The Feathered Onion
5 de Outubro de 2004 ⋅ Livros

Somos todos extraterrestres

António Fonseca
The Feathered Onion: Creation of Life in the Universe, de Clive Trotman
John Wiley and Sons, 2004, 272 pp., £14.99
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"À primeira vista seria maravilhosamente revelador se pudessemos reconstruir a origem e evolução da vida na exacta ordem em que todos os eventos relevantes aconteceram. Simplesmente há que começar do início e verificar para onde tal caminho nos levará. A única e exclusiva razão pela qual a vida existe é que há reacções químicas proporcionadas pela energia existente no Universo. Mas a soma total dessa energia interconvertível e da massa que existem no interior do Universo não está uniformemente distribuída... como o não está, existem concentrações díspares de massa e energia espalhadas em todo o lado, e se alguma disciplina académica poderá de uma vez reclamar direitos proprietários sobre a origem da vida, essa disciplina não é a biologia, nem a química, nem a física, mas a estatística!"

Sobre este pressuposto básico que introduz o capítulo "Unintelligent Design" do livro The Feathered Onion, o biólogo Clive Trotman conta-nos a sua aposta e as razões por que suspeita que a vida como a conhecemos não teve origem no nosso planeta, que é mais antiga do que ele, e que se originou num feliz acaso e num inimaginável lugar da vastidão do Universo. Esta tese aparentemente ficcional, com resonâncias na literatura e no cinema mais fantasioso é ao contrário do que se poderia esperar solidamente suportada pelos conhecimentos recentes da estrutura e funcionamento da célula, e meticulosamente explanada, argumentada e contra-argumentada ao longo do livro, coisa não muito vulgar em divulgação científica.

O autor é um especialista de renome em formas de vida que sobrevivem em condições ambientais extremas, como as fontes sulfurosas na profundidade dos oceanos e cujo metabolismo não é baseado no oxigénio como a maioria dos seres vivos. O texto examina pormenorizadamente, mas numa linguagem acessível a quem tenha conhecimentos rudimentares de química e de biologia, como a vida funciona ao nível mais basilar e podemos assistir simultanemente à perplexidade do próprio cientista perante a extrema sofisticação e complexidade que as estruturas e o funcionamento dos micro-organismos e das células apresentam. Verificamos também que a diversidade e variedade da fauna e flora com que macroscopicamente convivemos todos os dias não é afinal mais sofisticada ou diversa ou mais complexa do que a das células dos organismos que as constituem, muito pelo contrário. E apesar disso ficamos a saber que a vida é suportada num punhado de leis simples; sensatas e quase óbvias, não sendo por isso menor o mistério do seu aparecimento. Verificamos que o maior problema não se encontra no conhecimento do fenómeno, mas na sua origem e na sua história.

A estas questões Clive Trotman adianta muitas conjecturas que envolvem não só as descobertas da genética, mas os meandros complexos da bioquímica, da física, da química e essencialmente, como defende no parágrafo citado, da poderosa ferramenta estatística. Há pouquíssimas probabilidades segundo ele, de ter havido tempo suficiente na Terra para a evolução ter criado os seres vivos com a extrema complexidade com que se apresentam a um nível celular e menor ainda ao nível multicelular. Quando contabilizadas, estas probabilidades dão resultados que levam a crer que a vida pode ter surgido eventualmente no nosso sistema planetário mas com um grau elevado de certeza fora da Terra. Por exemplo, sabemos que um único espécimen da vulgar bactéria E. coli, muito usada em estudos laboratorias, tem capacidade reprodutiva para em menos de dois dias, apenas 37 horas, cobrir toda a superficie dos oceanos, se tivesse nutrientes e àgua doce; no entanto, o tempo necessário para que a sua estrutura genética se tenha organizado até ao que agora é, segundo o acaso e o sucesso geracional, é medido à escala das centenas de milhões de anos.

Além da sua abordagem puramente científica, este livro levanta, não intencional nem explicitamente, questões importantes do ponto de vista humano e mesmo religioso. Estas questões estão relacionadas com o abandono de uma perspectiva geocêntrica da vida. Não pela abertura à especulação de civilizações alienígenas ou de consciências extraterrestres que facilmente descambam em discussões mais ou menos míticas, mas na refutação de crenças importantes e fundadoras como as que estão associadas à Bíblia e ao papel do homem enquanto legado divino, e como acontece actualmente com muitos assuntos relacionados com as ciências da vida, ao carácter absoluto do seu valor. Só por si é já este um bom motivo para uma leitura curiosa.

António Fonseca
antonio.fonseca@netcabo.pt
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