Ensaios de Filosofia
Junho de 2003 ⋅ Ensino da filosofia

Um manual a perder

Álvaro Nunes
Filosofia 10, de Carlos Amorim, M. Isabel Chorão Aguiar e M. Margarida Moreira
Areal Editores, 2003

Uma tendência que embora já se tenha notado em ocasiões anteriores se acentuou extraordinariamente agora é a de fazer acompanhar os exemplares dos manuais distribuídos aos professores para adopção de vários outros instrumentos auxiliares de ensino. Assim, na maior parte dos casos, para além dos manuais, os professores também recebem cadernos de actividades, guias do professor, vídeos (ou promessas de vídeos em caso de adopção), acetatos, cds com materiais, etc., etc.

Em princípio, nada há de errado nisto. O recurso a estratégias diversificadas que procurem fazer com que os alunos passem progressivamente do "vivido ao pensado", quando adequadas e adequadamente aplicadas, pode ser uma excelente forma de começar a tratar um problema filosófico. Contudo, a utilidade desses instrumentos depende da sua adequação e qualidade e isto, por sua vez, depende da adequação e qualidade do manual, isto é, da forma como são tratados os temas/conteúdos das diferentes unidades do programa. Assim, é necessário que o manual apresente uma concepção adequada de filosofia no capítulo correspondente ao módulo inicial do programa e que isto se reflicta nos outros capítulos, para que os materiais que o acompanham possam ter alguma utilidade. Se isso não acontecer, não há razão para esperar que os materiais sejam de qualidade ou a sua ligação aos conteúdos adequada. É fácil, nesta situação, que estes instrumentos sejam usados para permitir que os alunos expressem opiniões avulsas, levemente ligadas aos conteúdos, em que mostram, não acuidade no tratamento de problemas filosóficos, mas a sua maior ou menor cultura geral e que a aula degenere em algo muito parecido com uma conversa de café que, embora interessante, não têm o rigor que, mesmo nestes estádios iniciais, deve ser exigido no trabalho filosófico.

Este perigo é tanto mais sério quanto a origem do mal radica no próprio programa da disciplina. A menor qualidade científica que em geral os manuais actuais revelam deve-se em parte à tentativa de cumprir as indicações do programa. Isto é particularmente notório no caso daquilo que o programa entende por filosofia e por actividade filosófica ― uma mera actividade de interpretação ―, e que se reflecte depois negativamente nas estratégias, nos instrumentos e nas tarefas que acompanham os manuais.[1] Os autores de muitos manuais, ao tentarem cumprir as indicações do programa, acabam por propor instrumentos e actividades que, com frequência, parecem mais adequados a níveis etários muito inferiores e não a alunos que terminaram a escolaridade obrigatória.

Passa-se isto com o manual Filosofia 10 de Carlos Amorim, M. Isabel Chorão Aguiar e M. Margarida Moreira, publicado pela Areal Editores. A acompanhar o manual vêm um guia do professor, um caderno de actividades, um vídeo e uma colecção de transparências. Uma breve leitura da unidade inicial mostra que os autores não sabem o que é a filosofia e misturam textos de orientações diferentes com comentários vagos e vazios na esperança de que ninguém dê conta da sua ignorância. Assim, este conjunto de instrumentos, como adiante veremos, é não só inútil como prejudicial. A título de exemplo veja-se como na secção 1.1 O que é a filosofia? Uma resposta inicial, a partir de um texto de Simon Backburn sobre a palavra "filosofia", os autores chegam ao problema de saber o que é pensar:

"O que é pensar? (...) Pensar é produzir pensamentos. Os pensamentos são o produto do pensar." (p. 12)[2]

Daqui parte-se para as relações entre pensamento e linguagem para concluir na página 13 que "as relações entre o pensamento e a linguagem são de interdependência e que ambos se sustentam no processo de crescimento dos indivíduos.", e para passar depois ao esclarecimento do que são conceitos, juízos e raciocínios, o que teria mais razão de ser na secção 1.3 A dimensão discursiva do trabalho filosófico. Nesta secção ficamos a saber o que constitui uma tese, um argumento e, finalmente, a interpretação. Assim, é-nos dito que o oposto da tese é a antítese (p. 30) e que a interpretação consiste em "[t]ornar claro, encontrar um sentido escondido, dar uma significação." Mas é no capítulo 1 "Comentário de Textos Filosóficos" do Caderno de Actividades (p. 4) que ficamos a saber melhor em que consiste a interpretação. Diz-se aí:

"O texto pode ser olhado de quatro pontos de vista, o que implica quatro estilos diferentes de comentário.

METODOLOGIA

Um comentário de texto deverá desenvolver quatro formas de interpretação:

  • emotiva
  • histórica e biográfica
  • estrutural
  • existencial-universal

a) Interpretação emotiva

Segundo este estilo de interpretação, o elemento mais importante de todo o processo comunicativo é o leitor. E a pergunta-chave é: O que me diz o texto?

O que está no centro é a reacção pessoal do leitor ao texto. Há assim um carácter subjectivo da interpretação que leva a que o leitor coloque nessa interpretação muito do que é, projectando no texto preconceitos e atitudes que vão interferir numa interpretação isenta e objectiva. No entanto, e correndo todos estes riscos, não podemos deixar de nos implicar no comentário que fazemos ao texto.

Comentar um texto não é mais do que discutir com ele.

c) Interpretação estrutural

Aqui é dada primazia à estrutura do texto, isto é, à sua forma.

Deixam-se de lado os tipos de interpretação anteriores e as suas implicações.

É uma análise que dá objectividade ao trabalho de comentário.

d) Interpretação existencial-universal

Esta é a perspectiva mais filosófica do trabalho de interpretação.

Neste tipo interpretativo ressalta-se o mundo do texto, ou seja, as experiências humanas que põe em jogo ou as possibilidades existenciais que abre ao leitor.

Para se trabalhar neste sentido há que começar por colocar a questão à qual o texto tenta responder e confrontá-la com a nossa própria vida.

Não é o mesmo que projectar no texto as nossas vivências, mas sim confrontá-las com o que o próprio texto diz."

Para ilustrar a utilização desta metodologia, usa-se o texto de Simon Blackurn da página 24 do manual, o que origina coisas como estas:

"a) Interpretação emotiva

Este é um texto que vai directamente ao que pretende transmitir.

Perante ele, sinto-me também filósofo, pois em qualquer momento da minha existência já coloquei ou poderei vir a colocar qualquer uma destas questões. Perante elas sinto uma estranheza profunda diante das coisas.

b) Interpretação histórica e biográfica (explicamos o texto pela sua origem)

Este texto pertence à obra Pense uma Introdução à Filosofia, de Simon Blackburn. Este autor contemporâneo inglês pretende, com este texto, dirigir-se a um público vasto, não só aos interessados na filosofia, sejam eles professores, estudantes ou outros, mas a um auditório a quem a filosofia desperte curiosidade e procure saber o que ela é, o que pretende e como se faz.

É, diríamos, um texto integrado numa obra de divulgação desta arte da reflexão."

No Caderno de Actividades há outras sugestões de procedimentos metodológicos. Assim, ficamos a saber que para fazer a análise de um texto é necessário

"― ler com a atenção o texto;

― sublinhar as palavras-chave que o próprio autor destaca ao expor as suas ideias;

― ligar essas palavras-chave de forma a encontrarmos a(s) ideia(s) fundamentais;

― procurar as relações mais significativas e interessantes entre as ideias-chave e outras ideias do texto;

― procurar as relações entre estas ideias e outras que encontremos noutros textos para enriquecermos o nosso pensamento sobre o assunto em estudo." (p. 29)

É impossível darmos aqui conta de todas as passagens ― e são mesmo muitas ― que mereceriam destaque, pelo que chamamos apenas a atenção para o esclarecimento das relações entre problema e questão na secção 1.2 Quais as questões da Filosofia? (página 19 do manual) e para a sugestão de actividade da página 37.

Enfim, mais um manual como muitos outros que existem no mercado e com o qual não é possível ensinar ou aprender filosofia.

Álvaro Nunes

Texto retirado de Filosofia e Educação

Notas

[1] Continuo a considerar o modelo socrático o mais adequado ao ensino e aprendizagem da filosofia. O recurso a instrumentos auxiliares como os que são fornecidos a acompanhar os manuais deve, a meu ver, ter como finalidade facilitar e promover a aplicação desse modelo e das competências críticas que podem assim ser adquiridas. Consulte-se a este propósito o texto de Adam Morton Apêndice para professores.

[2] São coisas deste tipo que produzem nos alunos a imagem que vulgarmente têm da filosofia como um conjunto de banalidades e trivialidades.

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