantes obras de Calvino. São certamente razões de mercado que se impõem nessa escolha. É bom lembrar aos leitores que, ainda que o nome do autor sobressaia visualmente na capa, Calvino apaga a sua voz nesta obra, para dar lugar e expressão a um anonimato que advém da multiplicidade de vozes recolhidas, da tradição oral e compilações de vários autores. Desde sempre, o compilador sabe que o seu trabalho se faz a partir de um objectivo: permitir a sobrevivência de uma tradição, ainda que o seu cunho se faça sentir, na medida em que é ele que rescreve essa tradição e lhe dá voz. Por isso, a natureza da obra faz desvanecer, em grande parte, o autor propriamente dito, permitindo-nos a liberdade de afirmar a existência de uma multiplicidade de autores, tantos quantos os que recolheram, compilaram e contaram essas estórias fantásticas.

Desde logo, mergulhamos num mundo fantástico, onde tudo se torna real, em que as fronteiras espácio-temporais se esbatem, para fazer emergir um mundo maravilhoso, onde coexistem bem e mal, beleza e desencanto, amor e ódio, morte e nascimento. Como Calvino, afundamo-nos e submergimos imediatamente num plano delirante, em que não é possível distinguir onde começa e acaba o real. Como o afirma Calvino, "durante dois anos vivi no meio de bosques e palácios encantados [...] e durante estes dois anos pouco a pouco o mundo à minha volta foi-se adaptando a esse clima, a essa lógica, e cada acontecimento prestava-se a ser interpretado e resolvido em termos de metamorfose e de encantamento". É no interior desta lógica, de um mundo fabuloso e mítico, que se move o nosso olhar de leitor, entre o fascinado e o encantado. Como escapar ao encantamento da estória "O Amor das Três Romãs", em que a beleza feminina idealizada é descrita "branca como o leite e ruiva como o sangue"? Ou ainda a estória "Cabeça de Búfala"? Neste mundo, em que coexistem ogres, bruxas, fadas, príncipes, princesas e tantas personagens mitológicas, é fácil perceber a conclusão do maravilhamento do seu autor, quando termina a obra, em 1956: "Agora que o livro está acabado, posso dizer que esta não foi uma alucinação, uma espécie de doença profissional. Foi antes uma confirmação de algo que eu já sabia à partida, essa coisa a que aludi antes, a única minha convicção que me impelia à viagem aos contos de fadas; é que acredito nisto: os contos de fadas são verdadeiros."

É de um regresso a um mundo verdadeiro, o da infância, em que a estória cumpre uma função ritual e iniciática, que Calvino nos fala, uma viagem a um passado, onde as coisas conheciam um valor de realidade e os medos, as fantasias, os desejos encarnavam em figuras e tipos. Um mundo belo e fantástico, fascinante e, por vezes bárbaro, metamorfoseado pela intervenção do maravilhoso, irrompendo e transfigurando a realidade e dando-lhe um sentido, integrando-a numa dimensão mágica. Por isso, plenamente verdadeira. E, tal como as crianças, damos por nós sempre a pedir mais e mais estórias. Aguardemos pacientemente que saia o terceiro volume desta obra.

Maria João Cantinho
mjcantinho@hotmail.com
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