From Trotsky to Gödel: The Life of Jean Van Heijenoort
3 de Dezembro de 2005 ⋅ História da filosofia

Política, lógica e amor

Desidério Murcho
From Trotsky to Gödel: The Life of Jean Van Heijenoort, de Anita Burdman Feferman
Wellesley, MA: A. K. Peters, 1993, 432 pp.
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Em Outubro a Cambridge University Press publicou uma biografia de Tarski, o filósofo e lógico polaco que mudou a face do estudo filosófico sobre a verdade, da autoria do casal Feferman. Enquanto não lhe deito mão, vale a pena recordar a excelente biografia de Van Heijenoort, da autoria de Anita Feferman, publicada pela primeira vez em 1993 e reeditada em 2000.

Van Heijenoort (1912-1986) foi um destacado historiador da lógica formal, conhecido sobretudo por ter organizado a importante antologia From Frege to Gödel: A Source Book in Mathematical Logic. Antes da sua carreira académica nos Estados Unidos da América, Heijenoort foi o secretário particular de Trotsky — um eufemismo para "guarda-costas". Esta biografia retrata os três aspectos mais importantes da vida de Heijenoort: a sua actividade académica; a sua vida como revolucionário activo; e a sua vida como pinga-amor. Heijenoort foi casado várias vezes, e teve outros tantos casos amorosos. A sua vida amorosa foi por vezes tão complicada que a autora tem de tratá-la separadamente, recuando depois na cronologia para tratar dos outros aspectos da sua vida no mesmo período.

Americano de nacionalidade, Jean van Heijenoort nasceu em França. A sua mãe era francesa e o pai holandês. Na sequência da primeira guerra mundial, a mãe de Heijenoort perdeu a cidadania francesa por ter casado com um holandês, que morreu quando Heijenoort era criança; reduzida à extrema pobreza de uma criada interna, a sua vida era extremamente difícil. Apesar de tão humildes origens, Heijenoort foi estimulado desde a escola primária a prosseguir os estudos, dado ter revelado uma grande inteligência e disciplina. Por isso, pôde tornar-se mais tarde um reputado académico. Esta situação dificilmente aconteceria entre nós, dado que o conceito de estimular e apoiar o talento e a inteligência não é visto no nosso sistema de ensino como um imperativo nacional, procurando-se ao invés nivelar por baixo, para assim permitir aos que começam por cima que permaneçam em cima.

Heijenoort sempre se queixou da rígida disciplina do Lycée Saint-Louis, para onde foi enviado com uma bolsa, mas sempre elogiou a qualidade do seu ensino. Aliás, aprendeu muito e bem nesse liceu dado que, depois de uma interrupção de dez anos, durante os quais foi secretário particular de Trotsky, foi admitido sem qualquer licenciatura como estudante de doutoramento em lógica matemática na Universidade de Nova Iorque — uma das áreas mais difíceis do conhecimento numa das melhores universidades do mundo.

Heijenoort sempre exerceu uma forte atracção nas mulheres, e persistiu no vício de conquistador inveterado até aos sessenta anos. A generalidade das mulheres ficavam amigas dele e da sua mãe, que nunca fazia comentários sobre a vida amorosa do filho, recebendo todas as suas mulheres como parte da família. Mas o idílio amoroso teve uma excepção fatal e Heijenoort acabou por ser assassinado no México por uma mulher que sofria de perturbações mentais.

Esta biografia dá-nos a conhecer com ternura, mas justiça, um homem que teve uma vida ímpar e complexa. A narrativa fluente e elegante é tão emocionante que nos prende da primeira à última página. E acaba de vez com o mito calino mas vergonhosamente persistente de que os lógicos são pessoas frias e sem paixão.

Desidério Murcho
desiderio@ifac.ufop.br
Publicado no jornal Público (9 de Julho de 2005)
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