O Feiticeiro e a Sombra
8 de Agosto de 2003 ⋅ Livros

Gued, um Harry Potter desconhecido

Desidério Murcho
O Feiticeiro e a Sombra, de Ursula K. Le Guin
Presença, 2001, 180 pp., 7,49 €
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Harry Potter chegou ao mercado português, e conquistou leitores. Não sei se é merecido, mas sei que é imerecido que Gued não conquiste ainda mais leitores felizes. Apenas em 180 páginas mágicas, Le Guin conta uma história com sabor mítico, sobre o maior feiticeiro que alguma vez viveu em Terramar, uma terra famosa pelos seus feiticeiros. Situada no país da imaginação, com vastos oceanos e muitas ilhas e arquipélagos, Terramar é uma espécie de Idade Média mítica ao sabor dos melhores contos tradicionais.

A mão segura de Le Guin é inesquecível. Além da elegância simples da sua prosa poética, de aspecto mítico e antigo, temos personagens tão humanas que se fica com a sensação de que são gente que conhecemos dos acasos da vida. Por outro lado, o modo como Le Guin recria o mundo da feitiçaria (ao invés de se limitar a repetir mitos urbanos) permite ao leitor a descoberta de um universo novo apesar de antigo. Acresce ainda as personalidades inesquecíveis do protagonista, Gued, e do seu Mestre Óguion, o Silencioso; e a amizade a toda a prova, e a rectidão — mas também a vaidade mesquinha e a maldade profunda que é preciso combater.

O Feiticeiro e a Sombra é o primeiro volume do Ciclo de Terramar. Foi originalmente publicado com imenso sucesso em 1968. Destinado originalmente apenas a pré-adolescentes, cedo se tornou leitura para todas as idades, cresceu e deu origem ao referido Ciclo. Apesar de nunca ter parado de se reeditar em trinta anos, foi o sucesso de Harry Potter que voltou a fazer disparar as vendas — e levou a autora a escrever um novo volume da série, que acaba de sair com o título The Other Wind. A trilogia original tinha sido publicada em 1980 pela Livros do Brasil, com excelente tradução de Eurico da Fonseca. Temos agora uma nova tradução, melhor do que excelente, de Carlos Grifo Babo. O tradutor mudou alguns nomes para que o leitor português pense neles com os sons originais: o original Ged surge como Gued, para que não se pense no nome como "Jed". A opção é discutível, mas a tradução é tão esmerada que apaga quaisquer resistências. Saíram já o segundo e terceiro volumes da série. Não perca a leitura de nenhum e ofereça-os aos miúdos lá de casa e arredores.

Desidério Murcho
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