Filosofia — 10.º ano
Junho de 2003 ⋅ Ensino da filosofia

Um manual possível?

Júlio Sameiro
Filosofia — 10.º ano, de de Marcello Fernandes e Nazaré Barros
Lisboa Editora, 2003

O manual Filosofia — 10.º Ano, de Marcello Fernandes e Nazaré Barros, publicado pela Lisboa Editora, salienta, logo no segundo parágrafo do ponto "1.1 O que é a filosofia? Uma resposta inicial" a caracterização platónica da filosofia como "actividade daqueles que através da razão procuram a verdade". E já nada lhe pode retirar um merecido elogio por este ponto.

Talvez a minha alegria por encontrar tal banalidade num manual surpreenda o leitor. Mas esta alegria justifica-se. Primeiro, porque, depois de tanto manual filoconfusionista é saudável encontrar uma verdade sobre filosofia no Módulo inicial. Segundo, e mais importante, é a partir dessa banalidade que o estudante pode perceber o que é a filosofia, que ele já a faz e o que a disciplina propõe. É fácil exemplificar a actividade filosófica lançando na turma o debate sobre algumas questões filosóficas (como a da moralidade ou não da eutanásia, ou da existência de Deus) para depois fazer notar ao aluno que já está a filosofar: a tentar enunciar uma resposta que crê verdadeira e a tentar justificá-la por meio da razão. Depois há que mostrar que alguns problemas trazidos à colação são problemas empíricos e não filosóficos e situar o papel dos dados empíricos na discussão de princípios. E assim por diante, tornando clara a especificidade da filosofia e sem ser atormentado pelo receio de que especifidade seja igual a um fechamento da filosofia em si mesma, em matérias inacessíveis, mito que parece atormentar tantos manuais e que, talvez por isso, neles se autorealiza.

É pena que os autores, ainda neste ponto 1.1 se tenham afastado desta linha confundindo as coisas. Declaram que "é inútil buscar uma definição unívoca para a filosofia" (pág. 12) e passam a usar um expediente habitual, o de apresentar a filosofia não como uma disciplina (que seria indefinível) mas como uma atitude, uma espécie de ânsia que toca a todos os seres humanos mas em especial aos filósofos... na base de textos, claro.

O uso de tais expedientes deriva de um falso problema da didáctica da filosofia: deve-se definir a filosofia no início da disciplina, sabendo que isso vai complicar desnecessariamente as aulas? Ou deve-se evitar ou adiar esse momento e começar pela "prática"? Ou...?

O erro de quem formula esta questão está no facto de ter em mente apenas definições substantivas da filosofia. Mas estas definições substantivas são elaboradas, em regra, por filósofos experientes e reflectem a natural preferência do filósofo pela disciplina a que mais se aplicou, onde fez mais descobertas. Por isso o leigo fica perplexo face a uma variedade de definições que fazem da filosofia ora uma ontologia, ora uma epistemologia, ou filosofia da linguagem, etc. Confrontar o estudante com tal variedade só pode ser desorientador e, mais grave ainda, promove o truque de desonestidade intelectual que consiste em "arranjar uma conversa" que ligue artificialmente tão díspares definições. Mas a didáctica da disciplina nem tem que preocupar-se com todo este assunto. Definições substantivas, nesta fase, devem ser excluídas. Primeiro porque implicariam já um domínio das matérias; segundo porque a discussão por elas suscitada desvia o ensino da prática do filosofar; terceiro porque não é necessária a definição substantiva para orientar a actividade do estudante.

As definições substantivas da filosofia são, nesta fase, desajustadas. Mas, em vez de expedientes, é correcto e didacticamente adequado caracterizar a filosofia como actividade.

— Que fazem os filósofos?

— São curiosos! Enfrentam problemas filosóficos (sem solução empírica seja pela sua natureza, seja por alguma limitação histórica); examinam respostas (teorias filosóficas) perguntando sempre "É isso verdade?" Criticam e corrigem teorias por meio da razão (ainda que o material empírico possa ter um papel importante na sua argumentação); usam a imaginação para reformular problemas, inventar teorias alternativas e recomeçam o processo...

E nada disto obriga a tomar posição sobre o objecto nuclear da disciplina ou a disciplina mais importante da filosofia...

O manual, neste ponto 1.1. desvia-se da caracterização da actividade filosófica e apresenta uma colecção de textos. Que textos?

O primeiro é um texto com uma fantasiosa oposição entre as pessoas "imperturbavelmente competentes" e adaptadas do nosso tempo e o filósofo inadaptado e "perplexo" que "foge de qualquer máquina" mas que teria a vantagem (e única) de "ser uma espécie de espectador de naufrágios" e, enfim, confundindo "pensar com regras" com "pensar de acordo com hábitos e convenções sociais" e "reflexão filosófica" com "pensar sem (quaisquer) regras" diz mais algumas parvoíces. O Autor, Daniel Innerarity, está obviamente a falar de si mesmo ignorando a filosofia que, nas últimas décadas, tem revelado pujança e maturidade sem precedentes e que só o nosso atraso cultural impede de ver. Atraso ao qual livros como A filosofia como uma das belas-artes de onde foi retirado o texto, apenas dão uma sombria legitimidade.

Mas, apesar de uma ou outra aberração como a do Sr. Daniel, não quero amaldiçoar a escolha de textos do manual. A decisão dos autores de fazer uma manual quase como antologia de textos é infeliz porque promove a transformação do meio, o texto, em finalidade. Mas deve-se sublinhar o esforço dos autores para fazerem escolhas sensatas. A maioria dos textos é acessível e é possível encontrar textos que satisfaçam planificações diferentes. Parece-me óbvio, também, que o manual foi prejudicado pela mau panorama da edição portuguesa de Filosofia. Dada a frequência, louvável, com que usam autores acessíveis, como Nigel, Warburton, Savater, acredito que se o nosso panorama editorial não fosse tão aberrante, este manual seria ainda melhor.

Resta dizer, ainda sobre o Módulo Inicial, que o item "1.3 A dimensão discursiva do trabalho filosófico" não embarca na salada do costume e pode ser usado, apesar de alguns erros já não desculpáveis, como na pág. 51, ao apresentar uma frase condicional como exemplo de um argumento dedutivo. Mas errar é a condição de quem procura ser claro — só os manuais pós-moderno-confusionistas podem dormir descansados porque nunca erram.

Em resumo: não é o manual da minha eleição, mas está longe de merecer a reciclagem para onde mandarei os outros.

Júlio Sameiro

Texto retirado de Filosofia e Educação
Termos de utilização ⋅ Não reproduza sem citar a fonte