A Filha de Galileu, de Dava Sobel
Junho de 2003 ⋅ Livros

Amor fraternal

Desidério Murcho
A Filha de Galileu, de Dava Sobel
Tradução de Maria Eduarda Correia
Temas e Debates, Lisboa, 2002, 408 pp, 22 euros

O sucesso que este livro teve em terras de língua inglesa foi afinal merecido; e a tradução e edição portuguesa são de chorar por mais — capa dura, fita marcadora, as imagens da edição original e uma tradução de qualidade impressionante. Maria Eduarda Correia traduziu como se deve traduzir: de tal modo que não parece uma tradução. Está de parabéns editor e tradutora — e, portanto, os leitores e a cultura portuguesa.

Sobel apresenta-nos uma biografia de Galileu centrada na figura da sua filha, Soror Maria Celeste. Baseando-se nas cartas desta que Galileu guardou e não se perderam (ao contrário das cartas de Galileu para a filha), Sobel mostra-nos a vida de Galileu e a profunda relação de amor fraternal que os unia a ambos. Maria Celeste cedo foi enviada para um convento, pois era esse o melhor futuro que o pai lhe podia dar. Pai e filha eram ambos muito devotos tanto a Deus como um ao outro e é uma lição de vida ver tal relação perante os nossos olhos.

A maior parte do livro versa sobre a vida de Galileu, rica em aventuras intelectuais que conquistaram o mundo, mudaram a face da ciência e abalaram a Igreja Católica. Com simplicidade e elegância, objectividade e poesia, Dava Sobel conduz-nos pelos labirintos de uma história de inteligência, coragem e amor ao conhecimento. Vemos um Galileu combativo e enérgico, que conquista honrarias e prestígio internacional à medida que o seu olhar vai penetrando nos mistérios do muito grande, através do telescópio por ele inventado. E vemo-lo esbarrar contra uma Igreja tonta, apesar de tudo ter feito para garantir que não defendia a teoria de que a terra não estava imóvel no centro do universo — que apenas a discutia como uma hipótese religiosamente dada como falsa por decreto papal, mas que cientificamente não pode ser refutada. As voltas que o mundo dá, como diz Gedeão.

No final da vida Galileu foi humilhado pela Igreja, perdeu a filha e grande parte da sua energia. Mas continuou a estudar e a pensar, e algumas das suas obras desse período foram das mais importantes. Valeu-lhe a admiração e amizade de estudantes e colegas, que o apoiaram até ao fim e o viram como o que realmente era: um homem ímpar pela inteligência, bondade e rectidão. Uma obra a não perder, nem com decreto papal.

Desidério Murcho
Revista "Os Meus Livros", 4 (Setembro de 2002)
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